quinta-feira, 30 de abril de 2009

Liderança e Solidariedade na hora certa


A menina, 13 anos, ganhou um prêmio e foi cantar o Star Spangled Banner, hino dos EUA, no jogo da NBA. Vinte mil pessoas no estádio, ela afinadinha. 

Aí o braço tremeu,ela engasgou, esqueceu a letra...DEU BRANCO !!! Treze anos. Sozinha, ali no meio... O público estupefato ameaça uma vaia... 

Num repente, Mo Cheeks, técnico dos Portland Trail Blazers, aparece ao seu lado e começa a cantar, incentivando-a, e trazendo o público junto. 

Bonita cena e o que é mais incrível, só o técnico tomou a iniciativa de ir até lá para ajudar, enquanto os demais à volta dela só observavam estupefatos... Mostra como uma atitude de liderança e solidariedade, na hora certa, pode fazer uma grande diferença,para ajudarmos um ser humano e mudar a história do jogo da vida ...

Será que isso já não aconteceu em nossas vidas? E a nossa atitude foi a do
técnico Mo Cheeks ou da de todos que estavam em volta, comum e de descaso?



Diferenças entre homens e mulheres

Vôo Noturno - Antoine de Saint-Exupéry

Na tarde dourada, já as colinas, sob o avião, iam cavando o seu rasto de sombra. Os campos tomavam-se luminosos, duma luminosidade perene: naquelas regiões, os campos não cessam de espalhar o seu ouro, assim como no inverno não findam a sua apoteose de neve.

E o piloto Fabien, conduzindo, do extremo sul para Buenos Aires, o correio da Patagônia, reconhecia a aproximação da noite pelos mesmos sinais das águas de um porto: aquela calina, as pregas ténues esboçadas por nuvens tranquilas. Entrava numa enseada vasta e feliz.

Perante tão profunda calma, Fabien poderia também julgar-se em longo passeio, como um pastor. Os pastores da Patagônia vão, sem pressa, dum rebanho a outro: ele ia duma cidade a outra, era o pastor das pequenas cidades. De duas em duas horas encontrava uma, aplacando a sede à beira dum rio ou ruminando no meio do seu campo.

Por vezes, após cem quilômetros de charnecas mais despovoadas do que o mar, Fabien cruzava com uma herdade perdida, que parecia arrastar consigo, numa onda de prados, uma carga de vidas humanas; e então o piloto saudava esse navio com as asas.

"San Julian à vista; aterramos dentro de dez minutos."

O radiotelegrafista transmitia a notícia a todos os postos da linha.

Num percurso de mil e quinhentos quilómetros, do Estreito de Magalhães até Buenos Aires, sucediam-se escalas semelhantes; mas esta abria-se sobre as fronteiras da noite, como na África, à beira do mistério, se levanta a última aldeia conquistada.

O radiotelegrafista deu um papel ao piloto:

"As tempestades são tantas que os meus auscultadores estão cheios de descargas. Dormiremos em San Julian?"

Fabien sorriu: o céu estava calmo como um aquário e dali para frente todas as escalas assinalavam: "Céu limpo, vento nulo". Respondeu :

"Continuaremos".

Mas o radiotelegrafista pressentia que as tempestades se haviam escondido em algum lugar, como os vermes se escondem nos frutos, a noite seria bela, mas estragada; repugnava-lhe entrar naquela escuridão prestes a apodrecer.

Ao descer sobre San Julian com o motor au ralenti, Fabien sentiu-se cansado. Crescia ao seu encontro tudo o que torna agradável a vida dos homens: as suas casas, os seus pequenos cafés, as árvores das suas avenidas. Fabien sentia-se como um conquistador após suas conquistas que, ao debruçar sobre as terras do seu império, descobrisse a felicidade dos homens. Precisava depor as armas, sentiu o seu próprio peso, o seu esgotamento, porque, às vezes, até as nossas misérias nos fazem ricos. Precisava ainda sentir-se um homem simples, contemplando da sua janela uma paisagem para sempre imutável. 

Teria aceito aquela minúscula aldeia: após havermos escolhido, contentamo-nos com o acaso que governa a nossa existência e podemos amá-lo. Limita-nos como o amor. Fabien desejaria viver muito tempo neste lugar, desfrutando a sua pequena parcela de eternidade, pois as cidadezinhas onde ficava uma hora e os seus jardins cercados por velhos muros, que ele cruzava, pareciam-lhe eternos, porque perduravam fora dele. E a aldeia crescia ao encontro da tripulação e abria-se-lhe. E Fabien sonhava com amizades, com a suavidade das moças, com a intimidade criada por toalhas brancas, com tudo o que lentamente o nosso coração vai conservando para todo o sempre. 

As asas quase roçavam a aldeia, que corria, desvendando o mistério dos seus jardins encerrados em muros que já não os protegiam. Mas, tendo aterrado, Fabien compreendeu que vira apenas o lento arrastar dum punhado de homens no meio das suas pedras. A esta aldeia, bastava-lhe a imobilidade para garantir o segredo das suas paixões e para negar-lhe, a ele, a sua suavidade: se a quisesse conquistar, teria de renunciar à ação.

Passados os dez minutos previstos para a escala, Fabien teve de partir.

Voltou-se para San Julian: agora era apenas um punhado de luzes, depois de estrelas, depois, até a poeira, que por último o tentara, se dissipara.

"Já não vejo os mostradores: vou acender as luzes."

Ligou, mas na "atmosfera azulada as lâmpadas vermelhas da carlinga projetaram sobre as agulhas uma luz ainda tão diluída que não conseguiu iluminá-las. Passou a mão pela lâmpada: os dedos ficaram apenas róseos.

"Cedo demais."

Porém, como um fumo escuro, a noite ia crescendo e já enchia os vales, confundindo-os com os campos. E também já se alumiavam as aldeias, e as constelações que elas formavam respondiam umas às outras. E ele, por sua vez, acendendo e apagando as luzes de posição respondia às aldeias. A terra enchia-se de apelos luminosos, cada lar ateando a sua estrela perante a noite imensa, tal como a luz dum farol voltado para o mar. Tudo o que abrigava uma vida humana cintilava já. Fabien maravilhava-se ao ver que desta vez a entrada na noite fazia lembrar a chegada, lenta e bela, a uma enseada.

Enfiou a cabeça na carlinga. O rádio das agulhas começava a luzir. O piloto verificou os números um por um e ficou satisfeito. Sentia-se solidamente sentado no céu. As pontas dos seus dedos afloraram uma longarina de aço e Fabien sentiu a vida pulsar no metal: o metal não vibrava, vivia. Os quinhentos cavalos do motor faziam passar pela matéria rígida uma corrente muito doce, que transformava o gelo em carne veludínea. Uma vez mais, o piloto não sentia, ao voar, nem vertigem, nem embriaguez mas o trabalhar misterioso duma carne com vida.

O seu mundo estava agora recomposto e Fabien ajeitava-se para se instalar bem comodamente nele.

Tocou levemente no quadro de distribuição elétrica e em seguida em, cada um dos contatos, mexeu-se um pouco, encostou-se mais confortavelmente e procurou a posição em que melhor pudesse sentir o balançar das cinco toneladas de metal que a noite movediça soerguia. Depois, às apalpadelas, procurou a lâmpada de socorro, empurrou-a para o seu lugar, perdeu-a, voltou a encontrá-la, certificou-se que não escorregaria, deixando-a de novo para bater levemente com a ponta dos dedos em cada alavanca automaticamente, adestrando os dedos para um mundo de cego. E só então, sentindo-os bem adestrados, decidiu-se a acender uma lâmpada, que veio mobilar a carlinga de instrumentos exatos.

 E como se desse um mergulho, passou a vigiar apenas, no painel, a entrada da noite. Depois, visto que nada vacilava, vibrava ou tremia e que o giroscópio, o altímetro e o regime do motor estavam em ordem, estirou-se um pouco, apoiou a nuca no assento de couro e deixou-se levar por aquela profunda meditação do vôo, em que se goza uma esperança inexplicável.

E agora, no coração da noite, como um vigia, Fabien descobre que a noite mostra o homem: aqueles apelos, aquelas luzes, aquela inquietação. Esta simples estrela na escuridão: o isolamento duma casa. Uma estrela que se apaga: é um lar que se fecha no seu amor.

Ou no seu tédio. É uma casa que cessa de acenar ao resto do mundo. Os camponeses, sentados à mesa junto do candeeiro, mal sabem o que desejam: ignoram que, na imensa noite que os contém, o seu desejo tem um tão grande alcance. Mas, vindo de mil quilómetros de distância, Fabien descobre esse alcance e sente que vagas profundas fazem subir e descer o avião que respira, após ter atravessado dez tempestades, como países em guerra, separados por clareiras de luar, ao atingir, uma a uma, embebido num sentimento de vitória, aquelas luzes. 

Os camponeses crêem que a luz do seu lampião ilumina apenas a mesa humilde, mas a oitenta quilômetros de distância, alguém já distinguiu o apêlo dessa luz, como se aqueles homens a balouçassem, desesperados, numa ilha deserta, em frente do mar

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A gripe suína e o monstruoso poder da indústria pecuária

Em 1965, havia nos EUA 53 milhões de porcos espalhados entre mais de um milhão de granjas. Hoje, 65 milhões de porcos concentram-se em 65 mil instalações. Isso significou passar das antiquadas pocilgas a gigantescos infernos fecais nos quais, entre esterco e sob um calor sufocante, prontos a intercambiar agentes patógenos à velocidade de um raio, amontoam-se dezenas de milhares de animais com sistemas imunológicos debilitados. Cientistas advertem sobre o perigo das granjas industriais: a contínua circulação de vírus nestes ambientes aumenta as oportunidades de aparição de novos vírus mais eficientes na transmissão entre humanos. A análise é de Mike Davis.

Mike Davis



A gripe suína mexicana, uma quimera genética provavelmente concebido na lama fecal de um criadouro industrial, ameaça subitamente o mundo inteiro com uma febre. Os brotos na América do Norte revelam uma infecção que está viajando já em maior velocidade do que aquela que viajou a última cepa pandêmica oficial, a gripe de Hong Kong, em 1968.

Roubando o protagonismo de nosso último assassino oficial, o vírus H5N1, este vírus suíno representa uma ameaça de magnitude desconhecida. Parece menos letal que o SARS (Síndrome Respiratória Aguda, na sigla em inglês) em 2003, mas como gripe, poderia resultar mais duradoura que a SARS. Dado que as domesticadas gripes estacionais de tipo “A” matam nada menos do que um milhão de pessoas ao ano, mesmo um modesto incremento de virulência, poderia produzir uma carnificina equivalente a uma guerra importante.

Uma de suas primeiras vítimas foi a fé consoladora, predicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), na possibilidade de conter as pandemias com respostas imediatas das burocracias sanitárias e independentemente da qualidade da saúde pública local. Desde as primeiras mortes causadas pelo H5N1 em 1997, em Hong Kong, a OMS, com o apoio da maioria das administrações nacionais de saúde, promoveu uma estratégia centrada na identificação e isolamento de uma cepa pandêmica em seu raio local de eclosão, seguida de uma massiva administração de antivirais e, se disponíveis, vacinas para a população.

Uma legião de céticos criticou esse enfoque de contrainsurgência viral, assinalando que os micróbios podem agora voar ao redor do mundo – quase literalmente no caso da gripe aviária – muito mais rapidamente do que a OMS ou os funcionários locais podem reagir ao foco inicial. Esses especialistas observaram também o caráter primitivo, e às vezes inexistente, da vigilância da interface entre as enfermidades humanas e as animais. Mas o mito de uma intervenção audaciosa, preventiva (e barata) contra a gripe aviária resultou valiosíssimo para a causa dos países ricos que, como os Estados Unidos e a Inglaterra, preferem investir em suas próprias linhas Maginot biológicas, ao invés de incrementar drasticamente a ajuda às frentes epidêmicas avançadas de ultra mar. Tampouco teve preço esse mito para as grandes transnacionais farmacêuticas, envolvidas em uma guerra sem quartel com as exigências dos países em desenvolvimento empenhados em exigir a produção pública de antivirais genéricos fundamentais como o Tamiflu, patenteado pela Roche.

A versão da OMS e dos centros de controle de enfermidades, que já trabalha com a hipótese de uma pandemia, sem maior necessidade novos investimentos massivos em vigilância sanitária, infraestrutura científica e reguladora, saúde pública básica e acesso global a medicamentos vitais, será agora decisivamente posta a prova pela gripe suída e talvez averigüemos que pertence à mesma categoria de gestão de risco que os títulos e obrigações de Madoff. Não é tão difícil que fracasse o sistema de alertas levando em conta que ele simplesmente não existe. Nem sequer na América do Norte e na União Européia.

Não chega a ser surpreendente que o México careça tanto de capacidade como de vontade política para administrar enfermidades avícolas ou pecuárias, pois a situação só é um pouco melhor ao norte da fronteira, onde a vigilância se desfaz em um infeliz mosaico de jurisdições estatais e as grandes empresas pecuárias enfrentam as regras sanitárias com o mesmo desprezo com que tratam aos trabalhadores e aos animais.

Analogamente, uma década inteira de advertências dos cientistas fracassou em garantir transferências de sofisticadas tecnologias virais experimentais aos países situados nas rotas pandêmicas mais prováveis. O México conta com especialistas sanitários de reputação mundial, mas tem que enviar as amostras a um laboratório de Winnipeg para decifrar o genoma do vírus. Assim se perdeu toda uma semana.

Mas ninguém ficou menos alerta que as autoridades de controle de enfermidades em Atlanta. Segundo o Washington Post, o CDC (Centro de Controle de Doenças) só percebeu o problema seis dias depois de o México ter começado a impor medidas de urgência. Não há desculpas para justificar esse atraso. O paradoxal desta gripe suína é que, mesmo que totalmente inesperada, tenha sido prognosticada com grande precisão. Há seis anos, a revista Science publicou um artigo importante mostrando que “após anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte tinha dado um salto evolutivo vertiginoso”.

Desde sua identificação durante a Grande Depressão, o vírus H1N1 da gripe suína só havia experimentado uma ligeira mudança de seu genoma original. Em 1998, uma variedade muito patógena começou a dizimar porcas em uma granja da Carolina do Norte, e começaram a surgir novas e mais virulentas versões ano após ano, incluindo uma variante do H1N1 que continha os genes do H3N2 (causador da outra gripe de tipo A com capacidade de contágio entre humanos).

Os cientistas entrevistados pela Science mostravam-se preocupados com a possibilidade de que um desses híbridos pudesse se transformar em um vírus de gripe humana – acredita-se que as pandemias de 1957 e de 1968 foram causadas por uma mistura de genes aviários e humanos forjada no interior de organismos de porcos – e defendiam a criação urgente de um sistema oficial de vigilância para a gripe suína: advertência, cabe dizer, que encontrou ouvidos surdos em Washington, que achava mais importante então despejar bilhões de dólares no sumidouro das fantasias bioterroristas.

O que provocou tal aceleração na evolução da gripe suína: Há muito que os estudiosos dos vírus estão convencidos que o sistema de agricultura intensiva da China meridional é o principal vetor da mutação gripal: tanto da “deriva” estacional como do episódico intercâmbio genômico. Mas a industrialização empresarial da produção pecuária rompeu o monopólio natural da China na evolução da gripe. O setor pecuário transformou-se nas últimas décadas em algo que se parece mais com a indústria petroquímica do que com a feliz granja familiar pintada nos livros escolares.

Em 1965, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de porcos espalhados entre mais de um milhão de granjas. Hoje, 65 milhões de porcos concentram-se em 65 mil instalações. Isso significou passar das antiquadas pocilgas a gigantescos infernos fecais nos quais, entre esterco e sob um calor sufocante, prontos a intercambiar agentes patógenos à velocidade de um raio, amontoam-se dezenas de milhares de animais com sistemas imunológicos muito debilitados.

No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um informe sobre a “produção animal em granjas industriais”, onde se destacava o agudo perigo de que “a contínua circulação de vírus (...) característica de enormes aviários ou rebanhos aumentasse as oportunidades de aparição de novos vírus mais eficientes na transmissão entre humanos”. A comissão alertou também que o uso promíscuo de antibióticos nas criações de suínos – mais barato que em ambientes humanos – estava propiciando o surgimento de infecções de estafilococos resistentes, enquanto que os resíduos dessas criações geravam cepas de escherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que matou um bilhão de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).

Qualquer melhora na ecologia deste novo agente patógeno teria que enfrentar-se com o monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e pecuários, como Smithfield Farms (suíno e gado) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática de suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas algumas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento de pesquisadores que cooperaram com a investigação.

Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas. Assim como a gigante avícola Charoen Pokphand, sediada em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre seu papel na propagação da gripe aviária no sudeste asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do vírus da gripe suína bata de frente contra a pétrea muralha da indústria do porco.

Isso não quer dizer que nunca será encontrada uma acusadora pistola fumegante: já corre o rumor na imprensa mexicana de um epicentro da gripe situado em torno de uma gigantesca filial da Smithfield no estado de Vera Cruz. Mas o mais importante – sobretudo pela persistente ameaça do vírus H5N1 – é a floresta, não as árvores: a fracassada estratégia antipandêmica da OMS, a progressiva deterioração da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção pecuária industrializada e ecologicamente bagunçada.

Mike Davis é professor no departamento de História da Universidade da Califórnia (UCI), em Irvine, e um especialista nas relações entre urbanismo e meio ambiente. Ex-caminhoneiro, ex-açogueiro e ex-militante estudantil, Davis é colaborador das revistas New Left Review e The Nation, e autor de vários livros, entre eles Ecologia do Medo, Holocaustos coloniais, O monstro bate a nossa porta (editora Record), e Cidade de quartzo: escavando o futuro em Los Angeles (Boitempo) Também é membro do Conselho Editorial de Sin Permiso.

Artigo publicado originalmente no The Guardian (27/04/2009). Publicado também, em espanhol, no Sin Permiso.

Tradução: Katarina Peixoto


2 Engenheiros e 8 milhões de Reais...

Federico García Lorca, o maior poeta espanhol do século XX

Alba

Mi corazón oprimido
Siente junto a la alborada
El dolor de sus amores
Y el sueño de las distancias.
La luz de la aurora lleva
Semilleros de nostalgias
Y la tristeza sin ojos
De la médula del alma.
La gran tumba de la noche
Su negro velo levanta
Para ocultar con el día
La inmensa cumbre estrellada.

¡Qué haré yo sobre estos campos
Cogiendo nidos y ramas
Rodeado de la aurora
Y llena de noche el alma!
¡Qué haré si tienes tus ojos
Muertos a las luces claras
Y no ha de sentir mi carne
El calor de tus miradas!
¿Por qué te perdí por siempre
En aquella tarde clara?
Hoy mi pecho está reseco
Como una estrella apagada.


Alma ausente

No te conoce el toro ni la higuera,
ni caballos ni hormigas de tu casa.
No te conoce tu recuerdo mudo
porque te has muerto para siempre.

No te conoce el lomo de la piedra,
ni el raso negro donde te destrozas.
No te conoce tu recuerdo mudo
porque te has muerto para siempre.

El otoño vendrá con caracolas,
uva de niebla y montes agrupados,
pero nadie querrá mirar tus ojos
porque te has muerto para siempre.

Porque te has muerto para siempre,
como todos los muertos de la Tierra,
como todos los muertos que se olvidan
en un montón de perros apagados.

No te conoce nadie. No. Pero yo te canto.
Yo canto para luego tu perfil y tu gracia.
La madurez insigne de tu conocimiento.
Tu apetencia de muerte y el gusto de su boca.

La tristeza que tuvo tu valiente alegría.
Tardará mucho tiempo en nacer, si es que nace,
un andaluz tan claro, tan rico de aventura.
Yo canto su elegancia con palabras que gimen
y recuerdo una brisa triste por los olivos.


Casida de la mano imposible

Yo no quiero más que una mano;
una mano herida, si es posible.
Yo no quiero más que una mano
aunque pase mil noches sin lecho.

Sería un pálido lirio de cal.
Sería una paloma amarrada a mi corazón.
Sería el guardián que en la noche de mi tránsito
prohibiera en absoluto la entrada a la luna.

Yo no quiero más que esa mano
para los diarios aceites y la sábana blanca de mi agonía.
Yo no quiero más que esa mano
para tener un ala de mi muerte.

Lo demás todo pasa.
Rubor sin nombre ya. Astro perpetuo.
Lo demás es lo otro; viento triste,
mientras las hojas huyen en bandadas.


Casida del llanto

He cerrado mi balcón
porque no quiero oír el llanto
pero por detrás de los grises muros
no se oye otra cosa que el llanto.

Hay muy pocos ángeles que canten,
hay muy pocos perros que ladren,
mil violines caben en la palma de mi mano.
Pero el llanto es un perro inmenso,
el llanto es un ángel inmenso,
el llanto es un violín inmenso,
las lágrimas amordazan al viento
y no se oye otra cosa que el llanto.


federico garcia lorca 2Federico García Lorca (Fuente Vaqueros, 5 de junho de 1898 — Granada, 19 de agosto de 1936) foi um poeta e dramaturgo espanhol, e uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola.

Nascido numa pequena localidade da Andaluzia, García Lorca ingressou na faculdade de Direito de Granada em 1914, e cinco anos depois transfere-se para Madri, onde ficou amigo de artistas como Luis Buñuel e Salvador Dali e publicou seus primeiros poemas.

Grande parte dos seus primeiros trabalhos se baseiam em temas relativos à Andaluzia (Impressões e Paisagens, 1918), à música e ao folclore regionais (Poemas do Canto Fundo, 1921-1922) e aos ciganos (Romancero Gitano, 1928)

Concluído o curso, foi para os Estados Unidos da América e para Cuba, período de seus poemas surrealistas, manifestando seu desprezo pelo modus vivendi estadunidense. Expressou seu horror com a brutalidade da civilização mecanizada nas chocantes imagens de Poeta em Nova Iorque, publicado em 1940.

Voltando à Espanha, criou um grupo de teatro chamado La Barraca. Não ocultava suas idéias socialistas e, com fortes tendências homossexuais, foi certamente um dos alvos mais visados pelo conservadorismo espanhol que, sob forte influência católica, ensaiava a tomada do poder, dando início a uma das mais sangrentas guerras fratricidas do século XX.

Intimidado, Lorca retornou para Granada, na Andaluzia, na esperança de encontrar um refúgio. Ali, porém, teve sua prisão determinada por um deputado católico, sob o argumento (que tornou-se célebre) de que ele seria "mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver".

Assim, num dia de agosto de 1936, sem julgamento, o grande poeta foi executado com um tiro na nuca pelos nacionalistas, e seu corpo foi jogado num ponto da Serra Nevada. Segundo algumas versões, ele teria sido fuzilado de costas, em alusão a sua homossexualidade. A caneta se calava, mas a Poesia nascia para a eternidade - e o crime teve repercussão em todo o mundo, despertando por todas as partes um sentimento de que o que ocorria na Espanha dizia respeito a todo o planeta... foi um prenúncio da Segunda Guerra Mundial.

Assim como muitos artistas - e a obra Guernica, de Pablo Picasso -, durante o longo regime ditatorial do Generalíssimo Franco, suas obras foram consideradas clandestinas na Espanha.

Com o fim do regime, e a volta do país à democracia, finalmente sua terra natal veio a render-lhe homenagens, sendo hoje considerado o maior autor espanhol desde Miguel de Cervantes

Lorca tornou-se o mais notável numa constelação de poetas surgidos durante a guerra, conhecida como "geração de 27", alinhando-se entre os maiores poetas do século XX. Foi ainda um excelente pintor, compositor precoce e pianista. Sua música se reflete no ritmo e sonoridade de sua obra poética. Como dramaturgo, Lorca fez incursões no drama histórico e na farsa antes de obter sucesso com a tragédia. As três tragédias rurais passadas na Andaluzia, Bodas de Sangue (1933), Yerma (1934) e A Casa de Bernarda Alba (1936) asseguraram sua posição como grande dramaturgo.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Pulando de paraquedas na caverna mais profunda da Terra, "el Sótano de las golondrinas", Mexico

Como sobreviver em reuniões de trabalho

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segunda-feira, 27 de abril de 2009

ABBA - Dancing Queen

Várias maneiras de contar a mesma estória

História de Chapeuzinho Vermelho


JORNAL NACIONAL
(William Bonner): 'Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem...'.
(Fátima Bernardes): '... mas a atuação de um caçador evitou uma tragédia'.

PROGRAMA DA HEBE
(Hebe Camargo): '... que gracinha gente.
Vocês não vão acreditar, mas essa menina linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?'

BRASIL URGENTE
(Datena): '... onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? Cadê as autoridades? ! A menina
ia para a casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público!
Não tem transporte público!
E foi devorada viva... Um lobo, um lobo safado. Põe na tela!! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não.'

REVISTA VEJA
Lula sabia das intenções do lobo.

REVISTA CLÁUDIA
Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho.

REVISTA NOVA
Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama.

FOLHA DE S. PAULO
Legenda da foto: 'Chapeuzinho, à direita, aperta a mão de seu salvador'.
Na matéria, box com um zoólogo explicando os hábitos dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Chapeuzinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.

O ESTADO DE S. PAULO
Lobo que devorou Chapeuzinho seria filiado ao PT.

O GLOBO
Petrobrás apóia ONG do lenhador ligado ao PT que matou um lobo pra salvar menor de idade carente.

ZERO HORA
Avó de Chapeuzinho nasceu no RS.

AGORA
Sangue e tragédia na casa da vovó

REVISTA CARAS
(Ensaio fotográfico com Chapeuzinho na semana seguinte)
Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: 'Até ser devorada, eu não dava valor para muitas coisas da vida. Hoje sou outra pessoa'

PLAYBOY
(Ensaio fotográfico no mês seguinte)
Veja o que só o lobo viu.

ISTO É
Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.
G MAGAZINE
(Ensaio fotográfico com lenhador)
Lenhador mostra o machado

SUPER INTERESSANTE
Lobo mau! Mito ou verdade ?

DISCOVERY CHANNEL
Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver.

domingo, 26 de abril de 2009

Freedom Next Time - John Pilger’s Chicago Address


Nesta excelente palestra o jornalista John Pilger aborda o domínio da mídia pelos grandes grupos econômicos, a distorção da verdade, a co-optação de jornalistas, e toca nos temas de seu novo livro, "Freedom Next Time". Um vídeo essencial para entender a reealidade atual.

Veja abaixo artigo de Stephen Lendman sobre o livro de Pilger.


Freedom Next Time', novo livro de John Pilger

por Stephen Lendman

John Pilger é um jornalista galardoado, realizador de documentários e um dos realmente grandes da nossa época. Durante quase 50 anos tem feito, corajosa e brilhantemente, o que muitos poucos da sua profissão fazem de facto — o seu trabalho. John também foi correspondente de guerra, escreveu 10 livros e é mais conhecido no seu país de adopção, a Inglaterra, pelos seus documentários de investigação em que denuncia os crimes do imperialismo americano e ocidental.

'Freedom Next Time' é o último livro de John e o quinto dele que já li. Os anteriores são magníficos. Assim, quando soube que estava para sair um novo livro, fiquei ansioso por o ler pois sabia que seria de óptima qualidade e que não o podia perder. Não fiquei desiludido e agrada-me partilhar com os leitores o seu conteúdo. Como diz o próprio John no parágrafo de abertura: "Este livro é sobre o império, as suas fachadas e a luta prolongada dos povos pela sua liberdade. Ele proporciona um antídoto às versões autorizadas da história contemporânea que censuram por omissão e impõem padrões duplos". De facto consegue e nele John denuncia os crimes do império em cinco países. Vou tratar de cada um deles em secções separadas.

Introdução – Uma explicação do desígnio imperialista

Na introdução, John explica como a noção imperialista de "pressupostos colonialistas não se alterou", e como, para mante-la, a grande maioria dos povos por toda o mundo "permanece invisível e supérflua". Relata dramaticamente que, enquanto no 11 de Setembro de 2001 morreram tragicamente em Nova Iorque e Washington alguns milhares de pessoas, a Organização Alimentar e Agrícola das Nações Unidas reportou a taxa de mortalidade diária de 36 615 crianças apenas por efeitos da extrema pobreza. Mas não apareceu nos noticiários nenhuma palavra sobre isso, nem nesse dia nem nos dias seguintes. Nem houve qualquer explicação da razão porque essas pessoas não tiveram direito ao mínimo essencial para sobreviver num mundo que tem capacidade para proporcioná-lo. A estes e aos outros mortos diariamente no Iraque, e não só, John chama as "vítimas sem valor" a fim de as distinguir daquelas "com valor" nos EUA do 11/Setembro e na Londres de 7 de Julho de 2005, mortas num atentado "bombista". Os únicos crimes que reconhecemos são os praticados pelos outros – a que chamamos "terroristas" ou etiquetamos de inimigos, e nunca os praticados por nós. Harold Pinter, prémio Nobel, refere-se a isto como "uma grande teia de mentiras, de que nos alimentamos". Sabemos apenas o que os nossos dirigentes e os media seus cúmplices (BBC, NPR e PBS incluídos) resolvem contar-nos, e nunca temos direito à verdade ou à informação completa. O que eles escondem é muito mais importante do que o que eles noticiam.

Até à queda da União Soviética, a noção de imperialismo nos EUA era de que se tratava de uma tradição europeia, não americana. Não era verdade, claro, mas uma educação apropriada nos EUA, como a que recebi, nunca deixava que isso transparecesse. Ela escondia a verdadeira história do meu país que desde a sua origem praticou uma política de expansão imperialista para oeste e para sul e, para a tornar possível, se embrenhou no saque e no genocídio contra os habitantes originais que ali viviam. George Washington foi o primeiro a praticá-la, referindo-se à nova nação como um "império nascente". Ajudou a construí-lo, afastando e exterminando os seus índios nativos, para que a expansão pudesse continuar conforme os desejos dos Pais Fundadores e daqueles que os seguiram. Washington achava que os povos índios eram sub-humanos (não muito diferente da forma como encaramos hoje os iraquianos) e comparava-os a lobos e "predadores" que tinham de ser destruídos. E a nossa sagrada Declaração de Independência continha a linguagem de "cruéis índios selvagens" que não deixava margem para a sua independência nem para qualquer justiça.

A tradição iniciada no nascimento da república nunca se alterou mas até ao fim da "guerra fria" foi bem escondida por trás de uma respeitável fachada democrática e ainda assim continua na sua maior parte. Nunca se ensinou qualquer noção de imperialismo na escola qualquer que fosse o nível, nunca foi discutida na sociedade polida ou reconhecida publicamente. Mas tudo isto mudou nos anos 90 depois da queda da União Soviética. O que anteriormente nunca poderia ser admitido começou agora a ser encarado como algo respeitável e até mesmo uma questão de orgulho nacional. E com a chegada da administração Bush, o domínio e a expansão imperialista começaram a ser retratados como uma coisa positiva e que contribui para o avanço da civilização. Até que ponto descemos para chegar tão longe.

John explica como as prioridades fraudulentas e perigosas de Bush se baseiam nos seus documentos políticos e em especial num concebido alguns anos antes de ele chegar ao poder. Começou com uma "teoria de conspiração messiânica" de 1997, chamada Projecto para o Novo Século Americano (Project for the New American Century, PNAC) , escrito por muitos dos ideólogos neo-conservadores de extrema direita que estão hoje no poder. Este documento é um plano imperialista para o domínio global dos EUA que se estende bem para o futuro e deve ser imposto com poder militar incontestável. Foi um programa para a actual "guerra contra o terrorismo" (a que John chama uma "guerra de terrorismo") e para a "guerra preventiva" que começou a seguir ao 11/Set e está hoje em curso no Iraque e no Afeganistão com outros prováveis conflitos em preparação. O Pentágono vai ainda mais longe na sua Visão 2020 que traça um objectivo a que chama o "domínio de espectro total". Com isto, quer significar o controlo total, incontestado, de todo o território, mar, ar e espaço e o direito auto-assumido de o impor através do uso de armas nucleares ou de qualquer outro tipo.

O governo britânico de Tony Blair faz parte do mesmo esquema como parceiro cúmplice júnior. Considera ser do seu interesse estar aliado aos EUA e à administração Bush e apoia a sua política imperialista. Em consequência, explica John, não é de admirar que o sr. Blair tenha levado o seu país à guerra mais vezes do que qualquer primeiro-ministro britânico nos tempos modernos. Para ele e para George Bush, o direito internacional, as normas e qualquer sentido de moral são irrelevantes e não podem interpor-se no caminho da sua violência política sem limites apresentada como tendo um rosto e um objectivo democráticos. 'Freedom Next Time' denuncia esta hipocrisia mostrando que o "imperialismo, qualquer que seja o seu disfarce, é a antítese da "bondade e da moral". Examina a história e os acontecimentos em cinco países que John conhece bem como jornalista e realizador de filmes.

Antes de começar, na introdução, John trata do presente. Cita os que vêem as sementes do fascismo e as semelhanças perturbantes entre os EUA (e Inglaterra) de hoje e a Alemanha nazi e o apelo demoníaco de Hitler para a sua missão divina como o salvador daquele país, apelo que impingiu ao seu povo em termos religiosos cristãos. Fê-lo num país que era o orgulho da civilização ocidental e um verdadeiro modelo de democracia. Se isso pôde acontecer ali, pode acontecer noutro sítio qualquer e assim acontecerá a menos que haja gente suficiente empenhada em impedi-lo. Mas John sublinha que não escreveu um livro pessimista. Cita as sementes alternativas de esperança, de renascimento da democracia e da igualdade social na América Latina – em especial na Venezuela de Hugo Chavez e na nação mais pobre de todo o continente, na Bolívia de Evo Morales. Considera essas forças como fazendo parte de um "movimento à escala mundial contra a pobreza, a guerra e a desinformação que se ergueu em menos de uma década, e é mais diferente, empreendedor, internacionalista e tolerante das diferenças do que qualquer outra coisa em toda a minha vida". John conclui a sua mensagem de esperança dizendo que os "mais sábios... sabem que, tal como a conquista do Iraque não tem futuro, também todo um sistema de domínio e de empobrecimento pode não o ter".

O livro de John está dividido em cinco capítulos, um para cada nação que trata. Quatro delas são bem conhecidas, mas talvez poucos leitores conheçam a primeira analisada discutida, no arquipélago de Chagos, ou nem sequer saibam onde fica.

Capítulo Um: A expoliação de uma nação chamada Diego Garcia

Diego Garcia é uma pequena ilha de 217 km quadrados controlada pelos britânicos no arquipélago de Chagos no Oceano Índico (oficialmente conhecido como Território Britânico do Oceano Índico) que está situada estrategicamente a meio caminho entre a Ásia e a África. Foi outrora o lar de 2 000 pessoas, "simpáticas crioulas". São cidadãos britânicos mas, entre 1967 e 1973, foram enganadas e expulsas pelo governo inglês para que a sua ilha natal passasse a ser uma base militar dos EUA. Foram enviadas para o exílio para um novo lar inóspito nas Ilhas Maurícias onde sete governos britânicos observaram os seus cidadãos deslocados a sofrer e a perecer nas palhotas em que foram forçados a viver e a pobreza desesperada que foram forçados a suportar.

Este "ato de deportação em massa" foi tão perturbante e desonesto que foi executado em segredo, e durante quase uma década foi escondido do Parlamento e do Congresso americano. Os chagossianos foram tratados com desprezo pois não só perderam a sua terra natal, como foram tratados "como se não existissem". Foram os EUA que fizeram as exigências e estabeleceram as condições do acordo. Washington queria que toda a população fosse expulsa e todo o negócio sujo ficasse encoberto. Então, tal como agora, a Inglaterra alinhou no horrível esquema. As pessoas não tiveram direito a falar, e aos que se recusaram, mentiram-lhes e disseram-lhes que não tinham outra opção porque "a sua deslocação era 'legal' de acordo com as regras da colónia".

No seu novo lar, a vida tornou-se um inferno vivo. Os chagossianos encontraram-se numa sociedade estranha à sua forma de vida simples, e não foram capazes de se adaptar. Em Diego Garcia tinham a sua casa, cultivavam a sua comida, pescavam e trabalhavam numa plantação. Nas Ilhas Maurícias tiveram que procurar trabalho para sobreviver e a maior parte deles não teve qualquer hipótese. O resultado foi que, em meados dos anos 70, a maior parte dos exilados estava desempregada, empobrecida e começou a morrer. O Foreign Office britânico e a Alta Comissão ignoraram desdenhosamente a sua aflição dizendo que os chagossianos deviam resolver o seu problema com o governo de Maurício. Não contou para nada o facto de aquelas pessoas serem cidadãos britânicos e terem os mesmos direitos de todos os outros britânicos. Tudo o que obtiveram em compensação foi 1 000 libras (cerca de 1500 euros) em troca de concordarem em renunciar ao seu direito de voltarem para a sua terra natal, fazendo-o num documento que não sabiam ler.

A história deste desgraçado episódio ficou bem escondida até aos anos 90 quando foi encontrado nos Arquivos Nacionais de Kew, em Londres um "conjunto precioso de documentos que deixaram de ser confidenciais". Comprovou-se que havia uma conspiração entre dois governos a que o Artigo 7 do estatuto do Tribunal Criminal Internacional se refere como uma "deportação ou transferência forçada duma população (e) um crime contra a humanidade". Também violou o Artigo 73 da Carta da ONU que obriga um governo colonialista como a Inglaterra a respeitar a sua "confiança sagrada" de proteger os direitos humanos do seu povo. Vergonhosamente, a Inglaterra não fez nada disso e pelo contrário curvou-se obedientemente aos desejos de Washington e obedeceu às suas ordens tal como ainda o faz hoje. Os dois países também se comprometeram num encobrimento enorme durante uma década que chegou ao mais alto nível de ambos os governos, esperando evitar que a verdade alguma vez viesse a ser conhecida. Os envolvidos incluíram o primeiro-ministro Harold Wilson, a Rainha Isabel e os presidentes Johnson e Nixon, entre outros. Ocultaram tudo, inclusive um suborno financeiro secreto que Washington fez, que foi também escondido do Congresso dos EUA e do Parlamento britânico.

Mas logo que a verdade começou a aparecer, as coisas mudaram. Em 3 de Novembro de 2000, o Supremo Tribunal britânico abalou o governo, citando a Magna Carta e anulou a ordem de deportação inicial. Ou seja, que as pessoas tinham direito a passaportes britânicos e tinham o direito de voltar para casa. Mas foi uma vitória de Pirro de vida breve porque um ano depois os chagossianos voltaram ao Supremo Tribunal à procura duma compensação para a sua desgraça. Desta vez enfrentaram um juiz hostil que considerou o caso deles como "não merecedor" e recusou as suas reclamações. Três meses depois, o ministro do Foreign Office responsável por Chagos enviou à rainha uma "ordem do conselho" para que ela aprovasse "de cruz", a qual inverteu a vitória do Supremo Tribunal de 2000 e impediu os ilhéus de regressarem a casa. Quando John se encontrava a escrever este livro, registou que os chagossianos tinham voltado a Londres para um último recurso judicial perante o Supremo Tribunal para anulação da recusa do governo do seu direito de voltar à terra natal. Mesmo após estes anos todos, este povo corajoso estava e está ainda firmemente determinado a alcançar a justiça que merece de pleno direito.

Esta chegou por fim a 11 de Maio de 2006 (depois de o livro de John estar finalizado), num veredito condenatório do Supremo Tribunal que considerou "repugnante" a decisão de afastar os chagossianos por insistência dos EUA. A "ordem do conselho" do governo de Blair referida anteriormente foi anulada. O Foreign Office tem agora que decidir se vai apelar do veredito e pode ser pressionado a fazê-lo pelos EUA. Mas, mesmo que o litígio acabe favoravelmente para os chagossianos, não é líquido que alguma vez sejam autorizados a regressar enquanto Diego Garcia se mantiver como importante base militar americana. A administração Bush não respeita a lei, vai provavelmente ignorá-la e a nova administração americana que vier a ser eleita em 2008 pode vir a fazer o mesmo. Fica assim para se ver se alguma vez será feita justiça nesta tragédia tão antiga. No entanto, é provável que os chagossianos nunca deixem de a procurar.

Capítulo Dois: O último tabu – Cinco décadas e meia de encobrimento da opressão de Israel sobre os palestinos

John foi buscar o título deste capítulo a um ensaio com o mesmo título escrito pelo eminente e corajoso escritor, académico e activista palestino, Edward Said pouco antes da sua morte em Setembro de 2003. Said foi um homem brilhante e um lutador apaixonado pela justiça para o seu povo. No seu ensaio escreveu: "Pode ser reconhecido o extermínio dos americanos nativos, atacada a moralidade de Hiroshima, publicamente queimada a bandeira nacional (dos Estados Unidos). Mas a continuação sistemática da opressão de 52 anos de Israel e os actos de crueldade contra os palestinos são praticamente silenciados, uma narrativa que não tem autorização para aparecer".

Mas ela aparece, ousada e corajosamente, no capítulo de John quando ele relata o ódio inexplicável e irracional que a maior parte dos israelenses tem pelos palestinos, um povo cujo país roubaram e que têm cruelmente oprimido durante várias décadas. Explica como é a vida para este povo indefeso sob um cruel poder de ocupação nos campos de refugiados das duas maiores prisões mundiais ao ar livre: Gaza e a Margem Ocidental. Conta como pessoas vulgares, que apenas querem viver em paz e terem uma vida normal, são privadas das suas liberdades pessoais, económicas e políticas mais elementares, da dignidade e de qualquer forma de justiça. Mostra como os israelenses, com total apoio financeiro e político dos EUA e do ocidente, têm aterrorizado o povo palestino com impunidade, e quando as vítimas ousam defender-se ou resistir lhes chamam "terroristas".

Também eu já escrevi sobre os crimes israelenses contra o povo palestino num artigo recente a que chamei 'A Vida na Palestina Ocupada'. O que John documentou no local sobre as pessoas que sofrem este brutal ataque diário, resumi eu em poucos parágrafos que gostaria de apresentar aqui. Escrevi o seguinte:

Tentem imaginar a vida diária nas seguintes condições:

Vivemos numa prisão num país ocupado por um exército estrangeiro opressor e num sistema de racismo institucionalizado e codificado. Não temos uma nação reconhecida, nem direito de cidadania, nem poder sobre a nossa vida diária. Vivemos num permanente estado de medo. O ocupante impõem um estrangulamento económico e uma punição colectiva restringindo a liberdade de movimentos; cercando centros populacionais; fechando as fronteiras; impedindo a maior parte do nosso povo de trabalhar dentro das suas fronteiras; impondo recolheres obrigatórios regulares, barreiras nas estradas, pontos de controlo, vedações eléctricas e muros de separação e continua a construir novos colonatos nos nossos Territórios Ocupados (na nossa terra, no nosso país) violando as Convenções de Genebra que proÍbem um ocupante de instalar a sua população em terra conquistada.

O ocupante nega ao nosso povo os seus direitos humanos básicos incluindo os referidos na Quarta Convenção de Genebra que regula o tratamento de civis durante a guerra e sob ocupação. Há 149 artigos nesta Convenção. O governo do ocupante viola quase todos eles e ao fazê-lo está a cometer crimes de guerra segundo a lei internacional. A Comissão dos Direitos Humanos da ONU determinou que também está a cometer "crimes contra a humanidade" contra o nosso povo. Este conceito tem origem na Carta de Nuremberga de 1945 redigida pelos EUA para julgar os criminosos de guerra nazis. A noção internacional de um "crime contra a humanidade" foi instituído para definir o que Hitler fez aos judeus. A CDHNU estabeleceu que é isto o que o ocupante está a fazer ao nosso povo, e que este acto é o precursor histórico e legal do crime internacional de genocídio tal como definido na Convenção sobre Prevenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948.

O ocupante também envia tropas, tanques e armamento pesado para as vizinhanças conforme quer, para pilhar e destruir. Ataca quando lhe apetece, pelo ar, com sofisticados helicópteros de ataque que lançam mísseis e com F-16s e provoca deliberadamente ruídos sónicos que rebentam os tímpamos e aterrorizam. E dá aos seus militares o direito de molestar, prender ou matar livremente, sem julgamento, qualquer um do nosso povo – homem, mulher ou criança, sob qualquer pretexto, com total impunidade. Arrasa casas com as pessoas lá dentro se elas não conseguirem fugir a tempo (normalmente a meio da noite e sem aviso ou anúncio) como castigo ou por não terem autorização de construir no seu próprio território, no seu próprio país ou por qualquer outra razão. Rouba terras cruelmente na esperança de um dia ficar com todas ou pelo menos com a parte que lhe interessa. Detém, aprisiona e tortura milhares de pessoas pelo crime real ou suspeito de lutar pela nossa própria liberdade contra um ocupante opressor.

Por vingança e para dar segurança aos seus colonos ilegais nos Territórios Ocupados, restringe ou proíbe o acesso a cuidados de saúde essenciais e de emergência, à instrução, ao emprego, ao direito de movimentar bens e serviços do produtor/fornecedores para o utilizador final, e até comida e água suficientes. Criou um estado de cerco económico colocando quase dois terços do nosso povo (segundo a ONU) abaixo do limiar da pobreza de 1,74 euros por dia (e metade desses dois terços com 1,27 euros ou menos) e mais de metade da população activa no desemprego (este número varia conforme a intensidade do cerco israelense). Destrói as searas e os pomares da população incluindo mais de um milhão de oliveiras. Lança impostos punitivos e fornece raros serviços ou suspende-os como castigo colectivo. Não temos poder para impedir qualquer destes abusos ou de receber qualquer reparação nos tribunais dos ocupantes. Como é que se pode ser muçulmano num estado racista judeu.

John explica que a Inglaterra foi o arquitecto deste desastre e esta injustiça históricos. Em 1917, queria um estado cliente no Médio Oriente para cuidar dos seus interesses económicos e arranjou um com a Declaração Balfour que prometia uma "casa nacional para o povo judeu" na Palestina. A Declaração também fazia uma promessa sagrada aos palestinos que ali viviam há séculos de que "nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades existentes não judaicas". Isso não aconteceu. O estado judaico apareceu em 1948 e nasceu com o pecado original do massacre e expulsão forçada das pessoas que ali viviam, e as coisas nunca mais foram como anteriormente. Israel desafia sistematicamente todas as leis e normas internacionais, tem a cobertura total e o apoio financeiro dos EUA e do ocidente, e os palestinos são forçados a sofrer infindavelmente os abusos mais ultrajantes sem ajuda do exterior que os faça parar.

A maioria dos ocidentais pouco sabe disto tudo porque a maioria dos media se recusa a noticiá-lo e apenas descreve Israel como um bastião da democracia numa região em que há muito pouco disso. É um mito, mas um mito que está muito espalhado. Os que se atrevem a denunciá-lo ou aos crimes israelenses são apodados de anti-semitas ou de odiarem os judeus. Também incorrem numa condenação extrema e até em ostracismo. Há uma regra imperiosa tácita que ninguém se atreve a violar, especialmente nos EUA: Israel não faz nada de mal e tem que ser apoiado totalmente faça o que fizer. Em consequência disso, o mito do chamado "processo de paz", que nunca existiu nem nunca existirá, persiste tal como a falsa esperança de que os palestinos alguma vez terão um estado mesmo seu para além dos bantustões que os israelenses lhes destinam depois de terem sido totalmente limpos etnicamente ou assassinados nas áreas que os israelenses querem para eles próprios.

John também denuncia a fraude dos Acordos de Oslo e posteriores encontros de Camp Davis promovidos por Bill Clinton onde o primeiro-ministro israelense Ehud Barak nada ofereceu a Yasar Arafat. O público foi informado fraudulentamente do contrário e Arafat foi censurado injustamente por ter recusado uma proposta que nenhum dirigente mentalmente são e responsável poderia alguma vez aceitar. Ouvimos falar dos muitos massacres de centenas de palestinos mortos em Deir Yassin em 1948, os 18 000 chacinados quando Israel invadiu ilegalmente o Líbano em 1982, incluindo o massacre ordenado por Ariel Sharon de mais de 3 000 homens, mulheres e crianças indefesos nos acampamentos de Sabra e Shatila, na violação de Jenin em Abril de 2002 quando as Forças de Defesa Israelenses (FDI) invadiram esta cidade de 35 mil habitantes (incluindo o seu acampamento de refugiados), a isolou de qualquer ajuda do exterior, destruiu centenas de edifícios (muitos deles com pessoas enterradas vivas debaixo dos escombros), cortou a energia eléctrica e o fornecimento de comida e água do exterior, impediu ajuda exterior de entrar na cidade e assassinou um número indeterminado de palestinos.

John abarca muito mais incluindo a matança diária de gente indefesa, o desemprego maciço provocado pelos israelenses, a pobreza e a provação, e a vida de desespero infindável que este povo é obrigado a sofrer. E no entanto aguentam e continuam a agarrar-se à esperança de que um dia o seu território roubado lhes será devolvido e os seus direitos totalmente recuperados. Uma das muitas histórias não contadas é que muitos israelenses judeus horrorizados têm a mesma esperança e estão a desafiar corajosamente o seu governo e a apoiar os palestinos para o conseguir.

Capítulo Três: A Índia brilhante – A falsa fachada de uma nação onde um terço da população vive numa pobreza desesperada

John explica como a Índia é uma nação de profundos contrastes, e a cidade mais rica do país, Bombaim, é a melhor amostra disso. Num extremo há uma próspera comunidade de negócios de comércio marítimo, bancos comerciais e duas bolsas de valores. No outro há uma cidade de 2,5 milhões de pessoas por km 2 e tipificadas pelo distrito de "caminhos de ferro" que os estrangeiros e pessoas de fora não conhecem de todo. Transborda de gente desesperada que vive em condições "indescritíveis – um caixote de papelão como casa com o esgoto a encher e a vazar conforme a monção". John pergunta como é possível que uma nação com tradições de "grande luta popular" e democracia permita isto. A resposta é que os seus dirigentes optaram por vender a sua soberania ao modelo neoliberal de uma economia global dominada pelas gigantescas corporações transnacionais, principalmente as dos EUA.

A subida ao poder do governo liderado pelo BJP nacionalista hindu (proto-fascista) nos anos 60 acelerou o processo. Aboliu as barreiras existentes que protegiam a indústria indiana e abriu o país à invasão das corporações predatórias estrangeiras que tiraram daí todas as vantagens. O resultado é uma nação que pode ser um exemplo de como um modelo económico adoptado deu para o torto e provocou a miséria humana em massa. Tem-se assistido ao aumento da "pobreza extrema" para mais de um terço da população ou seja cerca de 364 milhões de pessoas. John explica que embora a taxa de crescimento da Índia seja alta, "isso diz respeito ao capital, não à força de trabalho, diz respeito aos lucros produzidos, não às pessoas". Também denuncia o mito de a Índia ser uma força avassaladora da alta tecnologia. Embora a nação tenha atingido uma "superioridade" em computadores e outras tecnologias, a nova "classe tecnocrata" é minúscula. E também que a chamada explosão do consumo beneficiou quando muito cerca de 15% da população.

Mais de dois terços da população vivem em aldeias rurais e dependem da agricultura de pequena escala para o seu sustento e sobrevivência. Estas pessoas foram destruídas pela adesão da nação ao modelo económico ocidental. Provocou uma epidemia oculta de suicídios entre eles porque não conseguem competir com a indústria agrícola. Os que optaram por uma solução menos drástica são forçados a abandonar as suas terras numa tentativa vã de procurar refúgio entre as massas pululantes nas cidades. O resultado é uma pobreza crescente, privações e extrema miséria humana a uma escala maciça. Dada a sua enorme população de mais de mil milhões, a Índia aparece como um alerta sobre o tipo de futuro que as pessoas em toda a parte enfrentarão se não se encontrar forma de inverter um modelo económico falhado que enriquece uns poucos, destrói a maioria e estrangula a capacidade do planeta para continuar a aguentar os abusos que lhe infligem.

Capítulo Quatro: O apartheid não morreu – O capitalismo predatório tornou-o pior

O odiado apartheid pode ter acabado na África do Sul há cerca de 16 anos, mas o novo Consenso de Washington neoliberal foi ainda pior. A obsessão da raça numa sociedade de supremacia branca foi substituída pelo domínio e pela procura da riqueza permitidas apenas a uma minoria privilegiada à custa da grande maioria quase toda negra. O resultado é que enquanto o rendimento familiar médio subiu para cerca de 15% da população (incluindo alguns negros), o rendimento familiar da maioria negra caiu cerca de 20% tornando as condições de vida hoje muito piores do que no tempo do apartheid.

A nova África do Sul com o seu heróico novo presidente Nelson Mandela optou por aderir ao modelo económico ocidental. Mandela aceitou um "acordo tácito" que permitia que a elite branca mantivesse o controlo económico em troca de um governo de maioria negra que iria ser subserviente para com o anterior governo branco. O actual presidente Thabo Mbeki reforçou o acordo quando encabeçou um grupo de funcionários da ANC em reuniões secretas em Londres entre 1987 e 1990. Concordaram essencialmente em trair o seu povo e a sua luta de 40 anos pela liberdade agora perdida. O Banco Mundial e o FMI ditaram privatizações em massa e ajustamentos estruturais para cortar serviços sociais essenciais em troca de ajuda financeira. Isto provocou um nível de endividamento opressivo, desemprego de cerca de 38%, uma taxa de infecção de SIDA de cerca de 20%, 40% de escolas sem electricidade, 25% de pessoas sem acesso a água potável e a maioria das que têm acesso sem possibilidade de a pagar, 60% com saneamento deficiente e 40% sem telefone. O resultado é um apartheid económico que substitui o legal estando hoje a maioria da população negra pior do que sob a opressão política do passado. É uma história perturbante do que tem ocorrido em todos os países que concordaram com o Consenso de Washington pelo qual venderam a sua soberania aos interesses do capital. A diferença na África do Sul é que o homem que os negros oprimidos julgavam que lhes iria conquistar a liberdade, na realidade vendeu-os.

John voltou à África do Sul após uma ausência de 30 anos, desde a sua expulsão pelo governo do apartheid que ele abominava. Entrevistou Mandela já retirado e é praticamente o único a explicar a "ambiguidade" do primeiro presidente da ANC. Colocou questões difíceis perguntando como era possível que a ANC, que lutou durante tanto tempo pela liberdade, tivesse abraçado o "Thatcherismo". Porque é que ele permitira que o seu povo, que sofrera durante tanto tempo, viesse a sofrer um mal pior ainda com um sistema em que praticamente tudo, incluindo os serviços essenciais, está privatizado e a falta de regulamentação permite aos grandes negócios reinarem livremente para obter lucros à custa do interesse público. Mandela respondeu que "Pode pôr a etiqueta que quiser; pode chamar-lhe thatcherite mas, para este país, a privatização é a política fundamental". Uma resposta lamentável de um homem que sabe mais do que isto. John também confrontou Mandela sobre porque é que ele apoiou e mostrou deferência por governos opressores na Indonésia, Burma, Argélia, Colômbia e Peru e ordenou mesmo uma invasão sangrenta do pequeno vizinho Lesotho. De novo a resposta que recebeu foi pouco impressiva vinda de um homem que foi outrora, e ainda é em aspectos importantes, um gigante na luta pela igualdade social e pela justiça.

Mais uma vez John mostra como descobriu nesta sua nova visita que o espírito de resistência sobrevive. Encontrou-o entre os numerosos "movimentos sociais" e organizações aliadas a que chamou as mais "sofisticadas e dinâmicas do mundo". Forjaram elos com movimentos internacionais de direitos humanos e anti-capitalistas assim como com sindicalistas independentes. Disse que o que a África do Sul tem em abundância é uma força chamada "ubuntu" – "um humanismo que nunca está quieto... um conceito subtil... que diz que a humanidade duma pessoa se exprime através da empatia e da solidariedade com o próximo; através da comunidade e da reunião". Aquilo a que Steve Biko chamava "autêntica comunidade negra". É nesse espírito que John tem esperança que resida o futuro da África do Sul.

Capítulo Cinco: A libertação do Afeganistão – os EUA infligiram um pesadelo a outro povo sofredor

John começa por descrever o Afeganistão como se fosse mais uma paisagem lunar e não um país em funcionamento – as ruas de Cabul com "contornos de escombros em vez de ruas, onde as pessoas vivem em edifícios em ruínas, como vítimas de um tremor de terra à espera de salvamento... sem luz nem aquecimento". É uma história velha para este povo cercado de tropas que tiveram uma longa história de conflitos e de sofrimento sempre com pouco alívio. Durante quase um século o país foi vítima do "Grande Jogo" de competição entre o império britânico frente à Rússia czarista pelo controlo desta parte do mundo. Na história mais recente, pagou caro de novo nos anos 80 quando um exército de guerrilha mujahedin recrutado pelos EUA lutou contra a ocupação soviética. Forçou os ocupantes a sair mas à custa de um país devastado que não se recuperou durante os anos 90 visto que um conflito brutal sucedeu à retirada dos soviéticos. Depois aconteceu o 11/Setembro e os EUA infligiram um pesadelo que continua até hoje sem final à vista.

John explica que o Afeganistao hoje é o que a CIA chamava durante a guerra do Vietname "a grande ilusão da causa americana". Embora Cabul tenha algumas liberdades que os Talibans recusavam, o resto do país não tem praticamente nenhumas. No lugar dos Talibans, que iniciaram um renascimento, estão os brutais "comandantes militares" regionais que os grupos dos direitos humanos dizem ter "essencialmente posto o país como refém". A nação é uma zona de guerra e um narco-estado falhado com "comandantes militares" regionais e chefes de drogas a controlar tudo para além da capital. Hamid Karrzai (um antigo activo da CIA), o presidente nominal do país, seleccionado pelos EUA, é uma caricatura de um homem e um fantoche subserviente que pouco mais é do que o mayor de Cabul. Não tem mandato nem apoio e não duraria um dia por si próprio sem a pesada protecção que lhe é dispensada 24 horas por dia pelos militares americanos.

A vida não era um mar de rosas com os Talibans. Mas apesar das suas maneiras ultra-puritanas e do tratamento severo para com os desobedientes, pelo menos mantinham a ordem e não toleravam o banditismo, a violação ou o assassínio. Também acabaram praticamente com a produção do ópio. Agora tudo isso mudou. A invasão EUA-Inglaterra em 2001 acabou com a proibição da produção do ópio, permitiu que os "comandantes militares" refizessem as plantações e o resultado é que 87% do comércio mundial desta droga provém destes campos. Além disso, o desemprego descolou para cerca de 45%; tem havido pouca reconstrução; a pobreza é avassaladora; há pouca electricidade, água potável ou a maioria de serviços essenciais; voltou a ilegalidade; foi reinstalada a lei de Sharia; o conflito interno reacendeu-se; e ninguém está em segurança nem os das facções guerreiras do país nem os da força hostil de ocupação. Além disso, os Talibans reclamaram partes do Afeganistão do sul e estão a conquistar apoiantes entre o povo farto da miséria que lhe foi infligida pelos EUA e pelos invasores das forças multinacionais. Pode ser mesmo uma questão de tempo antes que a violência volte a explodir noutra guerrilha catastrófica tal como no Iraque. Parece que já está a começar.

Então porque é que foi a invasão e a ocupação? Sabemos agora que estava planeada antes do 11/Setembro e não teve nada a ver com um governo muçulmano fundamentalista que tratava o seu povo cruelmente. Teve tudo a ver com um dirigente afegão que não quis submeter a sua autoridade às exigências americanas e à sua procura imperialista de dominar esta região estrategicamente importante. Isto já havia sido explicado pelo antigo conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, sob o presidente Carter no seu livro de 1997 'The Grand Chessboard'. Referiu-se à Eurásia como o "centro do poder mundial que se estende da Alemanha e da Polónia para leste através da Rússia e da China até ao Pacífico e incluindo o Médio Oriente e o subcontinente indiano. Ao dominar esta região, os EUA assegurariam o controlo duma grande fonte de energia e de outros recursos essenciais. O Afeganistão era uma parte importante do plano porque era através deste país que os EUA queriam construir os pipelines de petróleo necessários para transportar o petróleo da bacia do Cáspio até aos portos de águas profundas onde podia ser facilmente embarcado para todas as partes do mundo que os EUA autorizassem a seguir.

A princípio os EUA ficaram contentes com o trabalho dos Talibans quando estes chegaram ao poder. Enquanto se pensou que era possível um acordo com eles, o seu extremismo religioso e as violações dos direitos humanos não constituíram preocupação. Só quando não se conseguiu chegar a um acordo é que foi tomada a decisão de os afastar. E isso traz-nos de volta ao presente. O país está em ruínas, o conflito continua sem fim à vista, e o povo sofre mais do que nunca sem que no horizonte haja qualquer esperança visível de alívio.

John escreveu o seu livro para documentar a história do abuso imperialista testemunhada em primeira mão em cinco países. Mas também quer que o mesmo seja uma mensagem da esperança de que um dia possa vir o mesmo renascimento de democracia e justiça social que agora emerge em locais da América Latina como a Venezuela. Encontrou gente corajosa e dedicada em toda a parte, até no Afeganistão onde as condições são tão más que é difícil encontrar alguém. Disse que "Através de todas as crises humanitárias de memória recente, nenhum país tem sido tão violentado e tem sofrido mais, e nenhum foi menos ajudado, do que o Afeganistão". Ainda assim se mantém e segundo parece está ainda pior. A não ser que mude, está ainda muito longe uma época de paz e o fim da violência e do sofrimento do povo afegão. E no entanto, mantém-se a esperança. John encontra-a por todo o lado nos corações das pessoas que nunca desistirão da luta pelo mundo justo que desejam e pelo qual lutam.

Conclusão

John mais uma vez escreveu um livro brilhante e magnífico. Todos deviam lê-lo para aprender com este grande homem o que aconteceu e está a acontecer nestes cinco países que ele escolheu entre os muitos que conhece bem por ter assistido a acontecimentos de todo o mundo em primeira mão ao longo da sua carreira. Ele explica o que muito poucos se atrevem a fazer para nos ajudar a entender como as vidas dos povos em toda a parte têm sido afectadas pelo modelo económico americano que se baseia no militarismo e na expansão imperialista para controlar os mercados mundiais, os recursos essenciais e a mão-de-obra barata sem rivais que desafiem o seu domínio. Esta é a mensagem que o livro transmite. Mas também exala a esperança especial de que o espírito humano é invencível e encontrará uma forma de ultrapassar a adversidade e a opressão e será capaz de resistir. John acredita que virá uma época de libertação porque pessoas empenhadas em toda a parte do mundo nunca desistirão de trabalhar por isso.

16/Junho/2006

Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

Para onde vamos após a morte?

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Seis meses no Senado garantem plano de saúde familiar vitalício

Sábado, 25 de Abril de 2009 



Benefício dos 81 senadores e 310 ex-parlamentares custa R$ 17 milhões por ano à Casa

Eugênia Lopes e Rosa Costa

Os 310 ex-senadores e seus familiares pensionistas custam pelo menos R$ 9 milhões por ano, cerca de R$ 32 mil por parlamentar aposentado. Detalhe: para se tornar um ex-senador e ter direito a usar pelo resto da vida o sistema de saúde bancado pelos cofres públicos é preciso ocupar o cargo por apenas seis meses. Antes de 1995, a mordomia era ainda maior: bastava ter ficado na suplência por apenas um dia.

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No total, os 81 senadores da ativa e os 310 ex-senadores e seus pensionistas usufruem de um sistema privilegiado de saúde que consome cerca de R$ 17 milhões por ano. Os parlamentares da ativa e seus familiares não têm limite de despesas com saúde: em 2008, gastaram cerca de R$ 7 milhões - R$ 80 mil por senador.

No ano passado, os gastos globais do Senado com saúde para parlamentares e servidores foram de R$ 70 milhões. O Senado não divulga, no entanto, o valor dessas despesas apenas com senadores. O diretor-geral, Alexandre Gazineo, alega que precisa de "tempo" para obter esses dados.

O Estado apurou que, em 2008, o Senado gastou cerca de R$ 53 milhões com a saúde de 18 mil servidores efetivos e comissionados, entre ativos e inativos. Ao contrário dos senadores, que não descontam um tostão para ter todas as despesas de saúde pagas, os servidores em atividade e inativos têm descontados, em média, R$ 260 por mês. O custo de cada servidor ao ano é de cerca de R$ 3 mil.

Para este ano, a previsão feita no Orçamento estabeleceu R$ 61 milhões para arcar com a saúde dos senadores e servidores. Na quinta-feira, o Senado anunciou contingenciamento de R$ 25 milhões nas despesas médicas e odontológicas. Ou seja: o orçamento de 2009 deverá ficar em R$ 36 milhões. A área técnica do Senado está convicta de que o corte recairá integralmente sobre a saúde dos servidores. Os senadores continuarão com as despesas ilimitadas.

Técnicos começaram a fazer estudo para compensar o corte no orçamento deste ano no plano de saúde dos servidores. Uma das hipóteses é aumentar a contribuição dos funcionários. Atualmente, existem 262 servidores e funcionários comissionados em tratamento de câncer à custa do Senado. Diante do anúncio de contingenciamento, 18 famílias procuraram a direção do Senado nas últimas 24 horas para saber se serão atingidas com o corte de gastos.

O pagamento das despesas médicas de senadores, ex-senadores e dependentes é regulamentado pelo Ato nº 9, de 8 de junho de 1995. A norma prevê que o Senado arca com todas as despesas dos senadores, sem limites. Estabelece até o pagamento de cirurgias e tratamento médico no exterior. Tudo tem de ser autorizado pela Mesa Diretora, que raramente nega o pedido de gastos médicos.

O limite de R$ 32 mil de gastos anuais para ex-senadores, aliás, é frequentemente ignorado. É o caso, por exemplo, do ex-senador Reginaldo Duarte (PSDB-CE) - ele recebeu R$ 45.029,02 de ressarcimento em gastos médicos, em fevereiro deste ano. Levantamento feito no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) pelo site Contas Abertas mostra que o ex-senador Carlos Wilson (PT-PE), que morreu no início de abril, recebeu R$ 114.513,49, no ano passado.

"Isso deve referir-se a gastos com saúde", disse o primeiro-secretário do Senado, Heráclito Fortes (DEM-PI). Carlos Wilson foi senador até o início de 2003, quando deixou o Congresso e assumiu a presidência da Infraero. Em 2006, ele se elegeu para a Câmara, onde passou usufruir do direito de ter as despesas de saúde custeadas. "Ele teve ressarcimento de despesas de médicas. Mas não sei dizer quanto foi", afirmou o segundo-vice-presidente da Câmara, ACM Neto (DEM-BA).

Além dos senadores e ex-senadores, a regalia de atendimento médico vitalício também é estendida aos servidores que ocuparem o cargo de diretor-geral e secretário-geral da Mesa. Essa mordomia, criada em 2000, beneficia hoje Agaciel Maia, que deixou o cargo em março por não ter registrado em seu nome a casa onde mora, avaliada em R$ 5 milhões. Outro favorecido é Raimundo Carreiro, hoje ministro do Tribunal de Contas da União (TCU).


Sábado, 25 de Abril de 2009

Gasto com hospitais chega a R$ 40 mi em 2008

Levantamento dos gastos com saúde do Senado, em 2008, feito pelo site Contas Abertas, mostra que os valores pagos a hospitais e laboratórios alcançam R$ 40 milhões. Foram despesas feitas por servidores efetivos e comissionados, entre ativos e inativos, senadores e ex-senadores e seus dependentes. Em Brasília, os dois maiores beneficiados foram os hospitais Santa Lúcia, que recebeu R$ 7,8 milhões, e Santa Luzia, que teve R$ 4,2 milhões de ressarcimento do Senado, no ano passado.

Só em exames laboratoriais, o Senado pagou cerca de R$ 5 milhões, em 2008. Em gastos de saúde com os servidores e comissionados fora de Brasília foram mais R$ 4,6 milhões no ano passado.

O Gama Saúde é um plano que atinge apenas os servidores efetivos e os comissionados que se dispõem a pagar uma taxa mensal para ter direito ao benefício. Os servidores efetivos descontam R$ 154 para o plano de saúde. Os comissionados, R$ 300.

Atualmente são 17.760 servidores efetivos e comissionados ligados ao Sistema Integrado de Saúde (SIS) do Senado.

Os gastos de saúde bancados pelo Senado são de todos os tipos. Existem pagamentos para estabelecimentos de acupuntura, como a Clínica Ming, que no ano passado recebeu R$ 80.900,40 do Senado. Uma única clínica de fisioterapia, a Fiosiocentro, ganhou R$ 480. 966,52. Já o Instituto de Olhos e Microcirurgia de Brasília recebeu R$ 145.579,23. Outro beneficiado foi o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, que teve o ressarcimento de R$ 544.585,90 com despesas de saúde em 2008.

O Instituto do Coração ganhou do Senado R$ 238.607,23.

A política na UTI


Uma reforma eleitoral poderia melhorar a qualidade dos nossos políticos, tornando mais fácil sua seleção e fiscalização pelos eleitores

José Edward





O sistema político brasileiro sofre com a proliferação de partidos, a má qualidade dos políticos e a relação promíscua com financiadores de campanha, para citar apenas alguns problemas. A melhor oportunidade para modificar esse quadro é durante as eleições, quando os cidadãos podem punir os candidatos que se comportaram mal nos anos anteriores.

Para isso, os eleitores têm de acompanhar de perto o desempenho dos partidos e de seus representantes no exercício do poder. Uma reforma política, de cunho eleitoral, poderia reforçar o voto como um filtro de maus candidatos. Não há unanimidade sobre como, exatamente, isso deve ser feito.

As dez propostas apresentadas a seguir são as mais citadas por juristas e cientistas políticos. Algumas já estão em discussão no Congresso Nacional. A dificuldade de aprovar uma reforma assim é que os responsáveis em levá-la adiante são justamente os maiores interessados em nada mudar. "Uma maneira de fazer as propostas andar é convencer os deputados e senadores a aprová-las agora para serem aplicadas só depois das eleições de 2010", diz Mozart Valadares, presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros.

O duro é esperar até lá. Como um paciente na UTI, a credibilidade dos parlamentares precisa de medidas urgentes para não sucumbir de vez.



Voto distrital

O que é – A Justiça Eleitoral divide cada estado em distritos eleitorais, definidos segundo critérios como o tamanho da população e a quantidade de parlamentares a que cada unidade da federação tem direito. O eleitor só pode votar em candidatos do distrito eleitoral onde mora. Nas eleições para a Câmara dos Deputados, por exemplo, o país seria dividido em 513 distritos, correspondentes ao total de cadeiras na Casa.

A vantagem – Esse tipo de voto aproxima o eleitor do parlamentar. Afinal, ele é o único representante do seu distrito eleitoral e sua atuação pode ser fiscalizada com mais facilidade.

A controvérsia – O sistema tende a eleger legisladores que se preocupam mais com assuntos locais do que com os interesses gerais do país.



Verticalização das alianças

O que é – As alianças feitas pelos partidos nas disputas para a Presidência devem, obrigatoriamente, ser repetidas nos estados. Essa medida, instituída pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2002, foi extinta pelo Congresso quatro anos depois.

A vantagem – A regra estimularia os partidos a se unir de acordo com afinidades reais de programa político, em vez de simplesmente por conveniência na disputa eleitoral, o que em geral favorece os caciques regionais.

A controvérsia – A medida pode levar à formação de "coligações brancas" nos estados: um partido apoia um candidato de outra legenda, mas sem oficializar a aliança.



Fim dos suplentes de senador

O que é – Em caso de morte, afastamento ou impedimento do senador, assume o cargo o candidato que, nas eleições, teve o maior número de votos depois do vencedor. Pela legislação atual, os suplentes não são eleitos diretamente. Muitos são parentes do candidato ou financiadores de sua campanha. Dos 81 senadores em exercício, hoje, dezesseis são suplentes.

A vantagem – Com a mudança, os senadores ficariam menos tentados a assumir um cargo no Executivo, com medo de ceder o mandato a um adversário. E, claro, o Senado ficaria livre de integrantes sem nenhuma representatividade política.

A controvérsia – Não há.



Fim do voto secreto no Parlamento

O que é – Acabar com o voto secreto nas votações do Congresso Nacional, inclusive nas eleições para as mesas da Câmara e do Senado, na apreciação de vetos presidenciais, na indicação de embaixadores e na cassação de mandatos. Essa mudança demanda a aprovação de uma emenda constitucional.

A vantagem – O voto aberto dificultaria os acordos para evitar a cassação de colegas e a barganha de parlamentares na aprovação de projetos de interesse do Executivo.

A controvérsia – Em alguns casos, o voto aberto tiraria a independência do parlamentar em relação ao governo e a lobistas. Um deputado de um partido governista, por exemplo, pode ser constrangido a não derrubar um veto do presidente, apesar de ir contra a sua convicção.



Inelegibilidade para condenados em primeira instância

O que é – Cidadãos condenados em primeira instância são impedidos de disputar mandatos eletivos. Atualmente, a inelegibilidade só é aplicada quando há sentença definitiva. Em julho do ano passado, um projeto de lei com esse teor foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, mas até agora não foi julgado em plenário.

A vantagem – A medida impediria que os "fichas-sujas" continuassem a se apresentar como candidatos, em busca de imunidade parlamentar e amparados na demora da Justiça em concluir processos nos quais são réus.

A controvérsia – A Constituição Federal diz que ninguém pode sofrer a perda de um direito (no caso, o de ser votado) sem julgamento definitivo.




Votação com listas fechadas

O que é – Nos pleitos para vereador e deputado, o eleitor passa a votar no partido, e não mais no candidato, como ocorre atualmente. Cada legenda apresenta uma lista de candidatos definida em convenção. Na eleição, a primeira vaga conquistada pelo partido será ocupada pelo primeiro da lista, e assim sucessivamente.

A vantagem – Fortaleceria as legendas, pois obrigaria o eleitor a prestar mais atenção nas propostas dos partidos do que nos candidatos. Estes, por sua vez, seriam forçados a se engajar na vida partidária para obter melhor colocação na lista.

A controvérsia – Há o risco de que, na formação da lista, os caciques dos partidos privilegiem apaniguados seus.



Fidelidade partidária

O que é – Para ser candidato, é preciso estar filiado ao mesmo partido há pelo menos três anos. Hoje, esse prazo é de apenas um ano. Políticos que mudam de partido perdem automaticamente o mandato.

A vantagem – Os candidatos ficariam impedidos de utilizar a troca de partido para fazer barganhas com governos. Os partidos seriam fortalecidos porque ficaria definido que os mandatos pertencem a eles, não aos candidatos.

A controvérsia – Entre juristas e cientistas políticos, a proposta é quase um consenso. Mas o projeto que o governo entregou ao Congresso desvirtua o propósito da norma, permitindo uma "janela" de trinta dias para que parlamentares mudem de partido cinco meses antes das eleições



Financiamento público de campanhas

O que é – Doações privadas nas campanhas são proibidas. Nos anos de eleições, a União destina recursos do Orçamento aos partidos, proporcionais ao número de deputados federais que cada um elegeu no pleito anterior. Os partidos são responsáveis pela administração financeira e pela prestação de contas de todas as campanhas.

A vantagem – Os candidatos não precisariam retribuir, depois das eleições, às doações feitas por empresas. A fiscalização dos gastos também seria facilitada, pois a Justiça Eleitoral teria de examinar apenas as prestações de contas dos partidos, e não as de milhares de candidatos.

A controvérsia – Os mais céticos acreditam que os políticos não vão usar o dinheiro público de forma idônea e ainda continuarão recebendo doações por fora.



Fim de coligações em eleições proporcionais

O que é – Proíbe os partidos de fazer alianças nas eleições para vereador e deputado. Tais coligações são utilizadas para driblar a regra segundo a qual apenas pode ter representantes eleitos o partido que tiver quociente eleitoral suficiente. Como a exigência não é atendida por muitos partidos, eles se coligam com outros para alcançá-la.

A vantagem – O fim das coligações revelaria a real dimensão eleitoral dos partidos e evitaria que legendas nanicas elegessem candidatos oportunistas, que pegam carona na votação dos partidos maiores.
A controvérsia – Partidos que defendem causas minoritárias e têm fraca expressão eleitoral ficariam sem representação. Para alguns cientistas políticos, isso empobrece a democracia.



Cláusula de barreira

O que é – Uma lei de 1995 determinava que só teriam direito a assumir cadeiras no Parlamento partidos que obtivessem no mínimo 5% dos votos em pelo menos um terço dos estados. Em 2006, essa regra foi considerada inconstitucional pelo STF. Uma proposta de emenda constitucional tenta restabelecê-la.

A vantagem – Adotada em 44 países, a norma permite reduzir o número de partidos, sobretudo as legendas de aluguel. Isso limparia e simplificaria o jogo político e lhe daria mais consistência programática.

A controvérsia – O governo quer reduzir de 5% para 1% o mínimo de votos que cada partido tem de obter, com o argumento de que a medida não pode inviabilizar partidos que, embora pequenos, são "históricos".