terça-feira, 30 de junho de 2009

Cataratas de Iguaçu



A área das Cataratas do Iguaçu (em espanhol, Cataratas del Iguazú) são um conjunto majestoso de cerca de 275 quedas de água no Rio Iguaçu (na Bacia hidrográfica do rio Paraná), localizam entre o Parque Nacional do Iguaçu, Paraná, no Brasil, e no Parque Nacional Iguazú, Misiones, na Argentina. A área total de ambos parques nacionais, correspondem a 250 mil hectares de floresta subtropical e declarada como Patrimônio Natural da Humanidade.

O Parque Nacional argentino foi criado em 1934; e o Parque Nacional brasileiro, em 1939, com o propósito de administrar e proteger o manancial de água que representa essa catarata e o conjunto do meio ambiente ao seu redor. Os parques tanto brasileiro como argentino passaram a ser considerados Patrimônio da Humanidade em 1984 e 1986, respectivamente. Historicamente, o primeiro europeu a achar as Cataratas do Iguaçu foi o espanhol, Álvar Núñez Cabeza de Vaca, no ano de 1542. (Veja artigo aqui no blog sobre a incrivel vida de Cabeza de Vaca)

A Àrea das Cataratas têm cerca de 275 quedas de àgua, com uma altura superior a 70 metros ao longo de 2,7 km do Rio Iguaçu. A Garganta do Diabo principia em forma de "U" invertido com 150 metros de largura e 80 metros de altura. Veja o termo "Desfiladeiro". A Garganta do Diabo é o maior, o mais majestoso e impressionante de todos eles. Este é devido pela linha fronteira entre o Brasil e a Argentina. A maioria das quedas de água (também chamados de saltos) ficam em território argentino, mas de ambos lados obtêm-se belos panoramas.

O termo Iguaçu na língua guarani, deriva de y ("água", "rio") e guasu ou guaçu ("grande"), significa literalmente "água grande", ou seja, rio de "grandes águas". Em espanhol, adoptou-se oficialmente a grafia Iguazú. Porém, etimologicamente é errado escrever Iguazú com a consoante "z", devendo antes ser escrito Iguaçu ou Iguasú. (Ref.: Padre António Guash, Dicionário de Castelhano-Guaraní e Guaraní-Castelhano, Assunção, Paraguai, 1978, pág. 518)

Em 1953, os Estados Unidos e a CIA derrubaram um governo no Irã. Os americanos agora tentam repetir a façanha

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A imprensa ocidental tem claramente adotado um dos dois lados no conflito do Irã, e tem conseguido arrastar sua desinformada audiência junto com ela. Todas as notícias se referem aos protestos populares contra os resultados das eleições como uma demonstração de coragem, resistência, e poder popular "sem precedentes" contra o governo, que não se via desde a revolução de 1979 no Irã.

Mas o que vimos nesta última semana parece ter muito mais em comum com os acontecimentos de cinqüenta e seis anos atrás, e não com os de trinta.

Em 1953, o governo dos Estados Unidos, a pedido da Grã-Bretanha, encarregou dois operadores da CIA, Kermit Roosevelt, Jr. e Donald Wilber de derrubar o governo democráticamente eleito do Irã, a fim de terminar o processo de nacionalização do petróleo pelo Primeiro-Ministro Mohammed Mossadegh. Este nacionalismo "escandalizou os britânicos, que tinham "comprado" o direito exclusivo de explorar o petróleo Iraniano do corrupto Xá, e também os americanos, que temiam que permitir a nacionalização no Irã incentivaria a esquerda em todo o mundo." O golpe de Estado, que foi executado em apenas três semanas, foi realizada em uma série de etapas. Em primeiro lugar, membros do Parlamento Iraniano e líderes dos partidos políticos foram subornados para se opor a Mossadegh públicamente, fazendo assim o governo parecer fragmentado e não unificado. Proprietários de jornais, editores, colunistas e repórteres foram comprados, a fim de espalhar mentiras e propaganda contra o Primeiro-Ministro.

Além disso, autoridades religiosas, influentes empresários, membros da polícia, forças de segurança, e militares foram também subornados. Roosevelt contratou líderes das gangues de rua em Teerã, usando-os para ajudar a criar a impressão de que o Estado de Direito havia se desintegrado totalmente no Irã e que o governo não tinha controle sobre sua população. Stephen Kinzer, jornalista e autor de Todos os Homens do Xá (All the Sha's Men) conta que uma vez, [Roosevelt] contratou uma gangue para correr pelas ruas de Teerã, surrando qualquer pedestre que encontrassem, quebrando vitrines, disparando suas armas em mesquitas, e gritando, "Nós amamos Mossadegh e o comunismo." Isto naturalmente iria colocar qualquer cidadão decente contra ele ". Em um golpe de gênio manipulador, Roosevelt, em seguida, contratou uma segunda multidão para atacar a primeira, dando assim ao povo Iraniano a impressão de que não havia presença policial e que a sociedade civil havia se desintegrado no caos total, com o governo totalmente incapaz de restabelecer a ordem. Kinzer conta:

Eles saiam destruindo tudo pelas ruas em dezenas de milhares. Muitos deles, acho, nunca souberam nem entenderam que estavam sendo pagos pela CIA. Só sabiam que tinham sido pagos por um dia de trabalho para ir para as ruas e gritar slogans.Muitos políticos incentivavam as multidões durante esses dias ...Começaram a invadir e vandalizar prédios do governo.Houve trocas de tiros em frente de edifícios importantes.

Quando terminou tudo, o Primeiro Ministro Mossadegh havia sido deposto e um golpe militar trouxe de volta a monarquia no Irã, instalando Mohammed Reza Pahlevi, totalmente pró-Ocidente, no trono do Pavão.A brutal e tirânica ditadura do Xá - implantada, apoiada e financiada pelos Estados Unidos - durou 26 anos. Em 1979 o povo Iraniano devolveu o favor.

Então o que estamos vendo acontecer no Irã esta última semana?

Considerando que há muito poucas provas de qualquer fraude ou de manipulação de urnas na recente reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, o movimento popular que temos visto nas ruas de Teerã e em outras cidades está sendo tratado pela mídia americana como uma espécie de nova revolução; um esforço enérgico, vindo das bases, e espontâneo a fim de derrubar os líderes da Revolução Islâmica e colocar em seu lugar uma "democracia" secular, pró-Ocidente.

No entanto, há muitas evidências que sugerem que embora existam certamente milhares de sinceros e comprometidos ativistas e participantes nos protestos recentes, o que estamos vendo pode muito bem ser a etapa culminante de vários anos de infiltração Americana e de manipulação das estruturas e do público do Irã pelos Estados Unidos.

Já em 2005, o governo dos Estados Unidos já financiava grupos que designava de organizações terroristas para que realizassem ataques violentos dentro do Irã a fim de desestabilizar o governo Iraniano. Em 2007,a ABC News relatou que George W. Bush assinou uma "Ordem Presidencial", que autorizou a CIA a montar uma operação "Negra" clandestina para desestabilizar o governo Iraniano.Estas operações, de acordo com funcionários da área de inteligência tanto da ativa como aposentados, incluíam "uma campanha coordenada de transmissões de rádio e TV, plantar artigos de jornais com teor negativo, e a manipulação de moeda e das transações bancárias do Irã.

Em maio do mesmo ano, o jornal Telegraph publicou reportagem dizendo que o radical de conservador John Bolton, membro da administração Bush havia revelado que um ataque militar americano sobre o Irã seria "uma" última opção" após as sanções econômicas e as tentativas de fomentar uma revolução popular terem falhado."Duas semanas mais tarde, o Telegraph verificou de forma independente a notícia da ABC, dizendo que, "Mr. Bush assinou um documento oficial da CIA aprovando planos para uma campanha de propaganda e de desinformação com a finalidade de desestabilizar, e eventualmente derrubar, o regime teocrático dos mulás.

Daniel McAdams conta que, naquela época, "o presidente se reuniu com o Conselho Secreto do Congresso, o "bando dos 8" dos líderes da Câmara e Senado, e foi autorizado a usar U.S.$ 400 milhões entre outras coisas, segundo o Washington Post, em "atividades que vão desde a espionagem do programa nuclear do Irã até o apoio a grupos rebeldes que se opõem aos religiosos que governam o país..."

Mais tarde, no início de Maio de 2008, Andrew Cockburn revelava na revista Counterpunch que "Seis semanas atrás, o presidente Bush assinou uma diretriz secreta autorizando uma ofensiva clandestina contra o regime do Irã, que, segundo as pessoas que tiveram acesso ao seu conteúdo, era "sem precedentes" em seu escopo.

"A diretriz secreta de Bush abrange uma grande área geográfica - do Líbano até o Afeganistão - mas é também muito mais ampla quanto ao tipo de ações que permite serem tomadas - incluindo até o assassinato de membros do governo.Este escopo mais amplo autoriza, por exemplo, fornecer apoio total ao braço armado dos Mujahedin-e Khalq, o culto Iraniano de oposição, apesar de este grupo estar na lista de grupos terroristas do Departamento de Estado.

Da mesma forma, o fundos secretos podem agora ser destinados sem restrição ao Jundullah, ou exército de Deus,"um grupo Sunita militante no Baluquistão Iraniano - que atua junto à fronteira Afgã - cujo líder apareceu há pouco tempo no programa de TV Dan Rather Report cortando o pescoço do próprio cunhado.

Outros elementos que irão se beneficiar da generosidade e da assessoria dos americanos incluem os nacionalistas Kurdos Iranianos, bem como os Árabes Afaze do sudoeste do país.

Evidentemente os funcionários americanos negaram qualquer "financiamento direto" do Jundallah, mas admitiram contatos regulares desde 2005 com o seu líder and el Malik Regi, cujo envolvimento no tráfico de heroína do Afeganistão é amplamente conhecido.As remessas teriam sido canalizadas através de exilados Iranianos com conexões na Europa e nos Emirados do Golfo.

Além disso, em 29 de junho de 2008, Seymour Hersh na revista New Yorker confirmou todos estes fatos, escrevendo, "No final do ano passado, o Congresso aprovou um pedido do Presidente Bush no sentido de custear uma grande escalada nas operações clandestinas contra o Irã, segundo fontes militares da ativa e da reserva, do setor de inteligência e do Congresso.Estas operações, para as quais o presidente solicitou até quatrocentos milhões de dólares, foram descritas em uma Diretriz Presidencial assinada por Bush, e se destinam a desestabilizar a liderança religiosa do país ". Entre as atividades citadas por Hersh estavam "obtenção de inteligência sobre o aparente programa de armas nucleares do Irã", "sabotar as ambições nucleares do Irã" e "tentar subverter o governo através de uma mudança de regime, trabalhando com grupos de oposição e enviando-lhes dinheiro."

Mas a campanha dos Estados Unidos contra o Irã não parou com a posse do Presidente Obama. Não há evidência para concluir que os US $ 400 milhões de dólares que Bush designou tenham sido usados de forma diferente (como, por exemplo, financiar escolas públicas ou o sistema de saúde.) No início de Junho de 2008, Justin Raimondo na revista Antiwar escreveu, "Obama, com seus acenos de paz (ao Irã) serve como o disfarce amistoso para ocultar atividades repugnantes. O governo dos Estados Unidos afirma que está lutando contra o terrorismo, e no entanto está patrocinando grupos que colocam bombas em mesquitas, seqüestram turistas e policiais Iranianos, e que financiam suas atividades com o tráfico de drogas, além de subsídios secretos dos Estados Unidos, cortesia dos contribuintes americanos. " Ele prossegue,

"O que está acontecendo no Irã hoje - uma campanha de terrorismo permanente dirigida tanto contra civis como instalações do governo - é a prova clara de que nada realmente mudou em Washington, pelo menos no que se refere à política americana em relação ao Irã.Estamos em rota de colisão com Teerã, e os dois lados sabem disso.A atitude pública de Obama em "estender a mão" aos Iranianos é uma fraude e proporções épicas.Embora seja verdade que nossos ataques terroristas clandestinos contra o Irã tenham sido iniciados no governo Bush, no governo Obama não está havendo nenhuma redução deste tipo de incidentes; na verdade estão até aumentando em freqüência e gravidade.

Poucos dias antes da eleição Iraniana, um atacante suicida matou pelo menos 25 pessoas e feriu mais 125, dentro de uma importante mesquita Xiitas na cidade de Zahedan, na provincia de Sistan-Baluquistão, no sudeste do país. O grupo rebelde sunita, Jundallah, ligado aos Estados Unidos, assumiu a responsabilidade pela explosão, que foi imediatamente seguida por ataques a bancos, instalações de tratamento de água, e outras pontos chave instalações de Zahedan, incluindo um ataque contra a sede local da campanha do Presidente Iraniano Mahmoud Ahmadinejad.No ano passado, Jundallah (que pretende estabelecer um Estado islâmico balúchi no sudeste do Irã e partes do Paquistão e que tem entre seus fundadores Khalid Sheikh Mohammed, famoso por ter sido torturado com simulação de afogamento e membro da Al Qaeda) seqüestrou 16 policiais Iranianos e gravou em vídeo sua execução.Também houve recentemente uma tentativa de explodir com uma bomba um avião Iraniano, que decolou da cidade de Ahvaz, no sudoeste da fronteira Iraquiana, e que tem uma grande população árabe. Estes acontecimentos recentes compõem o que Raimondo descreve como "uma insurgência em pequena escala" acontecendo nas províncias do sul do Irã.

Tanto a Casa Branca como o Departamento de Estado denunciaram imediatamente estes ataques e negaram qualquer envolvimento com o que eles chamaram "recentes ataques terroristas no interior do Irã". Além disso, houve relatos de que o governo Obama estava cogitando em colocar a Jundallah na lista de organizações terroristas do Departamento de Estado.No entanto,observa o analista Steve Weissman, "a administração de repente retrocedeu quanto a usar a designação de terrorismo ou de indicar que iria suspender com a campanha de desestabilização.

(Aliás, uma das duas únicas províncias do Irã que se colocaram a favor de Mousavi na última sexta-feira foi o Sistan-Baluquistão e multidões com cerca de 2.000 pessoas tomaram as ruas em Ahvaz desde as eleições.)

O apoio à Jundallah - que talvez atendendo uma hábil sugestão de relações públicas vinda do Pentágono, recentemente mudou seu nome para Movimento de Resistência do Povo Iraniano - é apenas das formas pelas quais os Estados Unidos vêm trabalhando no sentido de fomentar uma frente unida anti-Iraniana dentro do país às vésperas das eleições Presidenciais. Assim, segundo os relatos, "os Estados Unidos estão, na verdade, empenhados em uma guerra secreta contra Teerã, uma campanha clandestina destinada a recrutar as minorias étnicas e religiosas - e que chegam a ser a maioria da população em algumas regiões, como na fronteira com o Paquistão, no sudeste - em um movimento destinado a derrubar o governo de Teerã, ou, pelo menos, criar uma tal instabilidade que a intervenção americana "a fim de manter a ordem" se justifique.

Ken Timmerman, diretor executivo da Fundação direitista Foundation for Democracy in Iran, que é o Serviço Persa da Voz da América (VOA), "contou tudo sobre as atividades do outro lado das atividades intervencionistas americanas no exterior, chamada National Endowment for Democracy (Fundação de Apoio à Democracia)," diz McAdams. Timmerman aparentemente declarou que "existe um boato de uma "revolução verde em Teerã," o que levou McAdams a "imaginar de onde estes "boatos" estariam vindo. Timmerman, não parecia estar escrevendo a partir do Irã.McAdams prossegue,

Timmerman continua, com admirável franqueza e honestidade:

"A National Endowment for Democracy já gastou milhões de dólares durante a última década promovendo revoluções "coloridas" em lugares como a Ucrânia e a Sérvia, treinando operadores políticos em técnicas modernas de comunicação e organização.

"Uma parte deste dinheiro parece ter ido parar nas mãos de grupos pró-Mousavi, que têm ligações com ONGs fora do Irã que a National Endowment financia."

Ok, você pensa, mas o que um propagandista fervoroso como Timmerman sabe destas coisas?Bem, ele têm de saber!Sua misteriosa Fundação para a Democracia no Irã está com o focinho enfiado na lama das "ações clandestinas abertas" da NED contra o governo Iraniano.

Como é que a "Fundação para a Democracia no Irã" pretende "promover a democracia" no Irã com nossos impostos"O co-fundador da Fundação Joshua Muravchik nos dá uma pista com o título sutil que escolheu para um artigo seu no Los Angeles Times,
"Bombardeiem o Irã."


Além disso, Weissman chama a atenção para a tortuosa sinceridade de Timmerman: "Notem que isso vem de um crítico de direita que conhece pessoalmente a comunidade expatriada Iraniana," diz ele. "É impossível saber quanto dinheiro do governo foi para estes grupos, pois o Congresso propositadamente isentou o National Endowment for Democracy de divulgar quanto gasta do dinheiro do contribuinte."

Ainda mais recentemente, o comentarista Stephen Lendman informou que General Reformado do Paquistão Mirza Aslam Beig declarou à Radio Pasto no dia 15 de junho que informes "indiscutíveis" provam a interferência da CIA nos assuntos internos do Irã. "Os documentos provam que a CIA gastou US$400 milhões no interior do Irã para provocar uma revolução colorida e vazia, logo após as eleições" e fomentar uma mudança para um regime pró-Ocidente.

Então, estamos finalmente vendo o resultado dos US$ 400 milhões no Irã?

Há muitas pistas que revelam como os protestos de rua no Irã que vimos diariamente no noticiário talvez não sejam o que nos dizem as autoridades ocidentais.Sem dúvida, o grande número de manifestantes é impressionante e qualquer pessoa que ache que houve uma injustiça certamente deve ir para a rua - sem ser sujeita à brutalidade policial - porém uma boa parte do que vimos e ouvimos nas últimas duas semanas mostra sinais de orquestração e tem as marcas digitais de manipulação de fora.

Muitos dos manifestantes que vimos são jovens bem vestidos e ocidentalizados em Teerã com placas escritas em inglês, com frases do tipo "Onde está meu voto?" e outros slogans semelhantes em Inglês. Se os jovens eleitores do Irã estavam trazendo suas reivindicações ao seu próprio governo, porque não estavam usando a língua persa? Manifestantes vistos nos vídeos do YouTube e entrevistados pela televisão americana também falam um Inglês perfeito. Uma primeira mensagem recebida através de uma rede social da Internet local após as eleições, enviada para o National Iranian American Council e posteriormente divulgada pela mídia americana, veio (supostamente) de um Iraniano em Teerã.

Dizia:

"Estou em Teerã. São 3:40 da manhã. Consegui me conectar na rede (enganando o filtro de mensagens do governo).Está uma enorme confusão aqui.As pessoas estão gritando de suas casas - "morte ao ditador". Estão montando um governo militar.Ninguém se atreve a sair. Ninguém viu Mousavi hoje. Os boatos dizem que eles prenderam ele. Eu não tenho um e-mail, mas entrarei em contato com você novamente.

Socorro."

A idéia de que um Iraniano, ciente da longa história de ingerência dos Estados Unidos nos assuntos Iranianos, pedindo socorro a um público americano, é, no mínimo, dúbia.

(O mesmo deve sem dúvida ser dito sobre uma recente artigo publicado na página de OpEd do New York Times supostamente escrito por "um estudante em Teerã." O artigo, claramente tentando mobilizar os leitores americanos a apoiarem firmemente os protestos pró-Mousavi contra o governo Iraniano, é quase surreal. Nele, o autor - curiosamente chamado "Shane M." que é talvez o nome menos Iraniano que já existiu - nega a precisão de pesquisas de opinião feitas antes da eleição dizendo "não vamos esconder os resultados com números que, como bagels (rosquinhas típicas de New York) estavam passadas na semana seguinte." Mais adiante, ele descreve uma cena das comemorações de rua pró-Mousavi em Teerã, incluindo esta observação: "Uma jovem estava pendurada em um carro bem ao estilo The Dukes of Hazzard (Os Gatões no Brasil, foi uma série exibida originalmente de 1979 a 1984 nos EUA.)" A probabilidade de que um "estudante Iraniano" se referisse casualmente a bagels e à serie de TV Dukes of Hazzard me parece remota, mas estes itens seriam bem familiares para vários agentes da CIA).

Quanto à alegação generalizada, publicada em quase todos os grandes jornais,de que Mousavi havia desaparecido, preso, ou colocado sob prisão domiciliar, obviamente não era verdade, considerando que no dia seguinte Mousavi discursou para uma multidão de dezenas de milhares no meio de Teerã em cima do teto de seu carro.

Além disso, as palavras de ordem que ouvimos de "morte ao ditador, morte a Ahmadinejad" não fazem muito sentido vindos de cidadãos Iranianos. Como salienta Craig Roberts, "Todos os Iranianos sabem que o Presidente do Irã é uma figura pública com poderes limitados. Sua principal função é a de levar pancada e evitar que as criticas se dirijam ao Supremo Aiatolá que realmente governa.Nenhum Iraniano, e nem um ocidental bem informado, poderia jamais crer que Ahmadinejad é um ditador. Mesmo o chefe de Ahmadinejad, Khamenei, não é um ditador, pois é nomeado por uma assembléia de notáveis que pode remo como ele é nomeado por um organismo governamental que pode destituí-lo" . Roberts prossegue,

Os protestos, como os de 1953, são destinados a desacreditar o Governo Iraniano e deixar claro para a opinião Ocidental que o governo é um regime repressivo que não tem o apoio do povo Iraniano. Essa manipulação da opinião configura o Irã como um outro Iraque governado por um ditador que deve ser derrubado por meio de sanções ou de uma invasão.

Os primeiros relatos das passeatas em Teerã revelaram que manifestantes pró-Mousavi estavam jogando pedras na polícia e forças de segurança Iranianas, bem como queimando motos da polícia, ônibus urbanos, e até mesmo prédios privadas e governamentais. Em contrapartida, também ouvimos noticias sobre a polícia anti-motim batendo em manifestantes, canhões de gás e de água sendo utilizados contra multidões, e grupos paramilitares Basiji abrindo fogo sobre manifestantes pacíficos. Apesar de funcionários Iranianos haverem culpado as recentes violências de rua sobre os partidários de Mousavi e os participantes das passeatas culparem gangues pró-governo, acusando-as de criar incidentes a fim de justificar uma maior repressão dos dissidentes, a verdade pode ser ainda mais sinistra. Como disse à Newsweek um partidário de Mousavi, que participou de todas as passeatas desta semana, "Acho que pequenos grupos terroristas e gangues criminosas estão se aproveitando da situação." Dinheiro americano bem gasto, talvez.

De acordo com os serviços nacionais de inteligência, foi descoberto um grupo de terroristas ligados aos Estados Unidos que tinha planejado explodir vinte bombas em Teerã. Mesmo assim, uma bomba explodiu próximo ao panteão do fundador da revolução Iraniana, Aiatolá Ruhollah Khomeini, matando uma pessoa e ferindo duas.

Apesar do aumento da violência na semana passada, Khamenei tem sempre diferenciado entre o que considera como grupos rebeldes e não-políticos e os " admiradores eleitorais e partidários" de Mousavi.Ele declarou que "aqueles que devastam os bens públicos e privados pertencentes ao povo estão perpetrando ações políticas sem qualquer finalidade política" e conclamou os candidatos presidenciais a usarem "meios legais" para levantarem suas queixas. Khamenei afirmou, "o destino das eleições será decididas no voto, não nas manobras de rua."

Funcionários do governo Iraniano estão bem conscientes, e com razão desconfiados, de interferência estrangeira nos seus assuntos domésticos. Ali Larijani, o pragmático, moderado conservador presidente do Parlamento e freqüente adversário de Ahmadinejad, disse recentemente em um discurso televisado ao vivo, "aqueles que sob a máscara de adeptos políticos de um movimento ou candidato causar prejuízo ah propriedade pública ou paralisar a vida quotidiana das pessoas comuns, não estão entre os manifestantes que querem os seus votos virtuosamente preservados ", acrescentando que" a liberdade de manifestação deve ser respeitada, e aqueles que são responsáveis pela emissão de autorizações para legitimar os comícios de protesto devem cooperar e emiti-los construtivamente. "

A mídia ocidental certamente não está ajudando.Deve ser lembrado, em primeiro lugar, que tanto a BBC como o New York Times desempenharam papel importante na derrubada do governo em 1953.O livro de Bill Van Auken " The New York Times and Iran: Journalism as State Provocation" (O New York Times e o Irã: o Jornalismo como Provocação de Estado) mostra como o jornalismo é o braço de mídia do estado imperial, incluindo a participação militar direta de um de seus repórteres ligados ah CIA no golpe contra Mossadegh.

Em 1953, o correspondente em Teerã (do New York Times) Kennett Amor, foi não apenas um conduto para a desinformação da CIA, mas também reconheceu sua participação direta no golpe.Ele escreveu posteriormente como deu instruções a uma coluna de tanques do Exercito Iraniano para atacar a casa de Mossadegh.Posteriormente, o Times comemorou o golpe e exigiu apoio incondicional para o regime do Xá.

Sabe-se bem da participação da BBC em liderar a campanha de propaganda britânica, transmitindo a palavra-código ("exactly")que iniciou o golpe propriamente dito. Mesmo o surgimento e a importância dos novos meios de comunicação tem de ser visto criticamente - algo em que os jornalistas ocidentais não são muito bons. A CNN recentemente criou um novo texto de isenção de responsabilidade para todo o material " não verificado" que vem transmitindo 24 horas por dia no esforço de apoiar os manifestantes e contra o governo do Irã.

O "boom do Twitter" foi ate certo ponto preparado por um pequeno grupo de ativistas anti-Ahmadinejad nos Estados Unidos e em Israel. Enquanto as organizações de mídia excitadamente mostra jovens Iranianos usando o Twitter nas ruas de Teerã, é claro que a maior parte desta atividade é de americanos " tweeting" entre si. Ainda assim, o governo americano solicitou ao Tweeter que adiasse uma interrupção programada para manutenção para que o tweeting vindo do Irã pudesse prosseguir sem interrupções. Mas, evidentemente, isto não é intromissão. Alem disso, Caroline McCarthy da CNET News relata que "usuários de todo o mundo estão mudando os dados de localização de seus perfis para Teerã, a capital do Irã, a fim de confundir as autoridades do Irã que possam estar tentando a ferramenta de micro-blogging para rastrear atividades de oposição."Embora eu não tenha certeza sobre a intenção de "confundir" as autoridades Iranianas, tenho certeza de ações como esta servem para exagerar o escopo, o alcance e a importancia das redes sociais e da mídia alternativa na política e no ativismo do Irã.As vozes do povo Iraniano devem, é claro, ser ouvidos e respeitadas -, mas a massa de apoio via twittering provocada por americanos, europeus e israelenses não pode ser considerada como falando em nome do povo Iraniano.

Uma declaração mal colocada do Presidente Obama pode nos dar algum insight. Nos primeiros dias dos protestos pós-eleições, ele declarou: "Não é produtivo, considerando a história das relações entre os Estados Unidos e o Irã, que sejamos percebidos como nos intrometendo nas eleições Iranianas. "

Intromissão americana, Mr. Obama? Nunca! Especialmente considerando que nosso governo é responsável por trinta anos de sanções, operações abertas e clandestinas para enfraquecer um dos poucos países que ousou enfrentar o imperialismo americano mesmo com todos os agressivos esforços para fomentar a divisão e promover mudança de regime.

*****

Não deixe de ler o excepcional artigo de Jeremy R. Hammond no Foreign Policy Journal, com o título "Has the U.S. Played a Role in Fomenting Unrest During Iran’s Election?" (Será que os Estados Unidos tiveram participação nos tumultos durante a eleição do Irã?)

Tradução: Virgilio Freire

Amores e mudanças

CONTARDO CALLIGARIS

Amores e mudanças

Como esbarrar num amor que nos transforme? O filme "Tinha que Ser Você" dá uma dica preciosa


QUANDO A VIDA da gente está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? Provavelmente, sim -no mínimo, é o que esperamos: afinal, o poder transformador do encontro amoroso faz o charme de muitos filmes e romances.

Os especialistas validam nossa esperança. Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia, por exemplo, que o amor é o sinal de uma "mudança de discurso", ou seja, na linguagem dele, de uma mudança substancial na nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Claro, resta a pergunta: o que significa "sinal" nesse caso?

Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras.

Seja como for, volta e meia, alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los. Aqui vai um exemplo.

O filme "Tinha que Ser Você", escrito e dirigido por Joel Hopkins, além de ser uma pequena dádiva, oferece uma "dica" preciosa sobre as condições que fazem que um amor "engate". É a história de um encontro ao qual os protagonistas tentam dar uma chance -a chance de transformar suas vidas.

Parêntese. Harvey (Dustin Hoffman) está na casa dos sessenta, e Kate (Emma Thompson) na dos cinquenta. É possível ver no filme uma parábola em prol da ideia de que nunca é tarde demais para deixar que um amor nos dê um novo rumo.

O título original, "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), iria nessa direção: é agora ou nunca. Pode ser, mas talvez toda chance que a vida nos dá seja mesmo a nossa última.
Fora isso, o filme começa nos mostrando que a vida de Harvey é tão emperrada quanto a de Kate. Em ambos, há uma certa decepção por não conseguir (ou não ter conseguido) aventurar-se a viver seus sonhos -ser pianista de jazz para Harvey, e romancista para Kate. Os dois estão sozinhos e conformados com uma certa mediocridade afetiva: Kate se encaminha para ser a filha que cuidará para sempre da velha mãe, e Harvey já desistiu de ser o pai da filha de quem ele se distanciou, muitos anos antes, no divórcio que o separou da mãe dela.

Em suma, Harvey e Kate estão precisando de uma mudança.

Por que o encontro de Harvey e Kate teria mais sucesso do que os encontros às escuras que Kate se permite, de vez em quando? Por que eles não balbuciariam apenas a estupidez inibida que é habitual nesses casos? Simples, mas crucial: a conversa deles começa com uma sinceridade quase cínica. A "cantada" inicial de Harvey é o oposto do fazer de conta que é a regra das relações sociais, pois Harvey se apresenta confessando o fracasso de sua vida.

Logo, Harvey e Kate passeiam por Londres discorrendo e se conhecendo. Os espectadores descobrirão se eles saberão dar uma chance ao encontro ou, então, voltarão cada um para seu "conforto".

O passeio pela cidade evoca dois filmes de Richard Linklater, que estão entre meus preferidos, "Antes do Amanhecer", de 1995, e "Antes do Pôr-do-sol", de 2004.

No primeiro, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) encontram-se, passam um dia nas ruas de Viena e, enfim, separam-se. No segundo, eles se encontram de novo, em Paris, nove anos depois, e, também passeando, imaginam, de alguma forma, a outra vida que poderia ter sido a deles se, no fim daquele dia em Viena, eles tivessem apostado no futuro de seu encontro.
Aqui, uma recomendação prosaica que emana dos três filmes: se você procura um grande encontro amoroso, sempre use calçados confortáveis, porque nunca se sabe por quantos quilômetros se estenderão suas deambulações amorosas.

Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia. Mas o filme de Hopkins, "Tinha que Ser Você", é mais generoso, porque ele nos deixa com uma sugestão: o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas.

ccalligari@uol.com.br

segunda-feira, 29 de junho de 2009

ABBA - The Winner Takes It All



I dont wanna talk
About the things weve gone through
Though its hurting me
Now its history
Ive played all my cards
And thats what youve done too
Nothing more to say
No more ace to play

The winner takes it all
The loser standing small
Beside the victory
Thats her destiny

I was in your arms
Thinking I belonged there
I figured it made sense
Building me a fence
Building me a home
Thinking Id be strong there
But I was a fool
Playing by the rules

The gods may throw a dice
Their minds as cold as ice
And someone way down here
Loses someone dear
The winner takes it all
The loser has to fall
Its simple and its plain
Why should I complain.

But tell me does she kiss
Like I used to kiss you?
Does it feel the same
When she calls your name?
Somewhere deep inside
You must know I miss you
But what can I say
Rules must be obeyed

The judges will decide
The likes of me abide
Spectators of the show
Always staying low
The game is on again
A lover or a friend
A big thing or a small
The winner takes it all

I dont wanna talk
If it makes you feel sad
And I understand
Youve come to shake my hand
I apologize
If it makes you feel bad
Seeing me so tense
No self-confidence
But you see
The winner takes it all
The winner takes it all......

A massacrante felicidade dos outros

Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco.

Há no ar um certo queixume sem razões muito claras. Converso com mulheres que estão entre os 40 e 50 anos, todas com profissão, marido, filhos, saúde, e ainda assim elas trazem dentro delas um não-sei-o-quê perturbador, algo que as incomoda, mesmo estando tudo bem. De onde vem isso?

Anos atrás, a cantora Marina Lima compôs com o seu irmão, o poeta Antonio Cícero, uma música que dizia: "Eu espero/ acontecimentos/ só que quando anoitece/ é festa no outro apartamento". Passei minha adolescência com esta sensação: a de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar para o qual eu não tinha convite. É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e impedido de ser feliz como os outros são - ou aparentam ser. Só que chega uma hora em que é preciso deixar de ficar tão ligada na grama do vizinho.

As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação, que é infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias. Os notáveis alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas, então fica parecendo que todos estão comemorando grandes paixões e fortunas, quando na verdade a festa lá fora não está tão animada assim.

Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e também motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente. Só que os motivos pra se refugiar no escuro raramente são divulgados. Pra consumo externo, todos são belos, sexys, lúcidos, íntegros, ricos, sedutores. "Nunca conheci quem tivesse levado porrada/ todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo". Fernando Pessoa também já se sentiu abafado pela perfeição alheia, e olha que na época em que ele escreveu estes versos não havia esta overdose de revistas que há hoje, vendendo um mundo de faz-de-conta.

Nesta era de exaltação de celebridades - reais e inventadas - fica difícil mesmo achar que a vida da gente tem graça. Mas tem. Paz interior, amigos leais, nossas músicas, livros, fantasias, desilusões e recomeços, tudo isso vale ser incluído na nossa biografia. Ou será que é tão divertido passar dois dias na Ilha de Caras fotografando junto a todos os produtos dos patrocinadores? Compensa passar a vida comendo alface para ter o corpo que a profissão de modelo exige? Será tão gratificante ter um paparazzo na sua cola cada vez que você sai de casa? Estarão mesmo todos realizando um milhão de coisas interessantes enquanto só você está sentada no sofá pintando as unhas do pé?

Favor não confundir uma vida sensacional com uma vida sensacionalista. As melhores festas acontecem dentro do nosso próprio apartamento.

Martha Medeiros


Martha Medeiros, é colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro. Casou-se com o publicitário Luiz Telmo de Oliveira Ramos e tem duas filhas.

Estudou no Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, tradicional de Porto Alegre, Localizado nos arredores do bairro Moinhos de Vento Formou-se em 1982 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre.

Trabalhou em propaganda e publicidade, mas logo se sentiu frustrada com a carreira. Quando seu marido recebeu uma proposta de trabalho no Chile, decidiu que uma mudança de país seria uma ótima oportunidade para dar um tempo na profissão. Esta estada de nove meses no Chile, na qual passou escrevendo poesia, acabou sendo um divisor de águas na sua vida.

Quando voltou para Porto Alegre, começou a escrever crônicas para jornal e, a partir daí, sua carreira literária deslanchou.

Raras Fotografias Do Rio de Janeiro

domingo, 28 de junho de 2009

Little Darlin' The Diamonds Before and later

L'Art Nouveau

É preciso ser feliz sozinho

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Domingo, 14 de junho de 2009,

Flávio Gikovate - Médico psiquiatra, terapeuta e escritor; O amor romântico dará lugar ao de indivíduos que se somam, diz o mais pop dos terapeutas brasileiros

Ivan Marsiglia

- São 18h45 de uma terça-feira chuvosa e o trânsito é de enlouquecer nos arredores da Avenida Paulista. Ainda assim, quase todas as 166 cadeiras do Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, em São Paulo, estão ocupadas para o próximo espetáculo. O que vai se encenar ali não é a peça O Homem da Tarja Preta, do psicodramaturgo Contardo Calligaris, nem A Alma Imoral, do rabino filósofo Nilton Bonder - ambas em cartaz na casa. Serão dramas e tragédias da vida real de brasileiros, ansiosos pelas palavras do protagonista que acaba de subir ao palco.

A cabeleira branca do psiquiatra Flávio Gikovate, 66 anos, reluz sob os holofotes. Vestindo um figurino composto de blazer, camisa social sem gravata, jeans e sapatos que lhe confere um ar sóbrio e informal, é ele o diretor de cena a conduzir as atenções do público - em sua maioria de classe média, bom nível de escolaridade e repartido igualmente entre mulheres e homens, jovens, maduros, idosos. Vai começar o programa No Divã do Gikovate.

Transmitido pela rádio CBN aos domingos das 21h às 22h - "na hora da fossa, do bolo no estômago", como ele costuma dizer -, o consultório sentimental do doutor Flávio é acompanhado por uma média de 30 mil ouvintes só na capital paulista, segundo a emissora. Em geral, entra ao vivo e o público participa pelo telefone. Ocasionalmente, como hoje, é pré-gravado, pois o psiquiatra reservou o final de semana do dia dos namorados para ir a Nova York com a editora Cecília Pintchovsky Gikovate, sua segunda mulher. E a plateia pode expor suas angústias cara a cara com o psiquiatra.

Não são poucas. Do senhor que se ressente do desinteresse erótico de sua esposa à mulher que sente culpa cada vez que dá uma gargalhada. Da moça que passou a ter medo da morte, depois que o namorado se foi, ao adolescente raquítico com vergonha de tirar a camisa. A senhora desconfiada das carícias estranhas que o marido lhe pede e a comissária de bordo que, com o emprego, perdeu os amigos e ganhou 30 quilos.

Gikovate responde tudo com simplicidade e calma, sem perder o timing radiofônico. Seu tom é acolhedor, mas não complacente, e temperado às vezes por uma ironia sutil. "É curioso como as mulheres casadas com cafajestes jamais se recusam sexualmente a eles", diz, em determinado momento. "A homossexualidade não está relacionada ao que se faz na cama, mas com quem", afirma em outro. Mais adiante: "Sócrates bebeu cicuta sem medo, pois para ele a morte seria um sono sem pesadelos ou um reencontro com grandes filósofos que se foram. E dizia: ?Em ambos os casos está bom para mim?."

Se o midiático terapeuta é um sucesso de público, nem sempre é de crítica. Embora a solidez de sua formação intelectual seja inegável, há quem torça o nariz para a ligeireza com que trata de temas profundos da psique humana no rádio, na internet, em revistas e jornais.

Filho de um imigrante judeu filiado ao Partido Comunista Brasileiro, ele cursou medicina na USP e formou-se psiquiatra em 1966. Nos anos 70, em plena euforia da liberação sexual, o jovem Flávio mudou-se para a Inglaterra para trabalhar como assistente clínico no Instituto de Psiquiatria da London University. Lá, deu-se conta de que, ao contrário do pai, não tinha gosto por instituições, acadêmicas ou partidárias. "Nunca aderi a nenhuma doutrina", conta. "Para mim, se macumba ajudar o paciente, vale."

De volta ao Brasil, já tinha uma agenda abarrotada de clientes, faz questão de frisar, quando o jornalista Samuel Wainer convidou-o para escrever sobre comportamento no Aqui, São Paulo, semanário que fundara em 1975. Dois anos depois, a coluna migrou para a revista Capricho, pioneira na orientação sexual a adolescentes no Brasil - e seu primeiro artigo causou polêmica ao ensinar às mocinhas que existia sexo sem amor. Também foi colunista da Folha de S.Paulo na década de 80 e assinou uma página na revista Cláudia até 1999.

Publicou mais de 20 livros que venderam ao todo 500 mil exemplares. Em um deles, Namoro - Relação de Amor e Sexo (Editora Moderna, 1993), lançou no País o termo "ficar", que ouviu de um jovem paciente no consultório. E definiu a prática como "troca de intimidades físicas da cintura para cima, sem nenhum tipo de compromisso".

O "ficar" não foi caso fortuito em sua obra. "Meus livros vêm só da clínica, não sou o fruto da minha bagagem teórica." Quando fala de terapeutas e pensadores que o influenciaram, como Erich Fromm, Carl Rogers e Jose Ortega y Gasset, Gikovate ressalta neles a simplicidade da escrita e a opção pelo público leigo. E considera que um dos períodos mais ricos da produção intelectual em sua área se deu durante a 2ª Guerra Mundial, "quando toda uma geração de acadêmicos, na maior parte, judeus, migrou para os EUA e houve um choque criativo entre a cultura aristocrática europeia e o pragmatismo utilitarista norte-americano".

Esse desdém pela academia não impediu que alguns de seus trabalhos fossem lá reconhecidos. Aquele que talvez seja seu melhor livro, O Mal, o Bem e Mais Além - Egoístas, Generosos e Justos (MG Editores, 2005), foi definido pela filósofa uspiana Olgária Matos como "inovador e de leitura urgente". Em linguagem clara , Gikovate compara as impressões que colheu dos cerca de 8 mil pacientes atendidos por ele em 41 anos de clínica com a crítica à moralidade cristã formulada pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche nas obras Genealogia da Moral e Além do Bem e do Mal.

O psiquiatra percebeu que a maior parte dos casais é formada por um generoso e um egoísta, numa confirmação do ditado que diz que opostos se atraem. Em seguida, embaralhou, a exemplo de Nietzsche, os juízos de valor contidos nessas duas categorias: "O egoísta não tolera frustrações, é mais estourado e procura sempre arrumar um jeito de levar vantagem, porque a vida dura não é parte de seu psiquismo. O generoso, por sua vez, não consegue dizer ?não? quando solicitado porque não sabe lidar com a culpa, sentindo-se envaidecido e superior por conseguir dar mais do que recebe".

Para superar essa armadilha em que "um reforça a pior parte da alma do outro", diz Gikovate, é preciso ir além da generosidade. É a atitude do "justo", cuja característica é dar e receber de maneira equilibrada. Ocupar-se de seus interesses sem se descuidar do outro. Ser compreensivo, sem passar a mão na cabeça de quem erra. Uma sutileza descrita na máxima de Nelson Rodrigues: "Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe".

Diante dos dilemas do amor moderno, em vez da ideia ultrapassada das "caras-metades", Gikovate prefere a de "almas gêmeas". Gêmeas bivitelinas, bem entendido. "Se tiver que optar entre o amor e a individualidade, fico com a individualidade." Para esse entusiasmado defensor da independência entre os casais, no século 21, estar inteiro e feliz é uma condição anterior ao encontro amoroso. E uma onda passou sobre o verso da canção Wave, de Tom Jobim, que dizia "é impossível ser feliz sozinho".

Gikovate também discorda do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor de Amor Líquido (Jorge Zahar, 2004), um pessimista para quem os relacionamentos atuais são marcados pelo consumismo e os casais estabelecem laços frouxos para que possam ser desatados a qualquer momento. "Os laços têm se dissolvido porque sempre foram de qualidade duvidosa", rebate o brasileiro.

"Vivemos uma crise de transição do amor romântico do século 19 para o de individualidades que se completam." Percurso que, conta Gikovate, ele próprio fez em sua vida pessoal. "Quando me casei pela primeira vez, aos 21, estava no quarto ano da faculdade e não tinha o menor conhecimento sobre os problemas de casais com temperamento e caráter diferentes." Com Ceci, sua atual mulher, compartilha afinidades há exatos 33 anos. "Somos extremamente íntimos e, ao mesmo tempo, respeitosos. Tentamos ser justos, o que não é nada fácil", admite o mais pop dos psi brasileiros. "Ela é minha terapeuta particular."

sábado, 27 de junho de 2009

Dan Dennett sobre nossa consciência


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O filósofo Dan Dennett explica porque não conseguimos compreender nossa própria consciência, e metade do tempo, nossos cérebros estão ativamente nos iludindo.

Berlin Alexanderplatz volta renovado

Domingo, 14 de Junho de 2009

O épico de Alfred Döblin, marco da ficção expressionista, ganha uma segunda tradução no Brasil ao completar 80 anos

Antonio Gonçalves Filho

O mais incômodo épico da literatura alemã do século 20, Berlin Alexanderplatz, obra-prima do médico e escritor Alfred Döblin (1878-1957), ganha, aos 80 anos, uma nova tradução, a cargo da professora de Literatura Irene Aron, que a Editora Martins/Martins Fontes coloca nas livrarias no começo de julho. O livro, já traduzido anteriormente por Lya Luft, volta às livrarias num momento de crise, o de uma recessão cada vez mais desestabilizadora, que ameaça empurrar para o precipício países fragilizados, exatamente como aconteceu no passado com a Alemanha, tomada de assalto pelos nazistas. Em mais de uma ocasião - e com justa razão -, a atual crise financeira do mundo foi comparada ao inferno de Wall Street em 1929, ano do grande crash da Bolsa - e também da chegada de Berlin Alexanderplatz ao mercado, após sua publicação em folhetim ter sido recusada por dois dos principais jornais liberais de Berlim.

Leia trecho do livro

Se a crise atual ainda não atingiu as proporções gulliverianas da República de Weimar, onde a inflação corroeu salários e também a alma dos alemães, é certo que ela já oprime milhares de desempregados, que experimentam hoje o que sentiu no passado o operário e carregador de mobílias Franz Biberkopf, protagonista de Berlin Alexanderplatz. Biberkopf, ao sair da prisão de Tegel, após cumprir pena de quatro anos por matar a companheira num acesso de raiva, tem como primeiro impulso voltar para sua cela, ao se defrontar logo na saída com uma Berlim irreconhecível, afundada na corrupção, no fanatismo político e na recessão. Nessa Babilônia moderna, qualquer ser resgatado pelo colete salva-vidas de ideologias totalitárias teria o rosto de um Franz Biberkopf, parece martelar na consciência o épico de Döblin, escrito quando Hitler já mostrava suas garras.

Döblin, claro, não teria feito Biberkopf passar pela provação de vender nas ruas o principal órgão de propaganda nazista (o jornal Völkischer Beobacher) se não quisesse discutir a diabólica sedução do totalitarismo quando se está só e desamparado. Entre os inúmeros bicos que o protagonista arranja para viver uma vida decente - de camelô a vendedor ambulante de cadarços -, nenhum lhe oferece sequer a chance de sobrevivência. Com o bolso arruinado, ele se entrega à bebida, retoma contato com amigos marginais, perde um braço durante um roubo e vira gigolô. O resto da história é uma descida aos infernos que só poderia mesmo ter sido transposta para o cinema pelo cineasta Rainer Werner Fassbinder em sua memorável série de 15 horas. Feita em 1980 para a televisão alemã, ela está disponível numa caixa com 6 DVDs, lançada recentemente pela Versátil (veja texto nesta página).

O filme, que tem o mesmo título do livro, é uma adaptação fiel do romance, mesmo em seus momentos mais alucinados, entre eles o surrealista epílogo em que Biberkopf, morto e guiado por dois anjos, reencontra no (sub)mundo dos espíritos os infelizes com quem topou em vida. No livro, esse delírio começa no momento em que Biberkopf entra na segunda instituição a mantê-lo preso, o manicômio de Buch - no qual morre e depois é "ressuscitado" por Döblin, que, na vida real, passou por lá como médico. No capítulo final, o autor dá uma segunda chance a seu protagonista, rebatizando-o de Franz Karl Biberkopf para distingui-lo do primeiro Biberkopf, oferecendo a ele um emprego de auxiliar de porteiro numa fábrica de porte médio, após sua saída do hospício. Para lá o catatônico Biberkopf é encaminhado depois que sua companheira Mieze é assassinada pelo perverso amigo Reinhold, outro parceiro amoroso do protagonista, responsável pelo acidente que o tornou maneta.

Dito assim, corre-se o risco de confundir Berlin Alexanderplatz com um romance que cruza o realismo de Balzac com a crônica mundana. De fato, a origem desse épico pode ter sido uma simples notícia policial perdida nos jornais populares citados no livro, ao lado de textos publicitários, canções e versos bíblicos, fielmente transcritos nessa "montagem" - como Walter Benjamin definiu o livro. Nela, o personagem principal não é Franz Biberkopf, mas a cidade que o destrói - e, mais exatamente, Alexanderplatz, praça central e local de confluência de todos os deserdados alemães na época do advento do nazismo. Döblin, assim, opta por dar voz a seus personagens, abdicando do papel de narrador. Trata-se de um exercício polifônico que não dispensa o recurso joyciano do monólogo interior - embora Döblin sempre tenha afirmado que conhecia mal a literatura de James Joyce quando começou a escrever Berlin Alexanderplatz. Pode ser. O fato é que seu livro, escrito no auge do expressionismo alemão, cruza referências eruditas e linguagem coloquial para narrar a história de um homem em busca da sobrevivência, amalgamando sua tragédia com a de um país que perde o pudor para pagar suas dívidas de guerra, resgatar a autoconfiança e fugir do colapso econômico.

A tradutora Irene Aron, nascida de pais alemães emigrados durante a 2ª Guerra, lembra de algumas expressões populares presentes no livro, ainda usadas em família durante sua infância. Isso facilitou o complexo trabalho de tradução, que obriga os profissionais a uma pesquisa exaustiva sobre a cultura de Weimar. O mais difícil, porém, foi encarar a natureza polifônica de Berlin Alexanderplatz. "Por vezes fica-se sem saber se é o narrador ou o próprio autor que está falando", diz a professora, que enfrentou anteriormente o desafio de traduzir Passagens, a obra-prima póstuma de Walter Benjamin.

Benjamin, aliás, escreveu sobre a retomada do relato épico em Berlin Alexanderplatz (em A Crise do Romance, de 1930), afirmando que o princípio estilístico do livro é a montagem, que, longe de ser arbitrária, baseia-se no documento - daí a exata reprodução das letras das canções populares da época, as estatísticas e os versículos bíblicos que conferem autenticidade à ação épica da narrativa de Döblin, segundo o estudioso. E não só autenticidade. Por respeito à tradição épica, o confronto de Franz Biberkopf é com a polis e a morte. Primeiro, ele enfrenta as barreiras da metrópole para depois chegar à fronteira da vida, submetido aos fragmentos do Livro de Eclesiastes usados por Döblin em sua obra. Biberkopf, paradoxalmente, é salvo pela morte ao aceitar, no fim de sua trajetória, que ele, somente ele, é o culpado por todos os males que o atingiram. O homem comum de Döblin desejou ser maior que o destino e foi punido por isso. Se acontece nas melhores tragédias gregas, por que não em épicos modernos?
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O filme

A superposição da vida de Franz Biberkopf com a da metrópole que se transforma à custa de miseráveis é o aspecto mais visível da versão para o cinema da narrativa de Döblin. A todo momento Fassbinder usa o cenário não como recurso puramente formal, mas para enfatizar os mecanismos de poder nessa metrópole disputada como centro político de um país à deriva. Assim, às mansões luxuosas, decoradas com móveis bauhausianos, contrapõe-se a miséria das espeluncas habitadas por Biberkopf e os oprimidos da nova (des)ordem moral da República de Weimar, onde almas podem ser compradas a preços irrisórios. Fassbinder percebeu o que talvez nem Döblin tenha notado - e que Benjamin percebeu antes de todos: o destino de Biberkopf é a educação sentimental dos marginais, o que dá à narrativa cinematográfica um aspecto do velho romance de formação burguês. Fassbinder carrega nas tintas do Bildungsroman sem trair a modernidade de Döblin, fazendo com que sua figura se confunda com a da metrópole desde a cena em que o condenado sai da prisão. É essa sequência labiríntica que sintetiza o épico alemão.

Os romanos, seus cavalos e a NASA

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Telefonica - Se sabia fazer, porque não fez?

Se você pedir a um arquiteto ou um engenheiro civil para projetar. uma residência de dois ou três dormitórios, mais ou menos quanto tempo espera que o profissional demore para entregar-lhe o projeto?

Um mês? Dois?

Agora pense no seguinte: A Telefonica conseguiu em 3 (Três) dias, reprojetar todo o sistema da Banda Larga do Estado de São Paulo, abrangendo dois milhões e meio de usuários.

O presidente da Telefonica apresentou hoje à tarde, sexta-feira, o "Plano de Recuperação da Banda Larga" da empresa à ANATEL. O plano, que tem três fases, visa a recuperar e reestruturar a oferta do serviço, e será completamente concluído em 180 dias.

Na primeira fase do plano, a Telefônica (palavras da Telefonica) deve recuperar os pontos que apresentaram instabilidade e levaram aos apagões que deixaram até a Polícia Civil de São Paulo sem internet. (Mas isto não deveria ser feito independentemente da punição da Anatel?)

"Acreditamos que, se a Anatel estiver confortável com a solidez e a eficácia do plano que estamos apresentando, teremos autorização para reiniciar o processo de comercialização, ainda que tenhamos algumas restrições. E que isso possa ocorrer antes dos 30 dias", afirmou Valente.

Conforme exposição feita hoje por técnicos da companhia na Anatel, as interrupções foram causadas por vários fatores, entre eles (palavras da Telefonica) a incapacidade das redes por onde correm os dados para atender ao tráfego intenso, e a vulnerabilidade provocada por intervenções da própria Telefônica, a fim de tentar melhorar o sistema e protegê-lo de ataques externos.

(Se quando a Telefonica mexe no Sistema ele fica pior, isto significa que o pessoal da Telefonica não tem a mínima idéia do que está fazendo...)

Segundo Valente, cerca de R$ 70 milhões serão investidos em ações para aumentar a capacidade dos equipamentos de DNS - que são os que transformam o endereço digitado em código e número que será reconhecido pela rede - e dos cabos submarinos que ligam o sistema aos Estados Unidos. Aumentando também a Rede IP, por onde trafegam os dados, a empresa espera que não haja mais interrupções no serviço.

Agora leia a notícia acima olhando de outro lado - a Telefonica está admitindo que para economizar 70 milhões de Reais implantou um sistema mal projetado!!!!

Na segunda fase do plano, que será concluída em 90 dias, serão tomadas medidas semelhantes, mas ampliando ainda mais a capacidade desses itens. "Nessa caso, já dependeremos da importação de equipamentos, o que leva tempo. Mas talvez a gente consiga concluir até antes desses 90 dias", afirmou Valente.

Por fim, em até 180 dias, a empresa espera concluir a última fase do plano, em que serão feitas intervenções na rede para promover serviços de upgrade (atualização, elevação de nível). "Quando fazemos intervenções, a rede fica vulnerável. Então, vamos cuidar de toda essa ampliação antes de recomeçar essas intervenções, que serão mais frequentes em função do aumento do tráfego, de modo que elas se tornem mais seguras", explicou o presidente da Telefônica.

Com isso, disse ele, a expectativa é que, ao fim, "a empresa tenha uma das redes mais seguras e confiáveis da América Latina". (Ah, bom, nós todos acreditamos nisso)

A Telefônica é responsável por cerca de 70% do serviço de banda larga no estado de São Paulo e por 28% de todas as reclamações que o Procon do estado recebe por mês. Valente admitiu os "erros do passado" e espera que, com as melhoras, o nível de atendimento ao cliente também seja elevado.

Se a Telefonica sabia "os erros do passado" porque foi preciso que a Anatel chegasse ao ponto de proibir a venda do Speedy para que a empresa decidisse corrigir esses "erros do passado"?

Mas o mais grave: como a Telefonica, mesmo sendo uma empresa com abrangencia internacional, consegue elaborar um plano destes em três dias? Trata-se de um projeto complexo, não é um projeto de residência, que leva um mês, e sim de um complexo modelo envolvendo centenas de estações, milhares de quilômetros de fibra ótica, dezenas de pontos de interconexão, e tudo isso foi feito - bem feito? em três dias?

Ou o plano já estava pronto na prateleira e nunca foi implantado por economia e má-fé, ou não estava pronto, e nenhum plano feito em três dias pode fazer sentido.

É um camelo.

Você sabe o que é um camelo? É um cavalo projetado pelo pessoal da Telefonica.


Uma história real

O Império Global da Mandioca

CLARA BECKER

O dia da carioca Magali Peixoto começa muito antes que as praias se encham de gente e as ruas se entupam de carros, arrebanhando a freguesia que garante seu emprego.

Ela trabalha à sombra de um sucesso popular no Rio de Janeiro. É empacotadora do biscoito Globo, o preferido das praias e dos engarrafamentos. Todo dia, sai de casa para o serviço às quatro e meia da manhã, quando o sol nem deu sinal de que pretende nascer e os vizinhos dormem no Morro da Caixa d'Água, no subúrbio de Quintino, a terra de Zico. Ela desce a ladeira irregular na noite fechada. "Daqui a pouco, todo mundo acorda, mas a essa hora sou só eu, Deus e os cachorros", diz Magali, incluindo entre os madrugadores os dois vira-latas dela, Raí e Priscila.

Magali desce o morro com passos firmes. Visto de baixo, o caminho parece um barranco. De cima, um precipício. Mas, aos 53 anos, Magali sabe de cor onde pôr os pés. "Precisa me ver descendo isso aqui de salto alto, na chuva", diz, oferecendo à interlocutora o próprio braço como balaústre. No horizonte, brilham os bicos de gás da Refinaria Duque de Caxias. Se já estivesse claro, ela informa, daria para ver, ao fundo da Baixada Fluminense, o cume do Dedo de Deus, lá em Teresópolis, a quase 90 quilômetros de distância.

Ao pé do morro, ela toma o trem para a cidade. E, no fim da linha, anda mais quinze minutos até a rua do Senado, número 273A. São 5h30 e ainda não amanheceu quando Magali chega à fábrica do Globo, como faz há 35 anos. Na frente do velho sobrado, os vendedores ambulantes começam a fazer fila, à espera da mercadoria. Lá dentro, prestes a dar início à epopéia do biscoito, está um dos donos da empresa. Faz meia hora que o padeiro Francisco Nunes Torrão aguarda seus onze funcionários para poder dar a largada de uma jornada que, desdobrada em dois turnos, só se encerrará 150 mil biscoitos mais tarde. Serão 96 fornadas consecutivas que se estenderão até as oito da noite.

Torrão é um dos sócios-fundadores do biscoito Globo. Nasceu em Portugal, 73 anos atrás. Veio para o Brasil em 1954, driblando a convocação para o serviço militar, num tempo em que o exército salazarista despachava soldados para as colônias africanas. Ele integra o quarteto que criou a empresa em 1963. Passados 46 anos, continua madrugando para abrir as portas da fábrica às cinco em ponto da manhã. Às seis, quando sai a primeira fornada, ele prova um biscoito ainda quente e - o que é essencial - antes que passe pela estufa, etapa que o tornará mais crocante. Torrão, ao contrário do mercado, prefere o Globo assim.

Outros onze empregados revezam-se para desdobrar o expediente por mais de catorze horas. A maioria tem "um bom tempo" de casa. E ninguém reclama da rotina. Edmilson da Silva, por exemplo, mantém o ponto da massa há 44 anos. Para esses detalhes, Torrão não troca por máquina alguma o toque humano. E só há quatro máquinas à vista nos 460 metros quadrados do prédio centenário, de paredes altas revestidas, de alto a baixo, com azulejos brancos. A tinta marrom nas portas está descascando.

O equipamento industrial se resume à misturadora, que vira a massa, à pingadeira, que molda as roscas, e aos dois fornos, que assam os biscoitos. "Muita coisa aqui ainda é feita manualmente", resume Torrão. E isso não é problema. Depois de analisar o funcionamento da empresa no curso de engenharia de produção, o estudante Bernardo Cunha de Miranda, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, concluiu que o único gargalo visível nessa linha de produção está nos fornos, que fazem 164 biscoitos por minuto. Torrão agradeceu a informação e deixou tudo igual.

As mãos de Magali produzem 2 500 pacotes por dia. Manipulam, em média, 25 mil biscoitos. Quer dizer que arrumam as roscas em fileiras nos sacos de papel. Fecham sumariamente o invólucro, retorcendo como orelhas as pontas dos embrulhos. Achatam as embalagens com dois tapinhas anódinos. Cinco vezes por minuto.

Seus gestos parecem mecânicos. Mas a empresa lubrifica as engrenagens da produção artesanal com uma política de recursos humanos que, há décadas, promove o bom humor da turma na cozinha abafada por fornos ligados a 230 graus. Repete-se, na política pessoal, a fórmula do biscoito: nunca mudar o que uma vez deu certo. A firma paga salários acima do mercado - de 300 a 500 reais por semana, de acordo com o faturamento da temporada - e sempre em dinheiro vivo. Não fala em demissões, reengenharia, reestruturação, downsizing e outras firulas da moderna administração de empresas. Na hora de contratar, aposta no bom e velho compadrio, preferindo parentes e amigos de funcionários antigos.

Magali é exceção. Entrou pela cota do acaso. Numa tarde de sol em 1973, comprou um pacote de Globo doce na praia do Flamengo, e aproveitou para perguntar se a fábrica não estaria precisando de alguém como ela. O vendedor palpitou que sim, porque o movimento era grande. Ela passou por lá no dia seguinte e pegou uma vaga.

Pela informalidade, o biscoito Globo não poderia parecer mais carioca. Mas ele é paulista. Nasceu em 1953, produto do fim de um casamento. Milton, Jaime e João Ponce Fernandes são irmãos cujos pais se desquitaram. A ter que escolher entre morar com a mãe ou com o pai, os três acharam mais fácil se mudar para os fundos da padaria de um tio, na rua Cipriano Barata, perto do Museu do Ipiranga, em São Paulo. Lá, aprenderam a fazer biscoito de polvilho. E nunca mudaram a receita.

O biscoito Globo chegou ao Rio em 1955. Veio para o 36º Congresso Eucarístico Internacional, que levaria multidões ao Aterro do Flamengo, ainda em fase de terraplenagem. A peregrinação religiosa foi, para o biscoito, uma epifania. Pela primeira vez, ele se encontrou com o povo aglomerado e descobriu que havia nascido para isso. Os irmãos Fernandes, depois do Congresso, acharam que era hora de transferir sua base de operações para uma padaria na rua São Clemente, em Botafogo.

Começaram como empregados. Do balcão, vendiam aos fregueses da casa a exclusividade que haviam trazido de São Paulo. Em pouco tempo, passaram a fornecê-la a outras padarias. Em menos de uma década, tinham clientela suficiente para inaugurar, com Francisco Torrão, a Panificação Mandarino Ltda. Como tudo na história do biscoito, a sociedade foi para sempre. "Nós quatro já nos separamos de nossas mulheres, mas não nos separamos uns dos outros", diz Milton Fernandes.

Estava surgindo a era global no Rio de Janeiro. O Globo, jornal quase quarentão, preparava-se para pôr no ar o sinal de sua tevê, emprestando acidentalmente ao polvilho homônimo os índices de popularidade que, hoje, o professor de marketing Daniel Kamlot considera um trunfo do biscoito. Nem a geléia de mocotó Imbasa, lançada pelos proprietários das Organizações Globo, teve tanta sorte. E, sem sorte, ensina Milton Fernandes, "a gente nem atravessa a rua".

O Globo versão polvilho chegou aos 56 anos sem gastar com propaganda. Seus donos estão cansados de rebarbar propostas de franquias, currículos de executivos e planos de expansão. A marca, com seu traço inconfundível de desenho colegial, foi estampada em cangas, biquínis, bermudas, bolsas, saias e até luminárias, sem que os proprietários sequer pensassem em licenciá-la. Os designers vão à rua do Senado, recebem o mesmo sorriso que acolhe os camelôs, mas, fora um ou outro agradecimento sincero pela publicidade gratuita, saem de mãos abanando. Que fiquem à vontade para usar a imagem como quiserem, mas exclusividade nem pensar.

Milton Fernandes admite que nem lê esses projetos. "Em biscoito que está ganhando não se mexe", ensina. A fábrica só tem um ponto de distribuição - a porta do sobrado. É lá que o produto vai parar onde os fregueses estiverem, nas costas dos ambulantes. Essa rede de varejo maleável e autônoma não custa um centavo aos cofres da empresa. Tampouco há o menor gasto para se colocar na rua o responsável pela "melhor propaganda do mundo, aquele que trabalha doze horas por dia, não tira férias e, ainda por cima, não cobra nada". Ou seja, o sol. Camelô e sol são o que o Rio de Janeiro tem de sobra. Os biscoitos Globo estão ancorados numa parceria imbatível. Trata-se de um business model mais sólido do que o de muitas instituições financeiras americanas.

A empresa funciona sem o que se possa chamar, tecnicamente, de estrutura administrativa. Os sócios repartem entre si todas as tarefas que sobram da cozinha. Atendem o telefone, que não pára de tocar; os vendedores, que não param de chegar; e os funcionários, que sob sua vigilância não param de trabalhar. Comandam o negócio entre paredes decoradas com recortes de reportagens sobre o biscoito. Recebem os ambulantes, um a um. Entregam a mercadoria mediante pagamento à vista, em dinheiro. O caixa é uma gaveta de madeira, que desafia as estatísticas de insegurança pública da cidade. O bebedouro fica na entrada. Posição estratégica, pois se estivesse do lado de dentro, os donos, além de suas tarefas, acumulariam o trabalho de servir água pessoalmente aos camelôs, invariavelmente assolados pela sede crônica de quem ganha a vida ao sol.

De quebra, a firma despacha biscoitos a granel, sem embalagem nem rótulo, para padarias da Zona Sul. Duas vezes por semana Francisco José Lourenço Torrão, filho do fundador, entrega essas encomendas, a 8 reais o quilo, revendido a 20 reais. Cantinas de escolas particulares compram diretamente 3 mil unidades por dia. No caso, em embalagens de plástico. A tradicional, de papel, só circula ao ar livre, onde o produto pode suar discretamente, sem manchar de gordura a embalagem. No papel, os biscoitos ficam fresquinhos por cinco dias e, no plástico, chegam a durar um mês.

Ao todo, saem de 10 a 15 mil pacotes de biscoitos por dia. Valem 5 mil, no mínimo, a preço de fábrica. Mas o faturamento é segredo da casa. "Dá para os quatro sócios e seus filhos viverem bem", é tudo o que Milton Fernandes revela. O que não tem mistério é o biscoito em si, assunto que deixa o empresário loquaz: "Todos os biscoitos de polvilho são iguais. O que muda é a quantidade de leite e ovos que enriquecem a massa, e a qualidade do polvilho azedo. Claro que isso encarece a produção."

Os polvilhos usados no Globo são o Ourense e o Orivaldo, marcas mineiras de Conceição dos Ouros, cidadezinha localizada numa região dedicada ao cultivo da mandioca, que é a base do polvilho ou fécula de mandioca. O controle de qualidade consiste em visitar os fornecedores pelo menos duas vezes por ano, para verificar in loco se o polvilho continua o mesmo. A fábrica tem peso na economia local e, uma vez por semana, recebe de lá um caminhão de farinha.

É esse polvilho azedo, e não o que se faz com ele, a maior diferença entre o Globo e o Extra, seu concorrente mais explícito, que usa ingredientes comuns. O Extra entrou na disputa de um lugar sob os sinais de trânsito no longínquo ano de 1969. Chamava-se Sortilégio. Mudou de nome na década passada, quando a editora do jornal O Globo lançou o Extra, um diário popular e barato. Basílio Soares, dono da Sortilégio e ex-cunhado de Milton Fernandes, enxergou na novidade sua chance de espelhar o império da comunicação no reino do biscoito de rua. E assim o mercado se manteve mais ou menos "em família", dizem os Fernandes. Seus verdadeiros rivais são as pipocas doces de embalagem rosa-choque, as batatas fritas e os amendoins torrados.

Com Extra ou sem Extra, a misturadora do Globo leva os mesmos 50 quilos de polvilho azedo, 3 de sal Do Norte ou 4 de açúcar Guarani, adicionados aos 16,4 litros de gordura hidrogenada e 5 litros de leite Longa Vida, além de 25 ovos e um pouco de água fria. Em quinze minutos, a massa está pronta para a pingadeira. Com mais quinze, sai do forno, sob o olho atento dos funcionários, para evitar que o biscoito fique bronzeado demais. Supõe-se que as roscas um tanto pálidas façam mais sucesso na praia.

O dia passa depressa no sobrado. Às dez horas, os pacotes já foram à luta com os ambulantes, que desde cedo garantiram senhas de atendimento, por ordem de chegada. Roberto dos Santos faz o horário das sete, quando Magali já fez 300 pacotes em tamanhos compatíveis com o bolso ralo do varejo informal. O pacote de 50 sacos sai por 25 reais, o de 40, por 20 reais e o de 25, por 12,50. "Me vê um 50 com 15", diz Roberto. Nem precisa esclarecer que com isso quer dizer um pacote de 50 sacos, sendo quinze de biscoitos doces. Os salgados têm mais saída, exceto entre as crianças.

Roberto tem 53 anos. Há dez, trabalha em Ipanema, com prerrogativas de comerciante estabelecido. Troca de roupa no Posto de Salvamento. Veste o uniforme laranja do Matte Leão, inseparável companheiro de areia do biscoito Globo. Fica descalço, porque os chinelos podem jogar areia nos fregueses. Conhecido como "Negão", espalha protetor solar Sundown fator 30 na pele. "Senão, fico azul."

Deixa a mochila com o mesmo barraqueiro que guarda seu isopor com Matte Leão, Guaraviton, água com ou sem gás, H20, Coca-Cola, guaraná e cerveja. "A bebida é para puxar a venda, o biscoito é que dá lucro maior - sem ele não dá para trabalhar não", ensina o ambulante. Cobra pelo Globo na praia o triplo do que paga na rua do Senado.

Em dias úteis, ele ganha em média 30 reais. Em domingos e feriados, 60. No verão, tira mais de 100 reais por dia, porque "anoitece mais tarde, temos mais tempo para vender". Se o tempo vira, muda automaticamente de ramo e passa a oferecer a 10 reais, nas calçadas do bairro, os guarda-chuvas que compra por 2,70 na estação de trem Central do Brasil. Não troca essa vida pelo tempo em que tinha "um bando de chefe me mandando, horário para cumprir e contracheque pequeno".

Conhece os ossos do ofício. Praia só vale a pena depois das dez. Se enche de turistas, o movimento piora, porque "gringo não compra o biscoito; eles trazem sanduíches esquisitos, cheios de carne dentro". Referia-se, no caso, a franceses que partilhavam uma baguete com presunto de Parma. Na altura da rua Farme de Amoedo, que marca o território gay de Ipanema, comenta: "Isso aqui no Carnaval é um bloco, precisa ver." Por critérios misteriosos, os ambulantes dividem a areia em lado esquerdo e direito. O esquerdo é ruim. Tem sempre um lado esquerdo, mas só os ambulantes sabem identificá-lo. Roberto diz que "só carioca compra o Globo". Mas nem por isso deixa de mostrar aos forasteiros as torres que, estampadas no rótulo, ilustram a precoce candidatura do biscoito ao mercado globalizado.

O que atualmente se chama de "identidade visual" do biscoito Globo foi obra do padeiro Alfredo Simões Nobre, da Padaria Globo. O símbolo do produto é o corpo esquemático do boneco que encarna os críticos de cinema do jornal O Globo, o tal "Bonequinho Viu". A Torre de Belém entrou no desenho como homenagem do português Nobre a Lisboa. A torre Eiffel, a de Pisa e o Pão de Açúcar ilustram o slogan "Biscoito Globo, todo mundo come", que, de resto, não está impresso em lugar nenhum. Como todos os slogans, este também deve ser lido com certa desconfiança. Nem todo mundo come. Desde que se aclimatou ao Rio, o biscoito só atravessou as fronteiras da cidade há poucos anos. E assim mesmo para cruzar a baía de Guanabara e tentar a conquista de Niterói. Os donos não têm o menor interesse em ganhar o mundo.

O verde e o vermelho que colorem suas embalagens eram, em princípio, estritamente funcionais. Distinguiam o saco doce do salgado numa época em que se supunha que os ambulantes fossem analfabetos. Permanecem por respeito à tradição. "Tosco" e "genial", resume o designer João Bonelli, diante da figura com o globo terrestre no lugar da cabeça. O especialista em branding Fred Gelli diz que se trata de "um clássico", enroscado na memória afetiva dos cariocas há duas ou três gerações.

Como tem gosto vago e consistência evanescente, cada freguês pode sentir o que quiser, enquanto o biscoito se desmancha na boca. Inteiro, pesa 3 gramas e contém 12 calorias. Vem cheio de ar. Na memória, senão no paladar, lembra calor, estádio cheio e mate de barril. É impróprio para comer dentro de um carro, porque esfarela caindo no estofamento. Mas aparece antes do guarda, quando o trânsito pára. Os motoristas cariocas sabem que um engarrafamento é sério não só pelo número de carros parados, mas também pela quantidade de vendedores de biscoitos Globo na calçada.

Às duas da tarde, depois de andar 8 quilômetros na areia fofa e quente, vender onze pacotes de biscoito, três copos de mate, duas Coca-Colas, um guaraná, três cervejas, uma garrafa de H20 e outra de água com gás, Roberto pega sua marmita na barraca, escolhe a sombra de um coqueiro e senta para almoçar: macarrão, frango e quiabo. É a hora em que Magali sai da fábrica e volta de ônibus para o Morro da Caixa d'Água, com medo de que os outros passageiros a vejam "dormindo de boca aberta", e o ambulante Artur Chamarelli Junior, de 39 anos, começa o dia.

Chamarelli mora ao lado do cemitério do Caju, atrás da avenida Brasil. Faz ponto no meio da avenida Perimetral, caminhando quarenta minutos, viaduto acima. Não há acessos para pedestres na Perimetral. Sem acostamento, os camelôs costeiam as pistas e disputam o meio-fio na beira do asfalto, toureando as motocicletas que passam de fininho. Os atropelamentos são frequentes ali.

O vendedor cumprimenta os colegas como se estivesse chegando à repartição. São dez camelôs, em fila indiana, espremendo-se contra a mureta. Todos à espera do engarrafamento que parece inevitável. Muitos ficam no alto das favelas, olhando para baixo. Está aí resolvido o mistério de por que os vendedores de biscoito Globo chegam antes nos engarrafamentos. Ao identificar os primeiros gargalos, descem correndo, mercadoria na mão. A Perimetral, como a Linha Vermelha, a Praça da Bandeira, a rampa do túnel Rebouças e outros nós previsíveis do sistema viário têm hora certa para encrencar. E é sempre no engarrafamento das seis que um estudante de história da Universidade Federal Fluminense compra biscoitos Globo todo dia: "É bem na hora do lanche, só saio da faculdade às dez."

Ultimamente, a operação Choque de Ordem da prefeitura preocupa a rede de ambulantes, ameaçando suas guildas com um cadastramento capaz de desarrumar um negócio regido pela informalidade, mas com o rigor de uma junta comercial. Ali os preços são fixos. Ninguém faz dumping. E não se pega um bom ponto sem ter padrinho à altura. "Desconhecido, a gente bota para correr", diz Chamarelli.

Ele está habituado a ouvir o estalo das portas travando, quando se aproxima de um carro. Mas afirma que, em ponto de camelô, assaltante não tem vez. E ele trabalha noite adentro. Aliás, se depender de cariocas como Magali e Chamarelli, o dia do biscoito Globo nunca tem hora para acabar.