sexta-feira, 25 de junho de 2010

A pergunta que não quer calar: E agora, José?

Quando escreveu a poesia "José", na década de 40, Carlos Drummond de Andrade obviamente nem desconfiava que um dia ela serviria como uma luva para ilustrar a conjuntura política brasileira. Este dia chegou ontem (23), com a divulgação da pesquisa Ibope que mostra o presidenciável da oposição de direita, José Serra (PSDB), em situação periclitante, com cinco pontos de desvantagem sobre Dilma Rousseff (PT), sua principal adversária na corrida presidencial.

Em maio, quando consolidou-se a ascensão de Dilma nas pesquisas, a oposição minimizou o fato dizendo que o crescimento da petista deveu-se à exposição dela na propaganda partidária na TV e que o mês seguinte, junho, seria o "mês de Serra" pois o PSDB, o DEM, o PTB e o PPS exibiriam suas propagandas na TV tendo o presidenciável tucano como ator principal.

“Maio é o mês da Dilma. Junho será o nosso mês”, afirmou o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, no dia 24 de maio. Na mesma ocasião, Guerra disse que “no momento em que alguém tem uma movimentação intensa nos meios de comunicação, é evidente que vai levar vantagem” e ainda reafirmou que a estratégia de campanha de Serra estava correta e não seria alterada.

Alguns dias depois, no início de junho, uma reunião da cúpula tucana foi convocada pelo ex-presidente FHC para cobrar mudanças nos rumos da campanha. Aécio Neves pediu ao colega paulista que fosse mais agressivo com a adversária petista e os aliados sugeriram que Serra centralizasse menos a campanha, especialmente na escolha das agendas, acelerasse a escolha do vice e desse mais atenção à montagem dos palanques regionais. As recomendações tinham como objetivo garantir que junho seria mesmo o "mês de Serra', como havia previsto Guerra. Mas não foi.

Junho está acabando, os partidos da direita pró-Serra cumpriram o prometido e violaram a lei eleitoral para colocar o tucano como ator principal de seus programas na rádio e na TV. Serra seguiu parte das recomendações dos aliados. Mesmo assim, o dado concreto até agora, trazido pela pesquisa Ibope de ontem (23), mostra que nada adiantou. Dilma continua subindo (está com 40% dos votos, tinha 37% na pesquisa anterior) e Serra continua caindo (está com 35%, tinha 37 antes).

A oposição foi pega de surpresa pelo resultado da pesquisa. Sérgio Guerra chegou a colocar em dúvida os dados do Ibope. Alegou que pesquisa interna do PSDB mostra números mais favoráveis a Serra.

A frustração oposicionista recoloca a questão sobre os acertos e desacertos da estratégia de campanha tucana. Depois de ensaiar elogios ao governo e depois recuar, alterando o tom para um discurso mais agressivo contra Dilma e o PT, restam poucas alternativas a José Serra a não ser construir novas lendas como a de que a campanha mesmo só começa depois da Copa, ou de que nos debates ele irá superar Dilma e reconquistar o eleitorado.

Porém, o Ibope mostra que é cada vez maior o eleitorado que está decidido a votar na candidata que dará continuidade ao governo Lula. E uma parcela dos votos que Serra tem hoje vem justamente de pessoas que ainda não sabem que Dilma é esta candidata. O tucano lidera apenas no Sul e entre os mais ricos.
Até mesmo em São Paulo, reduto eleitoral do tucanato, Serra começa a patinar. Isso sem falar em Minas Gerais --citada na poesia de Drummond-- onde Aécio parece pouco disposto a trabalhar em prol do ex-governador paulista.

Diante deste quadro desanimador, o que Serra poderá fazer para tirar votos de Dilma e recolocá-los em sua cesta? Esta é uma pergunta que a coordenação da campanha tucana está aflita para responder.

O jornal Valor Econômico traz, nesta quinta-feira, matéria na qual questiona se os tucanos estariam dispostos a seguir o exemplo de Alckmin em 2006 e passar a bater mais duro no presidente Lula mesmo sabendo que, hoje, Lula desfruta de uma popularidade muito maior do que tinha há quatro anos.

O jornalista Luiz Gonzalez, marqueteiro de Serra, é contrário a campanhas com ataques a adversário, que considera improdutivas. Serra também, mas o fato é que o tucano vem lentamente elevando o tom das críticas ao presidente. Na convenção de Salvador ele cunhou a frase: "Luis XIV achava que o Estado era ele. Nas democracias e no Brasil, não há lugar para luíses assim".

"Serra procura demonstrar convicção sobre a linha escolhida. Mas a campanha tucana, em junho, esteve permeada de assuntos negativos. A demora na escolha do candidato a vice na chapa do PSDB, por exemplo, indica insegurança e dificuldades internas para a definição do nome. Serra prefere fazer de conta que se trata de uma aflição de jornalistas, mas o fato é que o debate alimenta o noticiário negativo sobre a campanha. A pesquisa também atrapalha as últimas conversas sobre o vice e sobre a montagem dos palanques regionais - Serra entra mais fraco do que estava nas negociações", avalia o Valor, que cita ainda várias outras "derrapadas" do candidato tucano.

O jornal O Estado de S. Paulo também questionou a estratégia atual de Serra. Em editorial, afirmou que “para continuar a ter chances, Serra precisará encontrar um novo discurso e uma nova estratégia de campanha... Fora disso, só lhe restará esperar por um erro da adversária... Se quiser ganhar, Serra vai ter que partir para o ataque”.

Resta saber se o tucano vai seguir o script desenhado pela mídia aliada. Até o momento, parece disposto a não mudar uma vírgula em sua estratégia errática de campanha. Mas é provável que nem ele mesmo tenha certeza do que fazer. Pensando com seus botões, deve estar repetindo a pergunta de Drummond: "E agora, José?"

Da redação,
Cláudio Gonzalez



quinta-feira, 24 de junho de 2010

O que é aquilo?

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Fátima Irene Pinto

Despedida

Pegarei todos os meus sonhos e os despacharei em envelope pardo, destinatário incerto, sem remetente.
Passarei um pincel escuro no arco-íris que inocentemente eu desenhei, carregado de cores.
Amassarei de vez todas as flores de mentirosas esperanças e
arrancarei até mesmo os falsos botões que estão por vir.

Nublarei a noite quando ela me escancarar a lua cheia, apagarei uma a uma, todas as estrelas que teimarem em tremeluzir.
Tingirei de cinza a manhã mais luminosa do meu santuário, emudecerei o canto do meu sabiá canoro e não farei mais festa para o meu colibri.

Desfarei todas as pegadas do caminho, onde os teus passos e os meus estiveram perfilados.
Encherei de colcheias e semifusas confusas todas as canções que arrancaram lágrimas deste meu coração emocionado.
Farei em pedacinhos, pequenas e grandes lembranças palpáveis, sem esquecer aquele CD e o vestido de marquinhas, aquele que tu gostavas, mas não chegaste a conhecer.

Destroçarei também as recordações não palpáveis, que um dia me deram provas incontestes do teu amor
E dizimarei todas as angélicas hostes que me atrelaram a ti, esquecidas da minha dor.

E se porventura em sonhos minha alma desvairada te buscar e,
em prantos te encontrar andando pela rua,
Abraça-me com aquele carinho de antigamente,
porque sonhando, nossas almas não mentem
e a minha te dirá que ainda sou tua.


Sino

Quisera Meu Senhor, que eu fosse aquela,
De quem tristeza e dor passassem longe.
Quisera assim tanger tal como tange,
Alegre, o sino daquela Capela.

Quisera Meu Senhor, que meus clamores,
Que as lágrimas que choro em desatino,
Pudessem transmutar o meu destino,
Em bênçãos, risos, preces e louvores.

Mas choro ... e é tão sentido este meu pranto,
Que verto fartamente às escondidas,
Com o peito afundado em desencanto.

Ao longe escuto o sino da Capela.
Tangendo ele me diz que sou aquela,
Que chora no compasso do seu canto.



Declaração de Amor

Eu te amo do amanhecer ao anoitecer e mesmo quando durmo, ainda te amo.

Eu te amo nas tres dimensões, nas quatro luas, nos quatro elementos, nas quatro estações, nos quatro pontos cardeais.

Eu te amo nos cinco sentidos, nas sete cores do arco-íris, nas sete notas musicais, nos doze sígnos do zodíaco, em tudo o que existe eu te amo cada vez mais.

Eu te amo na procela e na calmaria, em todos os josés e marias, nos infantes, nos anciãos, nos amigos, inimigos ou irmãos ... eu te amo em toda a criação.

Eu te amo no caos aparente ou na mais perfeita estrutura ... eu te amo como o próprio criador ama a sua criatura.

Eu te amo no vento que vem do norte, na linha do horizonte, na pequena fonte, nas nuvens grávidas de chuva ... eu te amo nos meus dias nefastos e nos meus dias de sorte.

Eu te amo na árvore frondosa, na montanha majestosa, na pedra preciosa, nas miríades de estrelas do universo ... eu te amo no pequeno átomo, na imponderável constelação, eu te amo para além de qualquer humana compreensão.

Eu te amo pelo pouco que sei de ti, pelo muito que ignoro e por aquilo que somente posso pressentir.

Eu te amo na plenitude da lida, no ocaso da vida ...
e, depois que eu me for, nas lembranças que porventura eu deixar,
hás de encontrar perfumados e palpitantes restos
do que foi o meu amor !





Fátima Irene Pinto nasceu em Pirajuí-SP aos 17 de Agosto de 1953, mudando-se com a família para a cidade de Descalvado-SP aos 3 anos de idade.

Quarta filha de Arthur Ferreira Pinto e Sílvia Veronezi Pinto, tem tres irmãos mais velhos e uma irmã caçula.
Manifestou desde cedo a facilidade para escrever poemas e contos os quais eram muito apreciados pelos seus professores e afixados no mural das escolas que frequentou.

Homenageia seus mestres e grandes incentivadores: Profª Ivete G. Marcatto do Grupo Escolar Cel.Tobias e Prof.º Dr. Mário Franceschini do Instituto de Educação Estadual José Ferreira da Silva.

Foi também musicista, tocando vários instrumentos e participando de vários conjuntos, tempo que considera um dos mais felizes de sua vida. Tocou dos dez aos trinta anos, atividade que acabou abandonando pelas contingências da vida, mas guarda desta época as mais doces recordações. Algumas de suas poesias são, na verdade, letras de canções que compôs ao longo dos anos.
Com a mesma saudade, recorda-se dos bailes que frequentou, tendo vencido vários concursos de dança de salão.

Aos 19 anos foi para São Paulo (capital) em busca de trabalho e estudo.
Iniciou o curso de Letras na Fundação Santo André e trabalhou em várias empresas, dentre elas o Jornal Diário do Grande ABC, na condição de jornalista aprendiz.

Motivos familiares fizeram com que retornasse para Descalvado, dando sequência aos estudos nas "Faculdades Reunidas Barão de Mauá" de Ribeirão Preto - SP onde licenciou-se em Letras em 1977.
Nesta época prestou vários concursos públicos passando em todos, a saber: Receita Federal - Instituto Nacional de Previdência Social - BNC S/A (antiga Caixa Econômica Estadual). Optou pelo BNC tendo em vista haver vaga em sua cidade e concluiu sua carreira em Maio de 2004, após 28 anos de atividade bancária onde acumulou vários prêmios por atingimento de metas e excelência no atendimento aos clientes.

Em 1983 iniciou o curso de Direito na "Pontifícia Universidade Católica" de Campinas, cuja matrícula teve que trancar visto não ter obtido do BNC de Descalvado autorização de transferência para a Ag. de Campinas.

Casou-se em 1986 e em 1988 nasceram seus gêmeos Renan e Régis.
Separou-se em 1990, passando a dedicar-se somente ao seu trabalho e aos seus filhos, preenchendo o pouco tempo disponível com estudos vários, na condição de auto-didata.
Foi aluna dos cursos Pró=Vida - Ordem Rosa Cruz - Self Realization da Índia e outros.

Em Dezembro de 1999 comprou seu primeiro PC e em 2000 começou a editar seus escritos em prosa e verso nos vários sites literários da Net.

Seu primeiro livro "Momentos Catárticos" nasceu em Maio de 2001, cuja edição pela Fiuza Editora de São Paulo, foi presente de seu sobrinho Dr. Carlos Henrique Pinto, grande incentivador de seu trabalho literário.

Em Dezembro de 2003 recebeu proposta da Soler Editora de Belo Horizonte - MG e assim em 2004, nasceram os livros "Palavras para Entorpecer o Coração" e "Relicário - Fragmentos de Amor e Paixão" em tiragens de 5.000 e 10.000 exemplares respectivamente, distribuídos por todo o território nacional. Seu contrato com a Soler Editora vigora até o ano de 2010 e a escritora reúne material para os próximos lançamentos.

Em virtude das atividades literárias, Fátima Irene passou a dar palestras em escolas e faculdades e também a alavancar o Concurso Nacional de Poesias "Marcas do Tempo" de sua cidade, em conjunto com a Biblioteca Municipal "Gérson Álfio de Marco" que a cada ano vem ganhando mais expressão visando alcançar, nos concursos vindouros, também o mundo lusófono e hispânico, tornando-o um concurso internacional de poesias.

A autora considera-se realizada como mãe, cidadã e escritora e tem ainda muitos sonhos, dentre os quais ver seus filhos formados e bem encaminhados, afora o lançamento de novas obras de sua autoria.

Suas horas mais felizes, ela as desfruta cuidando do seu jardim ou caminhando pelos campos de sua terra.Tem adoração pela natureza e pelo mar. Curte bons filmes, bons livros e ainda continua sendo louca por música e dança, segundo ela, canais de imediata conexão com o que há de mais sublime.
Como ela mesma diz num de seus poemas:

"Por certo não morrerei amanhã. Ainda não é hora.
Na tela da minha vida faltam pontos a bordar.
No livro da minha história existem páginas em branco por completar.
Mas se eu morrer amanhã, morrerei abençoando a Vida e
cada instante deste precioso Ano Escolar !"
Fátima Irene Pinto

As quatro leis da espiritualidade


terça-feira, 22 de junho de 2010

Vincent - Um tributo ao gênio de Vincent Van Gogh


Starry, starry night.
Paint your palette blue and grey,
Look out on a summer's day,
With eyes that know the darkness in my soul.
Shadows on the hills,
Sketch the trees and the daffodils,
Catch the breeze and the winter chills,
In colors on the snowy linen land.

Now I understand what you tried to say to me,
How you suffered for your sanity,
How you tried to set them free.
They would not listen, they did not know how.
Perhaps they'll listen now.

Starry, starry night.
Flaming flowers that brightly blaze,
Swirling clouds in violet haze,
Reflect in Vincent's eyes of china blue.
Colors changing hue, morning field of amber grain,
Weathered faces lined in pain,
Are soothed beneath the artist's loving hand.

Now I understand what you tried to say to me,
How you suffered for your sanity,
How you tried to set them free.
They would not listen, they did not know how.
Perhaps they'll listen now.

For they could not love you,
But still your love was true.
And when no hope was left in sight
On that starry, starry night,
You took your life, as lovers often do.
But I could have told you, Vincent,
This world was never meant for one
As beautiful as you.

Starry, starry night.
Portraits hung in empty halls,
Frameless head on nameless walls,
With eyes that watch the world and can't forget.
Like the strangers that you've met,
The ragged men in the ragged clothes,
The silver thorn of bloody rose,
Lie crushed and broken on the virgin snow.

Now I think I know what you tried to say to me,
How you suffered for your sanity,
How you tried to set them free.
They would not listen, they're not listening still.
Perhaps they never will...

O risco Estados Unidos

18/06/2010 12:00:26

Crise econômica grega ameaça Irlanda, Portugal, Espanha e toda a Eurozona

Por Luiz Alberto Moniz Bandeira

Irresponsabilidade fiscal, descontrole dos gastos públicos, elevados déficits orçamentários, déficit comercial, corrupção, inflação e estancamento econômico constituem alguns dos fatores fundamentais que levaram a Grécia à beira do default. Com uma dívida pública, como percentual do PIB, da ordem de 124,5%, a maior da União Européia, e um déficit fiscal de 11,3% projetado para 2010 (o segundo maior, atrás da Irlanda, com 12,4%), ela enfrentava e enfrenta enormes dificuldades, assim como, em menor grau, outros países da região, sobretudo Irlanda, Portugal e Espanha. Porém, as agências de classificação de risco (mais de cem, todas sob a influência de Wall Street) agravaram ainda mais a situação, rebaixando a classificação de solvabilidade da Grécia, com o que favoreceram, propositadamente, o ataque ao euro pelos que especulam com as moedas, nas bolsas de valores.

A erupção da crise econômica e financeira, que abala a Grécia e ameaça a Irlanda, Portugal, Espanha e toda a Eurozona (16 dos 27 Estados-membros da União Européia e outros 9 não-membros da UE que adotam o euro), constituiu um desdobramento, a terceira etapa da crise econômica e financeira deflagrada nos Estados Unidos, com a explosão do mercado imobiliário, no primeiro semestre de 2007, quando grandes corretoras, como Merrill Lynch e Lehman Brothers, suspenderam a venda de colaterais, e em julho do mesmo ano, bancos europeus registraram prejuízos com contratos baseados em hipotecas sub-prime.

A inadimplência de devedores hipotecários provocou a débâcle, afetando empréstimos de empresas, cartões de crédito etc. Em seguida, setembro de 2008, a crise atingiu o setor bancário, com a bancarrota e a dissolução do Lehman Brothers, o quarto banco de investimento dos Estados Unidos, após 158 anos de atividade. E, finalmente, comprometeu e envolveu os próprios Estados nacionais. Levou a Islândia, cujos bancos mantinham negócios num valor três vezes maior do que o PIB do país, a uma virtual bancarrota, com reflexo sobre o Reino Unido, seu principal credor. E, em fins de 2009, manifestou-se na Grécia, ameaçando a estabilidade de toda a Eurozona, dado que vários países não cumpriram as metas do Tratado de Maastricht para a unificação monetária, entre as quais controle do déficit orçamentário (até 3% do PIB),do endividamento público (até 60% do PIB).

A situação configura-se ainda mais grave, porquanto a eventual desestabilização da Eurozona poderia provocar uma crise sistêmica, devido à promiscuidade dos bancos alemães, franceses e também americanos com os Estados nacionais e outros bancos, mediante dívidas cruzadas. Se a Grécia e/ou Portugal deixassem de pagar aos bancos, a crise propagar-se-ia e cresceria como bola de neve. Por exemplo, de acordo com o Bank for International Settlements, os bancos portugueses devem 86 bilhões de dólares aos bancos espanhóis, que, por sua vez, devem 238 bilhões a instituições alemães, 200 bilhões aos bancos franceses e cerca de 200 bilhões aos bancos americanos.

A concessão de cerca de 1 trilhão de dólares à Grécia, prometida pela União Européia e o Fundo Monetário Internacional, não visou a ajudá-la, mas a salvar os bancos alemães, franceses e os investidores americanos, que provêem mais de 500 bilhões de dólares de empréstimos de curto prazo aos bancos europeus, sobretudo aos das nações mais débeis, para financiar diariamente suas operações.

Esse endividamento dos Estados com os bancos e dos bancos com outros bancos evidencia que, não obstante os fatores nacionais, domésticos, a crise que se agravou na Grécia e ameaça contagiar toda a Eurozona também é, em outra dimensão, uma conseqüência direta da crise dos Estados Unidos, dado que o sistema capitalista, entrançado pelo mercado mundial e a divisão internacional do trabalho, constitui um todo, interdependente, e não uma simples soma de economias nacionais.

A alta do preço do petróleo e do ouro, no mercado mundial, bem como a elevada valorização do euro refletiram a profunda crise que deteriorava e deteriora a economia americana. A valorização do euro, em decorrência da queda do dólar, afetou, porém, países como a Grécia, Irlanda e Portugal, que não possuem moeda própria e, conseqüentemente, não podem promover a desvalorização cambial, para reduzir os salários, compensar a perda da competitividade de suas exportações, ajustar as finanças e equilibrar a conta-corrente do balanço de pagamentos.

Apesar da enorme assimetria, a grave situação econômica e financeira da Grécia e alguns outros Estados na União Européia é muito similar à dos Estados Unidos, cuja dívida externa líquida, em 31 de dezembro de 2009, era da ordem de 13,76 trilhões de dólares, do mesmo tamanho que o seu PIB, calculado em 14,26 trilhões em 2009, calculado conforme a capacidade de seus poder de compra. A dívida pública dos Estados Unidos, em maio de 2010, era de cerca de 12, 9 trilhões, dos quais 8,41 trilhões em poder do público e 4,49 trilhões com os governos estrangeiros. Esse montante (12,9 trilhões de dólares) corresponde a cerca de 94% do PIB dos Estados Unidos, enquanto o da Eurozona é de 84%.
O problema fiscal nos Estados Unidos é extremamente grave. O antigo presidente do Federal Reserve (FED), Alan Greenspan, em outubro de 2009, declarou que não estava muito preocupado com a fraqueza do dólar, mas com os custos de longo prazo dos Estados Unidos, associado com a crescente elevação da dívida nacional, cuja relação se tornava progressivamente explosiva, como uma espiral, na qual o crescente pagamento dos juros aumentaria o déficit e a dívida, gerando novo aumento e assim por diante. O déficit do ano fiscal de 2009, terminado em 30 de setembro, mais do que triplicou o do ano anterior, atingindo montante recorde de 1,4 trilhão de dólares.

O presidente Barack Obama apresentou para o ano fiscal de 2010 um orçamento, com despesas de aproximadamente 3,5 trilhões e um déficit federal de 1,75 trilhão, o que significa que o governo americano terá de tomar empréstimos, aumentando a dívida pública, ou emitir mais dólares, uma vez que a poupança interna é insuficiente para atender aos seus gastos. Esse déficit fiscal se entrelaça com o crescente déficit comercial, que em 2009 representou mais de 40% (1,04 bilhão) do total do seu intercâmbio com outros países. E, nos primeiros três meses de 2010, continuou a crescer. Em março, o Departamento de Comércio anunciou um déficit de 40,4 bilhões, contra 39,4 bilhões em fevereiro.

A sustentabilidade dos déficits fiscal e comercial - denominados "déficits-gêmeos", não porque sejam iguais, mas porque se inter-relacionam - depende de contínuo influxo de capitais estrangeiros, oriundos, sobretudo das inversões da China, comprando bônus do Tesouro dos Estados Unidos.

Efetivamente são os bancos centrais de outros países que financiam o déficit na conta-corrente dos Estados Unidos, da ordem de 380,1 bilhões de dólares em 2009, mais de 6% do PIB, déficit este que, no primeiro trimestre de 2010, saltou para 115,6 bilhões de dólares, contra 102.3 bilhões de dólares, no mesmo período de 2009, e recresce cerca de 2,35 bilhões de dólares por dia. Se o influxo de capitais do exterior cessar, o Tesouro dos Estados Unidos não terá recursos, no correr de 2010, para refinanciar 2 trilhões de sua dívida de curto prazo, da qual 44% estão em poder de países estrangeiros.

Os Estados Unidos ocupam o primeiro lugar na lista dos países com a maior dívida externa líquida do mundo (13,7 trilhões de dólares), seguido pela Grã-Bretanha (9,6 trilhões), Alemanha (5,2 trilhões), França (5 trilhões) e Países Baixos (2,4 trilhões). Trata-se, portanto, de uma superpotência devedora, virtualmente em bancarrota. Somente não chegou à beira da insolvência porque pode emitir o dólar, que é a moeda internacional de reserva.

Mas a tendência do dólar é de declínio, tanto que, após desvalorizar-se 40% entre 2002 e 2008 e fortalecer-se 20% em relação ao euro, entre março e dezembro de 2008, durante a crise financeira, voltou a cair 20%, entre março e dezembro de 2009, devido à preocupação no mercado com a dívida externa dos Estados Unidos. Sua revalorização, como conseqüência da crise na Grécia e do enfraquecimento econômico da Eurozona, é conjuntural. O dólar está estruturalmente debilitado pelos déficits fiscal e cambial e pela elevada dívida externa líquida dos Estados Unidos. A perspectiva é de que, mais dias menos dias, deixe a condição de única moeda internacional de reserva, apesar da China e de serem os Estados Unidos o centro do sistema capitalista mundial. E, quando isto ocorrer, os Estados Unidos terão enormes dificuldades de pagar suas contas, por meio de empréstimos de outros países.

Em agosto de 2007, David M. Walker, chefe do Government Accountability Office (GAO), órgão do Congresso americano encarregado da auditoria dos gastos do governo, advertiu que o país estava sobre uma “plataforma abrasante” (burning platform) de políticas e práticas insustentáveis, escassez crônica de recursos para a saúde, problemas de imigração e compromissos militares externos, que ameaçavam eclodir se medidas não fossem em breve adotadas. Previu aumentos “dramáticos” nos impostos, redução nos serviços do governo e a rejeição em larga escala dos bônus do Tesouro americano como instrumento de reserva pelos países estrangeiros. E apontou “notáveis semelhanças” entre os fatores que resultaram na queda do Império Romano e a situação dos Estados Unidos, devido ao declínio dos valores morais e da civilidade política, à confiança e à excessiva dispersão das Forças Armadas no exterior, bem como à irresponsabilidade fiscal do governo americano.

Menos de um ano depois, Paul Craig Roberts, ex-secretário-assistente do Departamento do Tesouro, no governo de Ronald Reagan (1981-1989), afirmou, em artigo intitulado “The Collapse of American Power” e publicado no Wall Street Journal, que a superpotência - os Estados Unidos - não estava em condições de financiar suas próprias operações domésticas, muito menos suas “injustificáveis” guerras, se não fosse a bondade dos estrangeiros, que lhe emprestam dinheiro sem perspectiva de receber o pagamento. De fato, os Estados unidos só podem manter as guerras no Iraque e no Afeganistão, duas guerras perdidas, com o financiamento de outros países, principalmente China e Japão, que continuam a comprar bônus do Tesouro americano. Joseph E. Stiglitz (Premio Nobel de Economia) estimou que o total dos custos dessas duas guerras estende-se de 2,7 trilhões de dólares, em termos estritamente orçamentários, a um total de custos econômicos da ordem de5 trilhões de dólares. Não sem razão, The Economist, na edição de 27 de março 2008, publicou um artigo intitulado “Waiting for Armageddon”, no qual ressaltou que o aumento das corporações em bancarrota podia ser o sinal de que muito pior estava ainda por ocorrer. O pior que se pode esperar é default do próprio governo dos Estados Unidos, cujo sistema financeiro a China, com reservas em dólares de mais de 2,4 trilhões de dólares, tem condições de comprar.
Em tais circunstâncias, o default da Grécia, se ocorresse, não só abalaria toda a Eurozona. Também afetaria a estrutura econômica e financeira dos Estados Unidos, cuja política fiscal a longo-termo é insustentável. Mas o problema não decorre principalmente dos gastos com os serviços sociais e de saúde, como os conservadores republicanos e mesmo alguns democratas acusam. O câncer que corrói a economia americana é o militarismo, alimentado pelos profundos interesses do complexo industrial-militar, nos grandes negócios em que as grandes corporações e militares se associam, fomentando um clima de supostas ameaças, um ambiente de medo, com o propósito de compelir o Congresso a aprovar vultosos recursos para o Pentágono e outros órgãos vinculados à defesa.

A indústria bélica, com toda a cadeia produtiva, constitui outra bolha que, mais cedo ou mais tarde, vai explodir. O governo dos Estados Unidos, seja com o presidente Barack Obama ou seja quem o suceder, não terá recursos para subsidiá-la, eternamente, com a encomenda de armamentos pelo Pentágono, nem manter centenas de bases militares e milhares de tropas, em todas as regiões do mundo. Decerto, cortar esses gastos é muito difícil. Afetaria a economia de vários Estados americanos, localizadas, sobretudo, no sunbelt (Texas, Missouri, Florida, Maryland e Virginia), onde funcionam as indústrias de armamentos que empregam tecnologia intensiva de capital. Em tais circunstâncias, em meio a propinas, suborno, pagamento de comissões aos que propiciam as encomendas, e contribuições para a campanha eleitoral dos partidos políticos, o complexo industrial-militar, com enorme peso econômico e político, exerce forte influência sobre o Congresso americano e sobre toda a mídia, principalmente nas redes de televisão. Porém, o incomparável poderio militar dos Estados Unidos tem limites econômicos. Irresponsabilidade fiscal, descontrole dos gastos públicos, altos déficits orçamentários, contínuo déficit na balança comercial, elevado endividamento externo, corrupção inerente ao conluio entre indústria bélica e o Pentágono, representado pelo complexo industrial-militar, recessão - fatores similares aos que produziram a crise da Grécia – representam a maior ameaça e podem derrotar a superpotência. E essa extrema vulnerabilidade de sua economia, com possibilidade de insolvência, as agências de classificação de risco não apontam.

Mão de obra começa a se rebelar na China

NYTimes
china

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Você aprende... William Shakespeare

‘Algoritmo da Ganância’ das Petroleiras impõe desastre e destruição


ESCRITO POR JOSÉ CARLOS MOUTINHO


20-MAI-2010

Pelos dicionários, algoritmo é um conjunto de execuções (calculadas) para o cumprimento de tarefas específicas ou resolução de determinados problemas. Os profissionais em Tecnologia da Informação (TI) têm muita familiaridade com o tema. Eles sabem que, para a existência e sucesso de determinado sistema, há que se definir cuidadosamente o algoritmo. Uma vez definido, o sistema poderá evitar perda de tempo e insucessos na execução quotidiana. Bons sistemas devem levar em conta (e respeitar) o ser humano e o meio ambiente.

No caso do derramamento de petróleo no Golfo do México, no dia 20/04/2010, na costa do estado de Luisiana (EUA), no qual estão envolvidas a BP (British Petroleum) e a Halliburton, a exemplo de outros desastres envolvendo multinacionais (as "Big Oil"), parece haver somente um algoritmo em execução: o aceleramento da exploração de petróleo em prol da maximização de lucros, acrescido de mais ganância, ao menor custo.

O lucro máximo (e imediato) deve preceder sobre os interesses do ser humano e do meio ambiente. É a lógica das corporações mundo afora. E mais: resistem a pagar a conta de tais agressões e tentam esconder o problema "debaixo do tapete", pois não se pode manchar a imagem da empresa. Manchar o mar, matar trabalhadores e destruir a fauna e a flora, vá lá. Mas manchar a imagem da empresa...

Os desastres são numerosos. Até hoje as empresas e as autoridades governamentais parecem não saber como evitá-los e lidar com eles em tempo hábil. Praticamente todos os desastres são considerados os maiores da história, o novo supera o velho. E os responsáveis não estão conseguindo aprender com eles, por isto não estão dotados de um conjunto de mecanismos para vencê-los. O desastre no Alasca, em 1989, de autoria da Exxon, poderá ser superado pelo desastre da BP, no Golfo do México.

A mancha na imagem das "Big Oil"

A imagem das corporações é tratada com carinho pelos meios de comunicação hegemônicos. Salta aos olhos, por exemplo, o fato de a imprensa brasileira não ter citado (se citou não deu para ver) a participação da multinacional Halliburton no derramamento de petróleo. A empresa do ex-vice-presidente dos EUA Dick Cheney é reincidente em desastres e negócios escusos. Lembremos que, no mundo, essa multinacional esteve (e está) envolvida em diversos sinistros, entre eles a ocupação do Iraque.

No Brasil, a Halliburton foi responsabilizada pelo desaparecimento dos computadores portáteis com informações estratégicas da Petrobrás. E mais: a Halliburton presta serviços (sem concorrência) para a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), conforme denúncia da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET), baseada em informações cedidas por fontes importantes do setor petrolífero brasileiro.

A agência independente de notícias estadunidense "Democracy Now!", no dia 28/04/10, confirmou que a Halliburton é uma das responsáveis pelo desastre no Golfo do México, que resultou em perda de vidas humanas e gravíssima agressão ao meio ambiente.

O portal venezuelano Aporrea noticiou, no dia 04/05, que a BP reconheceu que deu "um passo em falso" ao incluir nos contratos oferecidos aos pescadores do Alabama (EUA), para que ajudem na luta contra a mancha de óleo, uma cláusula na qual estes trabalhadores se comprometeriam em não denunciar posteriormente a petroleira. "Foi um passo em falso que demos em princípio", declarou o diretor geral da BP, Tony Hayward, durante uma entrevista coletiva no Alabama. A BP chegou a oferecer US$ 5 mil para não ser denunciada. Pronto, mais uma vez, lá se vai a imagem tão retocada e preservada das "Big Oil".

Logo na semana seguinte ao desastre, a mancha de óleo tinha aumentado e cobria mais 4.900 quilômetros quadrados do Golfo do México, devido à perda de 42.000 barris de petróleo por dia, e nenhuma medida eficaz foi tomada para conter o desastre. A Guarda Costeira dos EUA e o pessoal contratado pela BP seguem lutando para conter a mancha que se espalha.

Familiares de onze trabalhadores desaparecidos entraram na Justiça para responsabilizar a BP e a Halliburton por negligência na administração da plataforma "Deepwater Horizon". A Halliburton realizou trabalhos no referido poço petrolífero, antes da explosão.

A jornalista estadunidense da Democracy Now!, Amy Goodman, afirmou que a BP, depois de quase duas semanas, chegou a uma idéia para minorar seu crime ambiental, ao projetar uma pesada estrutura (de metal e concreto) em forma de sino para ser posta sobre o poço, mas fracassou neste intento.

Goodman informou ainda que já estão aparecendo várias aves e águas-vivas mortas nas ilhas que cercam a costa da Luisiana, o que tem aumentado em muito a contaminação daquelas águas. A vida silvestre, segundo especialistas em meio ambiente, está com sérias ameaças de contaminação química no longo prazo.

A jornalista destacou também que a analista do setor de petróleo, Antonia Juhasz, chamou a atenção sobre o poderio econômico e político da BP nos EUA. Segundo Juahsz, a BP é uma das mais poderosas multinacionais que operam no país. Em 2009, por exemplo, a empresa lucrou US$ 327 bilhões. No primeiro trimestre de 2010, a BP faturou mais de US$ 6 bilhões. O dobro dos lucros obtidos no mesmo período de 2009.

Segundo declarou a analista, a BP gasta muito dinheiro na política interna norte-americana, bem como na supervisão do cumprimento das normas do setor. Ou seja, é a raposa ditando as leis no galinheiro. Esta empresa muito ocupada com o seu lucro, a exemplo da Halliburton e outras "Big Oil", segue subtraindo vidas humanas, o meio ambiente e a própria democracia nos EUA. Não bastando, é incompetente e lenta na solução de seus crimes ambientais.

Os grandes faturamentos são acompanhados de grandes desastres. Em 2005, uma refinaria da BP, no Texas, explodiu, matou 15 trabalhadores e feriu outros 170. Em 2006, no Alasca, a BP derramou 200 mil barris de petróleo que, segundo a Agência de Proteção Ambiental, foi o maior derramamento que ocorreu naquela região. A empresa foi multada em US$ 60 milhões. Em 2009, foi multada em US$ 87 milhões pela explosão da refinaria.

Não bastando, a explosão da plataforma da BP no Golfo do México, o Serviço de Administração de Minerais, do Departamento do Interior, aprovou 27 novas permissões para perfurações em alto mar. A notícia é da Democracy Now!

A experiência brasileira

O diretor do Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro (Sindipetro-RJ), Emanuel Cancella, avalia que as petrolíferas multinacionais "praticam a produção predatória, principalmente quando estão fora de seus países de origem. A orientação do Império é da produção a toque de caixa, até porque os EUA só possuem reservas de petróleo para três anos de consumo. E a situação fica mais grave quando estão operando em país pobre, como acontece no México".

Sobre o fracasso da BP em conter a mancha de óleo, Cancella acredita que a solução virá. "Não na velocidade que a preservação do meio ambiente exige. Eles poderiam pedir ajuda à Petrobrás, que é reconhecida mundialmente pela prospecção de petróleo no mar".

Sobre as perdas de vidas humanas e agressão ao meio ambiente, o diretor do Sindipetro-RJ lembrou do afundamento da Plataforma P-36, no Brasil. "O desastre da P-36 aconteceu no governo FHC. As viúvas dos onze petroleiros foram proibidas de entrar na sede da companhia. Quando Lula assumiu o governo, autorizou o então presidente da Petrobrás, José Eduardo Dutra, a receber as viúvas e propôs um acordo indenizatório que incluiu até formação universitária dos filhos dos petroleiros mortos na plataforma".

Autoridades brasileiras disseram que o país não tem um conjunto de procedimentos para lidar com situações como a do Golfo do México. O geofísico e diretor da AEPET (Associação dos Engenheiros da Petrobrás), João Victor Campos, lembra que o Brasil teve a experiência com a P-36, "mas não aprendemos". "A sorte nossa foi que o vazamento foi mínimo, ao contrário deste no Golfo do México. É irresponsável, com o atual número de plataformas em operação em diversas áreas da costa brasileira, não termos medidas de enfrentamento para situações semelhantes".

João Victor explica que o desastre da BP "ocorreu em função da explosão de um bolsão de gás (metano, provavelmente) próximo à superfície, no caso no próprio assoalho oceânico. Estas ocorrências de bolsões de gás não são raras, têm sido registrados diversos casos na superfície. O inusitado é que este se deu no fundo do mar".

O geofísico acrescenta que existe válvula que detecta pressões anômalas no poço, blow-out preventer, cuja indicação é mostrada na plataforma da sonda por um grande "relógio" chamado "Martin Decker". "Como se tratou de explosão súbita e inesperada, como só acontece no caso dos bolsões de gás, não houve tempo para detectar a anomalia".

Ou seja, ao que tudo indica, teriam como evitar o pior. Mas a lógica da produção acelerada, para acompanhar as negociações na bolsa, impede um trabalha de qualidade, pois a ganância prevalece no algoritmo dessas multinacionais.

Em suma, o desastre da BP demonstra a assimetria entre a economia virtual e a vida real, ao tentar acelerar a produção na vã ilusão de acompanhar o ritmo dos algoritmos computacionais nas bolsas de valores, que operam um volume massivo de tarefas quotidianas em milissegundos. E não é só a BP. Praticamente todas as petroleiras mundo afora tentam acelerar suas atividades de extração a uma velocidade que agride a humanidade e o meio ambiente. Essa é a lógica imposta pelo modelo neoliberal, que precisa ser sepultada, se não, mais desastres virão.

No fechamento desse artigo, surgiu o afundamento da plataforma marítima de gás Aban Pearl, na costa do estado venezuelano de Sucre, no último dia 13/05. Conforme noticiou a Agência Bolivariana de Notícias (14/05), no acidente, os mecanismos de segurança foram acionados, fazendo com que a plataforma se desconectasse do poço Dragón 6 em tempo hábil. Os 95 trabalhadores foram evacuados a tempo, sem nenhum ferimento. Lembramos que a Venezuela tem sofrido diversos ataques, comandados pelos EUA, por ter abandonado o neoliberalismo e propor o socialismo do século 21. Tal fato confirma que o algoritmo do capitalismo selvagem realmente caducou.

José Carlos Moutinho é jornalista.

domingo, 20 de junho de 2010

Não te Fies do Tempo nem da Eternidade - Cecília Meireles

Não te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo.
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...

Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'

"Mensagem a Garcia", ou "Você é parte do Problema ou da Solução?"



Quando estava no Serviço Ativo da Marinha de Guerra do Brasil, como Oficial do Corpo de Fuzileiros Navais, era comum receber uma ordem com a seguinte frase: "Mensagem a Garcia".

Isso significava que a ordem devia ser cumprida, claro, mas mais do que isso - que deveria ser cumprida a missão sem questionamentos, dúvidas, perguntas, e sim com uma total iniciativa, usando recursos criativos, liderando meus homens, motivando-os para a execução da tarefa. Sem questionamentos, sem explicações, sem dúvidas. Em resumo, a mensagem era: "VIRE-SE"

Mais tarde, vim a descobrir que várias Marinhas de Guerra no mundo têm essa história como um exemplo de iniciativa e liderança, inclusive a Marinha dos Estados Unidos. Tudo com base em um texto de 1913, que vale a pena ser lido. É leve, mas poderosa motivação. Em resumo, coloca a questão "Afinal, você é parte do problema ou da solução?".

Após deixar o serviço ativo do Corpo de Fuzileiros, ao longo de minha carreira de executivo usei frequentemente a "Mensagem a Garcia" como forma de transmitir aos meus subordinados o que esperava deles - sempre funcionou.

Então, aproveite e leia a história original, reproduzida abaixo.


Uma mensagem a Garcia

Considerado o trabalho literário com a maior tiragem jamais registrada durante a vida de seu autor, este artigo publicado em março de 1899 na revista estadunidense Philistine, de East Aurora (estado de New York) ganhou rapidamente o mundo, como contou Elbert Hubbard (1856-1915) em 1913.

Os personagens citados - William Mac Kinley (1843-1901), presidente dos Estados Unidos; o insurreto major-general cubano Calixto Ramón García Iñiguez (1836-1898); e o mensageiro coronel Andrew Summers Rowan (1857-1943) - há muito se tornaram parte da História Universal, mas a mensagem continua atual, mais de um século depois de escrita.

Apologia do autor

Elbert Hubbard

Esta insignificância literária, Uma mensagem a Garcia, escrevi-a uma noite, depois do jantar, em uma hora. Foi a 22 de fevereiro de 1899, aniversário de Washington, e o número de março da nossa revista Philistine estava prestes a entrar no prelo. Encontrava-me com disposição de escrever, e o artigo brotou espontâneo do meu coração, redigido, como foi, depois de um dia afanoso, durante o qual tinha procurado convencer alguns moradores um tanto renitentes do lugar, que deviam sair do estado comatoso em que se compraziam, esforçando-me por incutir-lhes radiatividade.

A idéia original, entretanto, veio-me de um pequeno argumento ventilado pelo meu filho Bert, ao tomarmos café, quando ele procurou sustentar ter sido Rowan o verdadeiro herói da Guerra de Cuba. Rowan pôs-se a caminho só e deu conta do recado - levou a mensagem a Garcia. Qual centelha luminosa, a idéia assenhoreou-se de minha mente. É verdade, disse comigo mesmo, o rapaz tem toda a razão, o herói é aquele que dá conta do recado - que leva a mensagem a Garcia.

Levantei-me da mesa e escrevi "Uma mensagem a Garcia" de uma assentada. Entretanto, liguei tão pouca importância a este artigo, que até foi publicado na revista sem qualquer título. Pouco depois da edição ter saído do prelo, começaram a afluir pedidos para exemplares adicionais do número de março de Philistine: uma dúzia; cincoenta; cem; e quando a American News Company encomendou mais mil exemplares, perguntei a um dos meus empregados qual o artigo que havia levantado o pó cósmico.

"Esse de Garcia" - retrucou-me ele.

No dia seguinte, chegou um telegrama de George H. Daniels, da Estrada de Ferro Central de New York, dizendo: "Indique preço para cem mil exemplares artigo Rowan, sob forma folheto, com anúncios estrada de ferro no verso. Diga também até quando poderá fazer entrega".
Respondi indicando o preço, e acrescentando que podia entregar os folhetos dali a dois anos. Dispúnhamos de facilidades restritas e cem mil folhetos afiguravam-se-nos um empreendimento de monta.

O resultado foi que autorizei o senhor Daniels a reproduzir o artigo conforme lhe aprovesse. Fê-lo então em forma de folhetos, e distribuiu-os em tal profusão que duas ou três edições de meio milhão se esgotaram rapidamente. Além disso, foi o artigo reproduzido em mais de duzentas revistas e jornais. Tem sido traduzido, por assim dizer, em todas as línguas faladas.

Aconteceu que, justamente quando o Sr. Daniels estava fazendo a distribuição da Mensagem a Garcia, o príncipe Hilakoff, diretor das Estradas de Ferro Russas, se encontrava neste país. Era hóspede da Estrada de Ferro Central de New York, percorrendo todo o país acompanhando o Sr. Daniels. O príncipe viu o folheto, que o interessou, mais pelo fato de ser o próprio Sr. Daniels que o estava distribuindo em tão grande quantidade, que propriamente por qualquer outro motivo.
Como quer que seja, quando o príncipe regressou à sua pátria, mandou traduzir o folheto para o russo e entregar um exemplar a cada empregado de estrada de ferro na Rússia. O breve trecho foi imitado por outros países; da Rússia o artigo passou para a Alemanha, França, Turquia, Hindustão e China. Durante a guerra entre a Rússia e o Japão, foi entregue um exemplar da Mensagem a Garcia a cada soldado russo que se destinava ao front.

Os japoneses, ao encontrarem os livrinhos, em poder dos prisioneiros russos, chegaram à conclusão de que havia de ser coisa boa, e não tardaram em vertê-lo para o japonês. Por ordem do Mikado, foi distribuído um exemplar a cada empregado, civil ou militar, do governo japonês.
Para cima de quarenta milhões de exemplares de Uma Mensagem a Garcia têm sido impressos, o que é sem dúvida a maior circulação jamais atingida por qualquer trabalho literário, durante a vida do autor, graças a uma série de circunstâncias felizes. 

E.H.



East Autora, 1º de dezembro de 1913

Uma mensagem a Garcia

Em todo este caso cubano, um homem se destaca no horizonte de minha memória como o planeta Marte no seu periélio. Quando irrompeu a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, o que importava a estes era comunicar-se rapidamente com o chefe dos insurretos, Garcia, que se sabia encontrar-se em alguma fortaleza no interior do sertão cubano, mas sem que se pudesse precisar exatamente onde. Era impossível comunicar-se com ele pelo correio ou pelo telégrafo. No entanto, o presidente tinha a tratar de assegurar-se da sua colaboração, e isto, quanto antes. 

Que fazer?

Alguém lembrou ao presidente: "Há um homem chamado Rowan; e se alguma pessoa é capaz de encontrar Garcia, há de ser Rowan".

Rowan foi trazido à presença do presidente, que lhe confiou uma carta com a incumbência de entregá-la a Garcia. De como este homem, Rowan, tomou a carta, meteu-a num invólucro impermeável, amarrou-a sobre o peito e, após quatro dias, saltou, de um barco sem coberta, alta noite, nas costas de Cuba; de como se embrenhou no sertão, para depois de três semanas surgir do outro lado da ilha, tendo atravessado a pé um país hostil e entregando a carta a Garcia, são coisas que não vêm ao caso narrar aqui pormenorizadamente. O ponto que desejo frisar é este: Mac Kinley deu a Rowan uma carta para ser entregue a Garcia; Rowan pegou a carta e nem sequer perguntou: "Onde é que ele está?"

Hosannah! Eis aí um homem cujo busto merecia ser fundido em bronze imarcescível (N.E.: incorruptível, indestrutível) e sua estátua colocada em cada escola do país. Não é de sabedoria livresca que a juventude precisa, nem de instrução sobre isto ou aquilo; precisa, sim, de um endurecimento das vértebras, para poder mostrar-se altiva no exercício de um cargo; para atuar com diligência, para dar conta do recado; para, em suma, levar uma mensagem a Garcia!

O general Garcia já não é deste mundo, mas há outros Garcias. A nenhum homem que se tenha empenhado em levar avante uma empresa, em que a ajuda de muitos se torne precisa, têm sido poupados momentos de verdadeiro desespero ante a imbecilidade de grande número de homens, ante a inabilidade ou da falta de disposição de concentrar a mente numa determinada coisa e fazê-la.

Assistência irregular, desatenção tola, indiferença irritante e trabalho mal feito, parecem ser a regra geral. Nenhum homem pode ser verdadeiramente bem sucedido, salvo se lançar mão de todos os meios ao seu alcance, quer da força, quer do suborno, para obrigar outros homens a ajudá-lo, a não ser que Deus Onipotente, na sua grande misericórdia, faça um milagre enviando-lhe como auxiliar um anjo de luz.

Leitor amigo, tu mesmo podes tirar a prova. Estás sentado no teu escritório, rodeado de meia dúzia de empregados. Pois bem, chama um deles e pede-lhe: "Queira ter a bondade de consultar a enciclopédia e de me fazer uma descrição sucinta da vida de Correggio".

Dar-se-á o caso do empregado dizer calmamente: "Sim, senhor" e executar o que se lhe pediu?
Nada disso: olhar-te-á perplexo e de soslaio para fazer uma ou mais das seguintes perguntas:
Quem é ele?
Que enciclopédia?
Onde é que está a enciclopédia?
Fui eu acaso contratado para fazer isso?
Não quer dizer Bismark?
E se Carlos o fizesse?
Já morreu?
Precisa disso com urgência?
Não será melhor que eu traga o livro para que o senhor mesmo procure o que quer?
Para que quer saber isso?

E aposto dez contra um que, depois de haveres respondido a tais perguntas, e explicado a maneira de procurar os dados pedidos e a razão por que deles precisas, teu empregado irá pedir a um companheiro que o ajude a encontrar Garcia, e depois voltará para te dizer que tal homem não existe.

Evidentemente, pode ser que eu perca a aposta; mas segundo a lei das médias, jogo na certa. Ora, se fores prudente, não te darás ao trabalho de explicar ao teu "ajudante" que o Corrégio se escreve com "C" e não com "K", mas limitar-te-ás a dizer meigamente, esboçando o melhor sorriso: "Não faz mal; não se incomode", e, dito isto, levantar-te-ás e procurarás tu mesmo. E esta incapacidade de atuar independentemente, esta inépcia moral, esta invalidez na vontade, esta atrofia de disposição - de solicitamente se pôr em campo e agir - são as coisas que recuam para um futuro tão remoto o advento do socialismo puro.

Se os homens não tomam a iniciativa de agir em seu próprio proveito, que farão quando o resultado do seu esforço redundar em benefício de todos? Por enquanto parece que os homens ainda precisam ser feitorados. O que mantém muito empregado no seu posto e o faz trabalhar é o medo de, se não o fizer, ser despedido no fim do mês. Anuncia precisar de um taquígrafo, e nove entre dez candidatos à vaga não saberão ortografar nem pontuar e, o que é mais, pensam não ser necessário sabê-lo.

Poderá uma pessoa destas escrever uma carta a Garcia?
"Vê aquele guarda-livros", dizia-me o chefe de uma grande fábrica.
"Sim, que tem?"

É um excelente guarda-livros. Contudo, se eu o mandasse fazer um recado, talvez se desobrigasse da incumbência a contento, mas também, podia muito bem ser que no caminho entrasse em duas ou três casas de bebidas, e que, quando chegasse ao seu destino, já não se recordasse da incumbência que lhe fora dada".

Será possível confiar-se a um tal homem uma carta, para entregá-la a Garcia?
Últimamente temos ouvido muitas expressões sentimentais, externando simpatia para com os pobres entes que mourejam de sol a sol, para com os infelizes desempregados à cata do trabalho honesto, e tudo isto, quase sempre, entremeado de muita palavra dura para com os homens que estão no poder.
Nada se diz do patrão que envelhece antes do tempo, num baldado esforço para induzir eternamente desgostosos e descontentes a trabalhar conscienciosamente; nada se diz de sua longa e paciente procura de pessoal, que, no entanto, muitas vezes nada mais faz do que "matar o tempo" logo que ele volta as costas.

Não há empresa que não esteja despedindo pessoal que se mostre incapaz de zelar pelos seus interesses, a fim de substituí-lo por outro mais apto. E este processo de seleção por eliminação está se operando incessantemente, em tempos adversos, com a única diferença que, quando os tempos são maus e o trabalho escasseia, a seleção se faz mais escrupulosamente, pondo-se fora, para sempre, os incompetentes e os inaproveitáveis. É a lei da sobrevivência do mais apto. Cada patrão, no seu próprio interesse, trata somente de guardar os melhores - aqueles que podem levar uma mensagem a Garcia.

Conheço um homem de aptidões realmente brilhantes, mas sem a fibra precisa para gerir um negócio próprio, e que ademais se torna completamente inútil para qualquer pessoa, devido à suspeita insana que constantemente abriga de que seu patrão o esteja oprimindo ou tencione oprimi-lo. Sem poder mandar, não tolera qaue alguém o mande. Se lhe fosse confiada uma mensagem a Garcia, retrucaria provavelmente: "Leve-a você mesmo".

Hoje este homem perambula errante pelas ruas em busca de trabalho, em quase petição de miséria. No entanto, ninguém que o conheça se aventura a dar-lhe trabalho porque é a personificação do descontentamento e do espírito de réplica. Refratário a qualquer conselho ou admoestação, a única coisa capaz de nele produzir algum efeito seria um bom pontapé dado com a ponta de uma bota de número 42, com sola grossa e bico largo.

Sei que não resta dúvida, que um indivíduo moralmente aleijado como este não é menos digno de compaixão que um fisicamente aleijado. Entretanto, nesta demonstração de compaixão vertamos também uma lágrima pelos homens que se esforçam por levar avante uma grande empresa, cujas horas de trabalho não estão limitadas pelo som do apito e cujos cabelos ficam prematuramente encanecidos na incesante luta em que estão empenhados contra a indiferença desdenhosa, contra a imbecilidade crassa, a ingratidão atroz, justamente daqueles que, sem o seu espírito empreendedor, andariam famintos e sem lar.
Dar-se-á o caso de eu ter pintado a situação em cores demasiado carregadas? Pode ser que sim; mas, quando todo mundo se apraz em divagações, quero lançar uma palavra de simpatia ao homem que imprime êxito a um empreendimento, ao homem que, a despeito de uma porção de empecilhos, sabe dirigir e coordenar os esforços de outros e que, após o triunfo, talvez verifique que nada ganhou; nada, salvo a sua mera subsistência.

Também eu carreguei marmitas e trabalhei como jornaleiro, como também tenho sido patrão. Sei, portanto, que alguma coisa se pode dizer de ambos os lados.

Não há excelência na pobreza de per si, farrapos não servem de recomendação. Nem todos os patrões são gananciosos e tiranos, da mesma forma que nem todos os pobres são virtuosos.
Todas as minhas simpatias pertencem ao homem que trabalha conscienciosamente, quer o patrão esteja, quer não. É o homem que, ao lhe ser confiada uma carta para Garcia, tranqüilamente toma a missiva sem fazer perguntas idiotas, e sem intenção oculta de jogá-la na primeira sarjeta que encontrar, ou praticar qualquer outro feito que não seja entregá-la ao destinatário; esse homem nunca fica "encostado", nem tem que se declarar em greve para forçar um aumento de ordenado.

A civilização busca ansiosa, insistentemente, homens nestas condições. Tudo que um tal homem pedir, ser-lhe-á de conceder. Precisa-se dele, em cada cidade, em cada vila, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja, fábrica ou venda. O grito do mundo inteiro praticamente se resume nisso:

"Precisa-se, e precisa-se com urgência, de um homem capaz de levar uma mensagem a Garcia".
Elbert Hubbard

sábado, 19 de junho de 2010

El vino - Alberto Cortéz

sexta-feira, 18 de junho de 2010

No dia de hoje, há 70 anos, De Gaulle convoca a Resistência Francesa

Em 18 de junho de 1940, um general de brigada francês alto, desalinhado e quase desconhecido, vestindo uniforme com quepe e luvas, pegou um táxi londrino para gravar nos estúdios da BBC o discurso mais famoso de sua vida. Quando o técnico de som lhe pediu que dissesse algo, qualquer coisa, para testar o microfone, Charles de Gaulle, então com 49 anos, disse com sua voz retumbante: "La France". Depois, durante dois minutos, fez um emocionante apelo aos franceses para que evitassem o armistício do governo de Pétain e se unissem a ele para continuar lutando contra os alemães: "Haja o que houver, a chama da resistência francesa não deve se apagar, nem se apagará jamais. Amanhã, como hoje, falarei na rádio de Londres".

Em 17 de junho, exatamente 70 anos depois desse discurso, a França se dispõe a homenagear o homem que o pronunciou e seu espírito de resistência. Durante semanas sucederam-se a publicação de livros, a emissão de programas especiais, a alusão em revistas e jornais ao velho general, ao seu tempo e a sua herança.

Sua figura desajeitada e séria aparece por todo lado, e Nicolas Sarkozy visitará na quinta-feira Londres para lembrar o lugar em que tudo começou. À noite, entre outros atos, Paris brindará sua magnificência e seu porte para uma homenagem pública em um espetáculo de som e luz.

Eis o texto integral do discurso que emocionou toda a França

a



Quatro dias depois, De Gaulle lançava outro apelo à Resistência, gravado pela BBC, que você ouve acima e acompanha o texto a seguir.

L'appel du 22 juin 1940

Le gouvernement français, après avoir demandé l’armistice, connaît maintenant les conditions dictées par l’ennemi.

Il résulte de ces conditions que les forces françaises de terre, de mer et de l’air seraient entièrement démobilisées, que nos armes seraient livrées, que le territoire français serait occupé et que le Gouvernement français tomberait sous la dépendance de l’Allemagne et de l’Italie.
On peut donc dire que cet armistice serait, non seulement une capitulation, mais encore un asservissement.

Or, beaucoup de Français n’acceptent pas la capitulation ni la servitude, pour des raisons qui s’appellent l’honneur, le bons sens, l’intérêt supérieur de la Patrie.

Je dis l’honneur ! Car la France s’est engagée à ne déposer les armes que d’accord avec les Alliés. Tant que ses Alliés continuent la guerre, son gouvernement n’a pas le droit de se rendre à l’ennemi. Le Gouvernement polonais, le Gouvernement norvégien, le Gouvernement belge, le Gouvernement hollandais, le Gouvernement luxembourgeois, quoique chassés de leur territoire, ont compris ainsi leur devoir.

Je dis le bon sens ! Car il est absurde de considérer la lutte comme perdue. Oui, nous avons subi une grande défaite. Un système militaire mauvais, les fautes commises dans la conduite des opérations, l’esprit d’abandon du Gouvernement pendant ces derniers combats, nous ont fait perdre la bataille de France. Mais il nous reste un vaste Empire, une flotte intacte, beaucoup d’or. Il nous reste des alliés, dont les ressources sont immenses et qui dominent les mers. Il nous reste les gigantesques possibilités de l’industrie américaine. Les mêmes conditions de la guerre qui nous ont fait battre par 5 000 avions et 6 000 chars peuvent donner, demain, la victoire par 20 000 chars et 20 000 avions.

Je dis l’intérêt supérieur de la Patrie ! Car cette guerre n’est pas une guerre franco-allemande qu’une bataille puisse décider. Cette guerre est une guerre mondiale. Nul ne peut prévoir si les peuples qui sont neutres aujourd’hui le resteront demain, ni si les alliés de l’Allemagne resteront toujours ses alliés. Si les forces de la liberté triomphaient finalement de celles de la servitude, quel serait le destin d’une France qui se serait soumise à l'ennemi ?

L’honneur, le bon sens, l’intérêt de la Patrie, commandent à tous les Français libres de continuer le combat, là où ils seront et comme ils pourront.

Il est, par conséquent, nécessaire de grouper partout où cela se peut une force française aussi grande que possible. Tout ce qui peut être réuni, en fait d’éléments militaires français et de capacités françaises de production d’armement, doit être organisé partout où il y en a.

Moi, Général de Gaulle, j’entreprends ici, en Angleterre, cette tâche nationale.

J’invite tous les militaires français des armées de terre, de mer et de l’air, j’invite les ingénieurs et les ouvriers français spécialistes de l’armement qui se trouvent en territoire britannique ou qui pourraient y parvenir, à se réunir a moi.

J’invite les chefs et les soldats, les marins, les aviateurs des forces françaises de terre, de mer, de l’air, où qu’ils se trouvent actuellement, à se mettre en rapport avec moi.

J’invite tous les Français qui veulent rester libres à m’écouter et à me suivre.

Vive la France libre dans l’honneur et dans l’indépendance !

Pablo Neruda, “Nuevo Canto de Amor a Stalingrado”


A Batalha de Stalingrado, durante a Segunda Guerra Mundial, mudou os rumos da guerra. Foi o começo do fim para os Nazistas, que tentaram o que Napoleão não conseguira – invadir a Rússia. A Batalha durou mais de cinco meses, entre 17 de Julho de 1942 e 2 de Fevereiro de 1943. Os alemães começaram a ofensiva afundando 32 navios russos no Rio Volga e bloqueando-o para evitar a chegada de reservas russas. Em seguida a Luftwaffe despejou mais de 1.000 toneladas de bombas e arrasou a cidade. Stalin impediu os civis de saírem, a fim de que isso motivasse mais os defensores russos. Um bombardeio alemão em 23 de Agosto de 1942 destruiu 90% da área de Voroshilovskiy.

Inicialmente o Exercito Alemão (Wehrmarcht) atacou com 270.000 homens. Quando os russos lançaram sua contra-ofensiva, em 19 de Novembro de 1942, usaram 1.103.000 homens, 15mil canhões, mil e quatrocentos tanques e mais de mil aviões de combate.
Os alemães deslocaram por ordem de Hitler um total de um milhão de homens, com dez mil canhões e 732 aviões.

Ao final da luta, os russos capturaram um total de 130 mil homens, incluindo todo o 6o Exército, comandado pelo Marechal Von Paulus, que se rendeu apesar de ordens expressas de Hitler de não se entregar. Mortos alemães totalizaram 146 mil. Mas a vitória foi dolorosa para os russos, que tiveram mais de 480 mil mortos, sendo mais de 40 mil civis. 

O filme “Círculo de Fogo” (Enemy At The Gates) é inspirado em um fato real, durante a Batalha de Stalingrado. Um jovem soldado russo, Vasily Zaytsev, tornou-se um dos mais famosos franco-atiradores da historia, utilizando uma mira telescópica adaptada a um fuzil Soviético PTRD-41 antitanque e matando 242 oficiais alemães. Os alemães enviaram contra ele o Coronel Erwin Konig, comandante da Escola de Franco Atiradores da Wehmarch. Vasily venceu o duelo e matou o coronel alemão.


Abaixo você tem um dos mais lindos poemas de Pablo Neruda, em homenagem aos defensores de Stalingrado.

NUEVO CANTO DE AMOR A STALINGRADO

Yo escribí sobre el tiempo y sobre el agua,
describí el luto y su metal morado,
yo escribí sobre el cielo y la manzana,
ahora escribo sobre Stalingrado.

Ya la novia guardó con su pañuelo
el rayo de mi amor enamorado,
ahora mi corazón está en el suelo,
en el humo y la luz de Stalingrado.

Yo toqué con mis manos la camisa
del crepúsculo azul y derrotado:
ahora toco el alba de la vida
naciendo con el sol de Stalingrado.

Yo sé que el viejo joven transitorio
de pluma, como un cisne encuadernado,
desencuaderna su dolor notorio
por mi grito de amor a Stalingrado.

Yo pongo el alma mía donde quiero.
Y no me nutro de papel cansado
adobado de tinta y de tintero.
Nací para cantar a Stalingrado.

Mi voz estuvo con tus grandes muertos
contra tus propios muros machacados,
mi voz sonó como campana y viento
mirándote morir, Stalingrado.

Ahora americanos combatientes
blancos y oscuros como los granados,
matan en el desierto a la serpiente.
Ya no estás sola, Stalingtado.

Francia vuelve a las viejas barricadas
con pabellón de furia enarbolado
sobre las lágrimas recién secadas.
Ya no estás sola, Stalingrado.

Y los grandes leones de Inglaterra
volando sobre el mar huracanado
clavan las garras en la parda tierra.
Ya no estás sola, Stalingrado.

Hoy bajo tus montañas de escarmiento
no sólo están los tuyos enterrados:
temblando está la carne de los muertos
que tocaron tu frente, Stalingrado.

Tu acero azul de orgullo construido,
tu pelo de planetas coronados,
tu baluarte de panes divididos,
tu frontera sombría, Stalingrado.




Tu Patria de martillos y laureles,
la sangre sobre tu esplendor nevado,
la mirada de Stalin a la nieve
tejida con tu sangre, Stalingrado.

Las condecoraciones que tus muertos
han puesto sobre el pecho traspasado
de la tierra, y el estremecimiento
de la muerte y la vida, Stalingrado

La sal profunda que de nuevo traes
al corazón del hombre acongojado
con la rama de rojos capitanes
salidos de tu sangre, Stalingrado.

La esperanza que rompe en los jardines
como la flor del árbol esperado,
la página grabada de fusiles,
las letras de la luz, Stalingrado.

La torre que concibes en la altura,
los altares de piedra ensangrentados,
los defensores de tu edad madura,
los hijos de tu piel, Stalingrado.

Las águilas ardientes de tus piedras,
los metales por tu alma amamantados,
los adioses de lágrimas inmensas
y las olas de amor, Stalingrado.

Los huesos de asesinos malheridos,
los invasores párpados cerrados,
y los conquistadores fugitivos
detrás de tu centella, Stalingrado.

Los que humillaron la curva del Arco
y las aguas del Sena han taladrado
con el consentimiento del esclavo,
se detuvieron en Stalingrado.

Los que Praga la Bella sobre lágrimas,
sobre lo enmudecido y traicionado,
pasaron pisoteando sus heridas,
murieron en Stalingrado.

Los que en la gruta griega han escupido,
la estalactita de cristal truncado
y su clásico azul enrarecido,
ahora dónde están, Stalingrado?

Los que España quemaron y rompieron
dejando el corazón encadenado
de esa madre de encinos y guerreros,
se pudren a tus pies, Stalingrado.

Los que en Holanda, tulipanes y agua
salpicaron de lodo ensangrentado
y esparcieron el látigo y la espada,
ahora duermen en Stalingrado.

Los que en la noche blanca de Noruega
con un aullido de chacal soltado
quemaron esa helada primavera,
enmudecieron en Stalingrado.

Honor a ti por lo que el aire trae,
lo que se ha de cantar y lo cantado,
honor para tus madres y tus hijos
y tus nietos, Stalingrado.
Honor al combatiente de la bruma,
honor al Comisario y al soldado,
honor al cielo detrás de tu luna,
honor al sol de Stalingrado.

Guárdame un trozo de violenta espuma,
guárdame un rifle, guárdame un arado,
y que lo pongan en mi sepultura
con una espiga roja de tu estado,
para que sepan, si hay alguna duda,
que he muerto amándote y que me has amado,
y si no he combatido en tu cintura
dejo en tu honor esta granada oscura,
este canto de amor a Stalingrado.



Pentágono usa New York Times. De novo

17 de junho de 2010 às 17:08


Pentágono, guerrilha Talibã & lápis-lazúli…

Os motivos do New York Times

16/6/2010, Jim Lobe, Asia Times Online –

http://www.atimes.com/atimes/South_Asia/LF16Df03.html

WASHINGTON. O timing da publicação de grande reportagem no New York Times sobre enormes jazidas de minerais preciosos ainda não exploradas no subsolo do Afeganistão está despertando curiosidade e muitas perguntas sobre as intenções do Pentágono, que distribuiu a informação.

Dadas as notícias cada dia mais negativas sobre a situação no Afeganistão – e sobre a estratégia dos EUA –, analistas creem que a matéria de primeira página visa a reverter o sentimento que cresce na opinião pública, de que a guerra não vale o que custa.

“Que melhor meio para lembrar todos de que o país tem brilhante futuro a esperar – e “todos”, aí, significa os chineses, os russos, os paquistaneses e os norte-americanos –, do que requentar e divulgar informação correta (mas não desconhecida) sobre a riqueza potencial do Afeganistão?” escreveu Marc AmBinder, editor político da revista The Atlantic, em seu blog.

“O modo como a história foi apresentada – com nada menos que citações de declarações oficiais já publicadas do comandante-em-chefe do CENTCOM [general David Petraeus] – e a suspeita promoção de um sub-do-sub assessor da secretaria de Defesa ao cargo de subsecretário de Defesa [Paul Brinkley] sugerem operação ampla e planejada de propaganda e informação com o objetivo de influenciar a opinião pública sobre o curso da guerra” – acrescentou AmBinder.

O artigo – cerca de 1.500 palavras[1], baseado quase completamente em fontes do Departamento de Estado e publicado como matéria principal da 2ª-feira de “Early Bird”, compilação das matérias consideradas mais importantes para a segurança nacional que o Pentágono distribui diariamente – informava que o Afeganistão tem reservas não exploradas de minérios e pedras preciosas avaliadas em cerca de 1 trilhão de dólares. Aí incluídos “imensa s reservas de ferro, cobre, cobalto, ouro e metais industriais críticos, como o lítio” – nas palavras do jornal.

O produto interno bruto anual do Afeganistão é de cerca de 13 bilhões. O comércio ilegal de narcóticos exportados é estimado em cerca de 4 bilhões/ano.

“Memorando interno do Pentágono” entregue a James Risen, que escreve no Times, prevê que o Afeganistão poder-se-ia converter na “Arábia Saudita do lítio” – matéria prima essencial para a fabricação de baterias para laptops e telefones celulares [Blackberrys]”.

“Há aqui espantoso potencial”, Petraeus disse a Risen em entrevista, no sábado. “Há muitos ‘se’, é claro, mas penso que são potencialmente muito, muito significativas”, disse, sobre as conclusões de um estudo levado a cabo por “pequena equipe de oficiais do Pentágono e geólogos norte-americanos.”

O governo do presidente Hamid Karzai do Afeganistão, cujos recentes esforços para iniciar um processo de reconciliação com os guerrilheiros Talibãs foram criticados pelo Pentágono, pegou o pião na unha. Em conferência de imprensa arranjada às pressas na 2ª-feira, o porta-voz de Karzai, Waheed Omar, disse que a matéria de NYT trazia “as melhores notícias que recebemos, há muitos anos, no Afeganistão”.

Outros analistas, contudo, sugerem que as notícias sobre a riqueza do subsolo afegão nada têm de novidade. Karzai falou sobre o assunto em janeiro; disse que “os recursos minerais do Afeganistão chegam a 1 trilhão de dólares”, segundo a rede Bloomberg.

Como observou Blake Hounshell, editor-chefe da revista Foreign Policy, o Serviço de Geologia dos EUA também já publicou inventário detalhado dos recursos do subsolo afegão, sem considerar o petróleo, pela internet, em 2007; o mesmo fez também o BSG, British Geological Survey. Nos dois casos, os relatórios valem-se das pesquisas desenvolvidas pela URSS, durante a ocupação do Afeganistão nos anos 1980s.

Stan Coats, ex-geólogo-chefe da BGS, que pesquisou o subsolo afegão durante quatro anos, acrescentou uma nota de precaução. “É preciso ainda trabalhar muito, antes que se possa afirmar com segurança que um ou outro minério possa ser extraído em projeto comercialmente viável”, disse ele ao jornal The Independent. “Temos ainda de trabalhar muito, inclusive perfurar algumas áreas, para saber se esses depósitos têm condições de serem explorados e se nos interessa explorá-los”.

Mas, acrescentou ele, apesar de a situação de segurança degradar-se a olhos vistos, ainda há áreas relativamente seguras – “e, portanto, há perspectiva para muito trabalho, ainda, por lá”.

O valor de 1 trilhão de dólares, de que fala o New York Times, é simples atualização das estimativas já existentes do valor de cada minério, para as cotações de hoje, segundo Hounshell.

Por tudo isso, o principal problema, para muitos observadores, é por que o artigo – presente e dominante em praticamente todos os noticiários sobre política internacional, em todo o ciclo de notícias da 2ª-feira – apareceu publicado agora no NYT?

O memorando do Pentágono parece ser esforço para atrair o interesse internacional para o setor de mineração, antes do leilão, nas próximas semanas, da mina de ouro (1,8 bilhões/tonelada) em Hajigak, cujo valou pode chegar a 5-6 bilhões, segundo o Times britânico. O desenvolvimento do maior depósito conhecido de ferro foi interrompido pela guerra e fracassou, em mãos de instituições frágeis.

O memorando do Pentágono coincidiu também com uma visita à Índia, de Wahidullah Shahrani, o novo ministro afegão de Minas, para solicitar que se apresentem propostas ao leilão da mina de Hajigak, depois de a concorrência planejada ter sido cancelada ano passado por falta de interessados internacionais, conforme notícias do Times. Shahrani foi nomeado ano passado, com apoio dos EUA, em janeiro, depois de seu antecessor ser demitido sob acusações de ter recebido suborno de uma mineradora chinesa – acusação que o ex-ministro rejeitou.

Funcionários afegãos e ocidentais querem que haja várias propostas no leilão da mina de Hajigak, para evitar que os chineses consigam ganhar controle sobre os recursos naturais afegãos, mediante propostas pesadamente subsidiadas por Pequim, noticiou o Times. O jornal registra também que empresas europeias e norte-americanas teriam dito que Pequim usa métodos ilegais para conseguir contratos.

Em 2007, a mineradora estatal Metallurgical Corp of China obteve licença para explorar as minas de cobre de Aynak, a mais rica jazida desse metal no Afeganistão, cuja mineração estava interrompida pela guerra desde os anos 1980s, segundo a agência Bloomberg. Essa jazida guardaria um total estimado de 11 milhões de toneladas de cobre, segundo estimativa, em 2008, da Jiangxi Copper, parceira naquele projeto, citada pela mesma rede.

A existência dos minérios também levanta questões sobre motivos que outros países possam ter para envolvimento no conflito afegão. Os afegãos reclamaram que o ocidente está à caça de seus recursos naturais, exatamente como muitos iraquianos muitas vezes disseram que a invasão pelos EUA explicava-se pela ambição de controlar o petróleo (115 bilhões de barris, da reserva já conhecidas, terceira maior reserva nacional, depois só de Arábia Saudita e Irã).

Risen, escrevendo para o New York Times, sugeriu resposta à questão do interesse do Pentágono em requentar o tema nesse momento: “funcionários dos EUA e Afeganistão concordam com discutir as descobertas do subsolo, em momento difícil da guerra no Afeganistão”.

De fato, o número de baixas de soldados dos EUA e da OTAN aumentou muito nas últimas semanas; a ofensiva dos soldados antiguerrilhas que já dura quatro meses, para “limpar, chegar e ocupar” a região estratégica em torno de Marjah na província de Helmand dominada pelos Pashtuns, parece não estar dando os resultados esperados; e ataque planejado e anunciado à e em torno da cidade chave de Candahar já foi adiado por pelo menos mais dois meses.

As últimas pesquisas mostram considerável erosão dos apoios com que Washington contava, na direção de mais guerra, em relação a oito meses passados, quando o presidente Barack Obama acatou as recomendações do Pentágono para que enviasse mais 30 mil soldados ao Afeganistão, de modo a que, nesse verão, lá estejam cerca de 100 mil soldados.

Mais que isso, também o apoio da opinião pública nacional, nos países da OTAN aliados de Washington – que jamais se aproximou da opinião nos EUA em nenhum caso – diminui rapidamente. Países da OTAN e não incluídos na OTAN, excluídos os EUA, têm cerca de 34 mil soldados no Afeganistão.

Na véspera da conferência ministerial da OTAN em Bruxelas, semana passada, o secretário de Defesa Robert Gates lembrou que Washington e seus aliados da OTAN têm muito pouco tempo para convencer a opinião pública nacional em seus países de que a estratégia contra os Talibã estaria funcionando – mensagem que, imediatamente depois, foi logo repetida também pelo comandante da coalizão no Afeganistão, general Stanley McChrystal, e também por Petraeus.

De fato, o governo está empenhado em fazer ampla revisão de sua estratégia no Afeganistão no final desse ano, e Obama havia prometido começar a retirada em julho de 2011.

Obama está sob intensa pressão da mídia de direita e neoconservadora – em muitos casos orientada diretamente por Petraeus – e por políticos republicanos, para atrasar o início da retirada.

A mesma ideia reapareceu semana passada, pela voz de um ex-assessor de Petraeus, tenente-coronel John Nagl (aposentado), especialista em luta antiguerrilha, atualmente presidente do influente Center for a New American Security.

Nagl trabalhou em íntima associação com Petraeus, na elaboração do muito elogiado Manual de Campo da Antiguerrilha, EUA-2006, que dá grande destaque à importância de atuar sobre as percepções da mídia, em toda e qualquer campanha antiguerrilhas.

“A mídia influencia diretamente a atitude dos grupos chave de opinião em relação à contraguerrilha, seu modo de operar e em relação às operações dos guerrilheiros”, escreveram lá. “Essa situação cria uma guerra de percepções entre guerrilheiros e soldados contraguerrilha, que se trava continuamente, usando a imprensa de notícias.”

Nesse sentido, a publicação, no NYT, da história da 2ª-feira, foi considerada, por muitos especialistas, como parte do esforço do Pentágono para reforçar a ideia de dar mais tempo ao esforço dos soldados que combatem a guerrilha Talibã no Afeganistão.

Em entrevista a Laura Rozen, de Politico, ontem, o ex-ministro das Finanças do Afeganistão Ashraf Ghani disse que ele próprio encomendara estudo sobre o subsolo afegão e suas riquezas. “Mas não tenho nem a mínima ideia sobre por que o relatório foi publicado na 2ª-feira” – disse ele.

[1] NYT, 13/6/2010, James Risen, “U.S. Identifies Vast Mineral Riches in Afghanistan” http://www.nytimes.com/2010/06/14/world/asia/14minerals.html?scp=2&sq=afghanistan&st=cse