terça-feira, 31 de agosto de 2010

As frases impagáveis de José Serra no auge da crise: “O risco é o carro rodopiar”

O vídeo abaixo vale pelo registro histórico do que foi dito durante a crise econômica de 2009, que provocou uma freada no crescimento econômico brasileiro.

José Serra: “Inteiramente na contramão de todo mundo” [sobre as ações do governo brasileiro].


José Serra: “É falta de formação sólida” [sobre o que acreditava motivar as medidas "erradas" tomadas pelo governo brasileiro].


José Serra: “O risco é o carro rodopiar”.

Realmente, para quem pensou em disputar a eleição como economista competente e gerente capacitado, é espantoso:


Uma radiografia da eleição para o Senado

O Escrevinhador
31 de agosto de 2010

Rodrigo Vianna faz uma análise do cenário atual

ATUALIZAÇÃO: esse texto foi escrito antes das últimas pesquisas mostrarem que:

- Marco Maciel (DEM) corre mesmo sérios riscos em Pernambuco;
- São Paulo pode eleger Marta (PT) e Netinho (PCdoB), deixando de fora Tuma (PTB), Quércia (PMDB) e Aloysio (PSDB);
- Artur Virgilio pode perder a segunda vaga no Amazonas para Vanessa (PCdoB).

por Rodrigo Vianna

Há alguns dias, escrevi aqui um texto sobre a eleição para a Câmara, e prometi que em seguida faria uma radiografia da disputa para o Senado. É o que apresento agora.

Céu de brigadeiro para Dilma num futuro Senado?

O PT adotou, nessa eleição, a tática de abrir mão de candidaturas a governos estaduais, com o objetivo de fortalecer a bancada no Senado Federal. Tática inteligente, já que o Senado (muito mais do que a Câmara) foi o grande obstáculo a Lula – com uma oposição numerosa e barulhenta. A idéia é permitir que Dilma – num eventual governo – tenha correlação de forças mais favorável no Senado.

Será que isso pode acontecer?

Peço, como sempre, a colaboração dos leitores, para corrigir e acrescentar informações que nos ajudem a entender esse quadro. Peço, também, paciência, porque o levantamento é exaustivo – bancada por bancada. Quem tiver menos interesse pode seguir direto para as conclusões finais.

Primeiro, é importante lembrar: dos 81 senadores (3 por Estado), 27 têm mandato até 2015. Portanto, o que está em jogo agora são as outras 54 vagas.

A análise do quadro político em cada Estado aponta para as seguintes possibilidades:

1) Forças de centro-esquerda

PT
- tem 2 senadores com mandato até 2014 – Suplicy (SP) e Tião Viana (AC) - e pode ganhar mais 1 sem precisar de um voto (Renato Casagrande, favorito na eleição para governador no ES, tem suplente do PT);
- na eleição de outubro, o PT tem chance de eleger entre 8 e 15 novos senadores; Marta (SP), Paim (RS), José Pimentel (CE), Geisi (PR), Wellington (PI), Jorge Vianna (AC), Delcidio (MS) e Humberto Costa (PE) estão entre os dois mais citados nas pesquisas em seus respectivos Estados; mas o PT tem mais sete candidatos fortes, com chances de atropelar no final se Lula e Dilma ajudarem - Fernando Pimentel (MG), Walter Pinheiro (BA), Portela (RR), Fatima Cleide (RO), Abicalil (MT), Paulo Rocha (PA) e Lindhberg (RJ);
- dependendo dos resultados, o PT pode ficar com uma bancada de 11 a 18 senadores.

PCdoB
- tem um 1 senador com mandato até 2014 – Inacio Arruda (CE) ;
- não tinha nenhum candidato entre os favoritos nas pesquisas, mas nos últimos levantamentos Netinho (SP) e Vanessa (AM) aparecem com chances reais de atropelar no fim; ainda há Edvaldo (AC), que está em terceiro mas pode ganhar a vaga com ajuda da chapa comandada pelo PT de Jorge e Tião Viana;
- PCdoB pode ficar com bancada de 3 ou 4 senadores;

PSB
- não tem nenhum senador com mandato até 2014;
- pode eleger entre 4 e 6 senadores nas eleições de outubro; aparecem entre os dois possíveis mais votados em seus Estados Antonio Carlos Valadares (SE), Rodrigo Rolemberg (DF), Zé Reinaldo (MA), Lidice da Mata (BA); mas outros nomes do partido tem chances – Capiberibe (AP) e Vilma (RN), essa última eu havia deixado fora da lista, mas corrijo aqui por orientação de leitores atentos;
- portanto, PSB pode ficar com uma bancada de 4 a 6 senadores.

PDT
- tem 2 senadores – Acir Gurgacz (RO) e João Durval (BA) – com mandato até 2014;
- pode eleger mais 3 senadores em outubro; Cristovam Buarque (DF), Waldez Goes (AP) e Dagoberto Nogueira (MS) aparecem nas duas primeiras colocações nas pesquisas em seus respectivos Estados;
- o PDT pode ficar com uma bancada de 5 senadores.
Na hipótese mais otimista para a centro-esquerda, os 4 partidos teriam uma bancada total de 33 senadores. Seria algo inédito no Brasil. Importante lembrar: alguns nomes que podem se eleger por PSB e PDT não têm histórico de militância pela esquerda.

Outras ressalvas:
- nomes como Lidice da Mata (PSB) e Walter Pinheiro (PT), por exemplo, dificilmente estarão juntos nesse cômputo geral. Disputam a mesma vaga para o Senado pela Bahia, já que a outra parece destinada a Cesar Borges (PR);
- em alguns Estados, parece difícil que os petistas, socialistas ou comunistas hoje em terceiro lugar consigam superar pelo menos um dos adversários na disputa (casos de Paulo Rocha no Pará e Lindhberg no Rio, que terá um enfrentamento duríssimo com Cesar Maia pela segunda vaga no Estado).
Por isso, a previsão mais realista é que as legendas de centro-esquerda fiquem com uma bancada em torno de 28 senadores.

===
2) PMDB
- tem 3 senadores com mandato até 2014 – Pedro Simon (RS), Jarbas (PE) e Jose Sarney (AP);
- pode eleger em outubro de 14 a 18 senadores; estão entre os favoritos nas pesquisas Ferraço (ES), Rigotto (RS), Luiz Henrique (SC), Requião (PR), Renan Calheiros (AL), Garibaldi (RN), Lobão (MA), Marcelo Miranda (TO), Jader Barbalho (PA), Gilvan Borges (AP), Romero Jucá (RR), Eduardo Braga (AM), Vitalzinho (PB) e Valdir Raupp (RO); mas outros 4 (sem ser favoritos) aparecem ainda com chance de ficar com uma das vagas em seus Estados – Moka (MS), João Alberto (MA), Eunicio (CE) e Quércia (SP);
- portanto, o PMDB pode ficar com uma bancada total de 17 a 21 senadores.

Ressalva: dos 5 nomes ainda com chance, sem ser favoritos numericamente nas pesquisas, só Eunício e Moka parecem ter força política (incluindo a proximidade com Lula) para eventualmente ficar com a vaga.
Portanto, a previsão mais realista é que o PMDB fique com algo em torno de 18 senadores (vai disputar com PT – que deve eleger 17 ou 18 – o posto de maior bancada no Senado). Desses, pelo menos 4 não podem ser considerados aliados de Lula/Dilma (Jarbas, Simon, Rigotto e Luiz Henrique).
Ainda assim, 14 peemedebistas pró-governo somados a possíveis 28 senadores de um bloco de centro-esquerda já dariam 42 votos (maioria simples no Senado).

===
3) Outras legendas aliadas de Lula/Dilma

PR
- não tem senadores com mandato até 2014;
- pode eleger 4 senadores em outubro; Blairo Maggi (MT), Magno Malta (ES), Cesar Borges (BA) e João Ribeiro (TO) são favoritos em seus Estados, de acordo com as últimas pesquisas;
- PR deve ficar com uma bancada de 4 senadores

PTB
- tem 5 senadores com mandato até 2014 – Mozarildo Cavalcanti (RR), Epitácio Cafeteira (MA), João Vicente Claudino (PI), Gim Argello (DF), Fernando Collor ou suplente (AL);
- pode eleger 1 ou 2 senadores; Tuma aparece na disputa pela segunda vaga em SP (mas pode acabar derrotado por Netinho, Quércia ou Aloysio) e Armando Monteiro Neto (terceiro nas pesquisas em PE) pode surpreender o veterano Marco Maciel, se Lula e Eduardo Campos ajudarem;
- PTB deve ficar com bancada de 5 senadores.

PRB
- não tem nenhum senador com mandato até 2014;
- em outubro deve eleger 1 senador – Crivella (RJ) está em primeiro nas pesquisas no Estado;
- PRB deve ficar com 1 senador.

PP
- tem 1 senador com mandato até 2014 – Dornelles (RJ);
- tinha chance clara de eleger mais 1 senador, mas Ivo Cassol (RO) teve seu registro cassado pelo TRE; no RS, Ana Amélia Lemos pode surpreender os favoritos Rigotto e Paim.
- PP deve ficar com 1 ou 2 senadores.
As 4 legendas, somadas, devem ficar com algo em torno de 12 senadores. Desses, pelo menos 10 têm-se mantido próximos a Lula/Dilma.

4) Legendas de oposição a Lula/Dilma no Senado
PSDB
- tem 5 senadores com mandato até 2014 – Mario Couto (PA), Marisa Serrano (MS), Marconi Perillo (GO), Alvaro Dias (PR) e Cícero Lucena (PB);
- pode eleger, em outubro, de 5 a 7 senadores que estão entre os dois primeiros nas pesquisas em seus Estados – Aécio (MG), Paulo Bauer (SC), Tasso (CE), Cassio Cunha Lima (PB), Lúcia Vania (GO) Marluce Pinto (RR) e Antero (MT) (os dois últimos correm algum risco, porque disputam a segunda vaga com candidatos do PT que podem crescer na reta final);
- PSDB deve ficar com uma bancada de 10 a 12 senadores.

DEM
- tem 5 senadores com mandato até 2014;
- pode eleger, de acordo com as pesquisas, até 5 senadores; estão entre os favoritos, até agora, Cesar Maia (RJ), Marco Maciel (PE), Agripino (RN), e Demóstenes Torres (GO); Heráclito Fortes (PI) aparece em terceiro nas pesquisas e pode perder a reeleição; Cesar Maia e Marco Maciel também devem ter dificuldades porque concorrem em Estados onde o eleitorado é francamente lulista, e os dois podem acabar derrotados por Armando Monteiro Neto (PE) e Lindhberg (RJ);
- a previsão mais realista é que o DEM eleja 3 ou 4 senadores em outubro, e fique com uma bancada de até 9 senadores

PPS
- não tem senadores atualmente;
- pode eleger 1 senador em outubro – Itamar Franco (MG); disputa a vaga com Fernando Pimentel (PT);
- pode ficar com 1 senador.

PSC
- não tem senadores com mandato até 2014;
- pode eleger 1 senador – Mão Santa (PI) está entre os primeiros em seu Estado;
- PSC deve ficar com 1 senador a partir do ano que vem.

PMN
- não tem senadores;
- pode eleger 1 senador – Petecão no Acre está sem segundo, mas corre risco de ser derrotado por Edvaldo do PCdoB;
- PMN pode ficar com 1 senador a partir de 2011.

PSOL
- não tem senadores com mandato até 2014;
- deve eleger 1 senador – Heloisa Helena (AL) é favorita;
- PSOL deve ficar com 1 senador a partir de 2011.

===
Vamos às Conclusões Finais…

- A bancada PSDB/DEM/PSC/PPS/PMN deve somar algo em torno de 22 senadores a partir de 2011. Com mais 4 “dissidentes” do PMDB (Jarbas, Simon, Rigotto, Luiz Henrique), 2 “dissidentes” de legendas de centro-direita teoricamente próximas ao lulismo, e 1 senador do PSOL, a oposição a um hipotético governo Dilma teria cerca de 29 senadores.

- Do outro lado, somados os votos das legendas de centro-esquerda (28 senadores) com o PMDB “lulista” (14 senadores) e mais 10 senadores de legendas “aliadas” (PP/PR/PRB/PTB) , um hipotético governo Dilma teria algo em torno de 52 votos no Senado. Dois terços do Plenário! Vida mais tranquila do que Lula.

- Tranquila entre aspas porque na turma pró-governo do PMDB haveria gente como Jáder Barbalho – que costuma trazer mais problema do que voto (a Ana Júlia que o diga, no Pará).

- De toda forma, a nota mais importante é o provável encolhimento do bloco DEM/PSDB. Difícil imaginar que Tasso Jereissati, Agripino e Demóstenes não consigam se eleger. Mas figuras como Heráclito Fortes, Artur Virgilio (e até Marco Maciel!) correm risco concreto de ficar fora do Congresso

- Os “demo-tucanos” não serão “varridos do mapa”, como chegam a dizer alguns de forma retumbante. Mas ficarão mais fracos. Se vencer, Dilma pode esperar menos dor-de-cabeça por parte dessa oposição barulhenta do Senado, e mais dor-de-cabeça pra negociar com os “neo-aliados” como Jáder, ou com os velhos “parceiros” (Renan/Sarney/Jucá).

- Na hipótese menos provável de Serra virar o jogo e ganhar, o PMDB cairá tranquilamente no colo dele. Sem traumas. E com muitos votos no Senado.

- Oito anos de Lula parecem ter sido insuficientes para esgotar o poder dos velhos caciques peemedebistas, que chegarão a Brasília mais fortes do que nunca. E – num hipotético governo Dilma – jogariam de tabelinha com um aliado poderoso a fazer sombra, na vice-presidência.

- Por isso, é fundamental que as legendas de centro-esquerda e o PT ofereçam um contra-peso ao poder do PMDB no Senado. Pelo quadro nos Estados, isso pode muito bem se concretizar. Lula, mais uma vez, demonstra uma capacidade impressionante de estrategista.

Né daqui não!


Ouça abaixo a hilária pegadinha do humorista e radialista Mução ligando para a "Casa do Seu Aloisio".



Mução chama-se Rodrigo Vieira Emerenciano. Não revela a idade, mas pela foto deve ter cerca de 30 anos. E no entanto, faz com perfeição um personagem nordestino de 58 anos.

Famoso em todo país, em especial, por suas pegadinhas por telefone. Nascido no Rio Grande do Norte, hoje mora em Recife, de onde transmite o seu programa de rádio para grande parte do território brasileiro, através da Estação Sat.

O programa é ao vivo e está nos rádios de segunda a sábado, começando às 16h e tendo 3 horas de duração, horário recentemente mudado e reduzido para 1 hora, começando as 17h.


Ele não revela sua identidade, apesar de ter deixado escapar uma foto sua caracterizado de matuto. Segundo ele, a repórter fotográfica da revista fez uma "fuleragem" e mostrou-lhe a foto de uma maneira, mas a publicou de outra.

Mução tem 3 CDs de pegadinhas lançados, que fazem grande sucesso no Nordeste. Mução e sua equipe, recentemente, foram à Alemanha cobrir a Copa do Mundo e viajou por diversas cidades do país europeu, chegando também à França.

Mução teve uma participação no programa do Faustão há alguns anos atrás, onde, caracterizado com suas roupas e trejeitos, fez todos divertirem-se com sua bicicleta e tocando o Hino do Flamengo.

Um excelente e barato software para organizar seus livros, CDs, jogos, etc.

Descobri um excelente software para organizar livros, CD’s, jogos, mp3, DVDs, etc.

Tenho uma biblioteca bastante grande, com livros sobre vários assuntos, em diferentes línguas. Comprei por 26 dólares (menos de 50 Reais) o sofware Book Colector.

É fantástico, apesar de simples. Você simplesmente preenche o numero ISBN do livro (ISBN é um numero de identificaçao obrigatorio em qualquer livro atualmente, quer dizer International Standard Book Number). É encontrado normalmente na contracapa. Com base no ISBN, o software através da Internet preenche todos os dados do livro, incluindo a capa, autor, título, número de páginas, editor, etc . Veja abaixo telas do programa, com todos os detalhes dos livros.






O programa é desenvolvido na Holanda, pela Collectorz.com, pessoal extremamente sério - veja no site deles as instalações modernas porém simples.
Se você tem seus livros distribuídos em várias prateleiras, basta numerá-las e colocar na ficha de cada livro a localização (LOCATION) com o numero da prateleira, para facilitar encontra-lo.

Note que para cada tipo de coleçào eles têm um programa específico, o que faz sentido - CD's precisam ter informações diferentes de livros, DVD, até fotos eles têm um software específico.

Dê uma olhada no site deles, vale a pena, e se desejar compre um dos softwares, pagando com cartão de crédito - você faz o download na hora, e já pode usar o sofware. Estou com ele há alguns meses, e funciona muito bem, facilitando organizar e achar qualquer livro, ou CD - no meu caso comprei o programa de livros e o de CDs.

A matança americana no Afeganistão

A partir dos relatórios secretos vazados por WikiLeaks

EUA: o programa de “assassinatos seletivos”


A Força-tarefa 373, no Afeganistão

19/8/2010, Pratap Chatterjee, TomDispatch [1]

Pratap Chatterjee recomenda que os interessados em conhecer o conteúdo dos arquivos WikiLeaks Afghan War Diary visitem o blog DiaryDig [1], para entender melhor aquele banco de dados e facilitar a pesquisa. O autor recebe e-mails sobre problemas relacionados à leitura daqueles arquivos em pchatterjee@igc.org.

“Localizar, deter, eliminar e impedir que recomece” [ing. “Find, fix, finish, and follow-up”] é como o Pentágono descreve a missão das equipes militares clandestinas que operam no Afeganistão na perseguição de todos os que se suspeite que sejam membros dos Talibã ou da al-Qaeda, onde quer que estejam. Outros falam de operações de “caça humana”, e de equipes cuja missão é “capturar/matar”.

Seja qual for a terminologia, os detalhes de dúzias dessas operações – e de como deram errado repetidas vezes – foram afinal revelados pela primeira vez, na massa de documentos secretos, dos militares e da inteligência dos EUA, que a página Wikileaks [2] vazou em julho, e que foi objeto de uma tempestade de protestos oficiais.

Agentes de um tipo de guerra clandestina que os EUA praticam cada dia mais amplamente, essas equipes militares fazem sempre muito mais inimigos que amigos e destroem todo o sentimento de boa-vontade em relação aos EUA que resulte dos projetos de reconstrução e ajuda econômica.

Quando Danny Hall e Gordon Phillips, respectivamente diretores civil e militar da equipe norte-americana que trabalha na reconstrução, na província de Nangarhar, Afeganistão, chegaram para uma reunião com Gul Agha Sherzai, governador local, em meados de junho de 2007, sabiam que tinham muito o que explicar e do que pedir desculpas. Caberia a Philips explicar por que uma equipe militar clandestina norte-americana de “capturar/matar”, designada como “Força-tarefa [ing. task force] 373”, à caça de Qari Ur-Rahman, suposto comandante Talibã, codinome “Carbon”, aparecera de repente, a bordo de um helicóptero armado AC-130 Spectre, e matara sete oficiais da polícia afegã, no meio da noite.

O incidente mostra claramente o conflito absoluto entre duas doutrinas que regem a guerra dos EUA no Afeganistão: de um lado, a doutrina da contraguerrilha [ing. counterinsurgency], que visa a “proteger a população”; de outro lado, a doutrina do contraterrorismo, que visa a exterminar terroristas e supostos terroristas. Apesar de o governo Obama ter-se empenhado, nos discursos, a favor da doutrina da contraguerrilha, o contraterrorismo foi, é e continua a ser a principal doutrina que orienta sua [de Obama] guerra no Afeganistão.

Para Hall, funcionário do Serviço Diplomático, que deixara há menos de dois meses um posto em Londres, o serviço associado aos militares provou-se muito mais difícil do que havia esperado. Em artigo publicado na revista Foreign Service Journal poucos meses antes daquela reunião, Hall escrevera, “Sentia-me como se nunca soubesse, de fato, o que estava acontecendo, onde eu deveria estar, o que deveria fazer, qual o meu papel; de fato, sem nem saber se havia algum papel para mim. Para piorar, eu não falava nem a língua pashtun nem a língua militar, as duas únicas que circulavam por ali.”

Para Phillips, a situação não era menos espinhosa. Um mês antes, entregara pessoalmente os pagamentos solatia – indenização, prevista na legislação militar, paga no caso de morte de civis provocada por erro das Forças norte-americanas – em presença do governador Sherzai, ao mesmo tempo em que condenara o ato de um homem-bomba Talibã que matara 19 civis, com o que se deu por encerrado o incidente. “Vimos agora como convidados à sua casa”, disse Phillips aos parentes dos mortos, “convidados para ajudar a reconstruir, com melhores condições de segurança e governança, a sua província de Nangarhar, para oferecer-lhes vida melhor e futuro mais luminoso, aos senhores e seus filhos. Hoje, choro com os senhores a morte de seus entes queridos.”

Hall e Phillips tinham sob sua responsabilidade um portfólio de 33 projetos ativos de reconstrução coordenados pelos EUA, no valor total de $11 milhões, em Nangarhar, de construção de estradas, fornecimento de equipamento escolar e um programa agrícola orientado para a exportação, pela província, de frutas e legumes.

Apesar disso, a missão da “equipe de reconstrução provincial” de Hall e Phillips (constituída de especialistas civis, funcionários do Departamento do Estado e soldados) parecia estar em conflito direto com a equipe de operações especiais encarregada dos serviços de “capturar/matar” (Seals da Marinha, Rangers do Exército e os “Boinas Verdes”, associados a agentes da Divisão de Atividades Especiais da CIA), cujo trabalho era caçar afegãos suspeitos de serem terroristas e líderes guerrilheiros. Essa equipe deixava uma trilha de cadáveres de civis e de ódio contra os norte-americanos, por onde passasse.

Detalhes de algumas das missões da Força-tarefa 373 vieram a público, pela primeira vez, como resultado da divulgação de mais de 76 mil relatórios de incidentes, vazados pela página Wikileaks – que recebe e divulga pela internet, material que lhe seja enviado para divulgação sem identificar fontes. – Alguns daqueles documentos foram analisados pelos jornais Guardian [3] e New York Times e pela revista Der Spiegel. E relatório completo de todas as depredações e assassinatos praticados pela Força-tarefa 373 pode ainda vir a público.

Simultaneamente, o governo Obama recusa-se a comentar as missões de assassinatos autorizados, que continuam em andamento no Afeganistão e no Paquistão. Pode-se, contudo, desde já, extrair, da leitura cuidadosa dos documentos já vazados pela página WikiLeaks, uma breve história daquela força-tarefa, que se pode complementar com o que já se sabia, de relatórios não-secretos da atividade do exército dos EUA no Afeganistão.

Segundo os dados que se leem na página Wikileaks, havia 2.058 nomes, numa lista secreta chamada “Joint Prioritized Effects List” (JPEL), de alvos para “capturar/matar” no Afeganistão. Em dezembro de 2009, havia um total de 757 prisioneiros – provavelmente nomes que aparecem naquela lista secreta – na Bagram Theater Internment Facility (BTIF), prisão norte-americana incluída no complexo conhecido como “Base Aérea de Bagram”.

Operações “capturar/matar”

A ideia de equipes “mistas”, formadas de membros de diferentes ramos da organização militar, em colaboração com membros da CIA, foi concebida em 1980, depois da desastrada Operation Eagle Claw [Operação Garra de Águia], quando Força Aérea, Exército e Marinha uniram-se numa muito mal planejada e mal-sucedida operação para resgatar reféns norte-americanos no Irã, com a ajuda da CIA. Morreram oito soldados, quando dois helicópteros colidiram sobre o deserto iraniano. Depois, uma comissão de alto nível, de seis membros, sob a coordenação do almirante James L. Holloway III recomendou que se criasse um comando para operações especiais conjuntas [ing. Joint Special Forces], forças armadas e CIA, de modo a garantir melhor coordenação de planejamento e execução nas operações futuras.

Depois do 11/9, o processo foi acelerado. Naquele mês, uma equipe da CIA chamada “Quebra-queixo” [ing. Jawbreaker] partiu para o Afeganistão, para planejar no local a invasão liderada pelos EUA. Pouco depois, uma equipe de Boinas Verdes, do Exército, criou a Força-tarefa Dagger, com idêntico objetivo. Apesar da rivalidade inicial entre os comandantes das duas equipes, acabaram por integrar-se num único grupo.

A primeira equipe clandestina “mista” da qual participaram a CIA e várias forças especiais militares, para operações no Afeganistão foi a Força-tarefa 5, para a missão de capturar ou matar “alvos de alto valor”, como Osama bin Laden e outros altos comandantes da al-Qaeda, e Mullah Mohammed Omar, chefe dos Talibã. Uma organização gêmea, criada para operar no Iraque, recebeu o nome de Força-tarefa 20. As duas acabaram por unir-se e constituíram a Força-tarefa 121, comandada pelo general General John Abizaid, então comandante do Comando Central dos EUA.

Em livro a ser lançado ainda nesse mês de setembro de 2010 – Operation Darkheart [Operação Coração Escuro], o tenente-coronel Anthony Shaffer narra as atividades dessa Força-tarefa 121 em 2003, quando o autor foi membro de uma subequipe chamada Jedi Knights [Cavaleiros Jedi]. Trabalhando sob o codinome Major Christopher Stryker, Shaffer participou de operações conduzidas pela Agência de Inteligência da Defesa (equivalente militar da CIA), fora da base aérea de Bagram.

Numa noite de outubro, Shaffer desceu de um helicóptero MH-47 Chinook sobre uma vila próxima de Asadabad, na província de Kunar, para integrar-se a uma equipe “mista”, composta de Rangers do Exército (divisão das forças especiais) e soldados da 10ª Divisão de Montanhas. A missão: capturar um dos subcomandantes do grupo de Gulbuddin Hekmatyar, conhecido senhor-da-guerra aliado dos Talibã. A missão fora organizada a partir de informações oferecidas pela CIA.

Não foi fácil. “O trabalho daquela equipe deu certo, mas só enquanto puderam atacar o coração dos Talibã e um de seus paraísos seguros do outro lado da fronteira do Paquistão. Por um momento, Shaffer anteviu o que poderia ser a vitória dos EUA, naquela guerra” – lê-se no material de divulgação do livro. “Mas, então, os altos escalões militares intrometeram-se na operação. A política à qual servem as altas patentes militares não era nem realista nem racional. Shaffer e sua equipe foram obrigados a parar e a assistir, sentados, o crescimento da guerrilha – bem ali, do outro lado da fronteira do Paquistão.”

Quase 25 anos depois da Operação Garra de Águia, Shaffer, que foi membro do grupo Able Danger que caçou a Al-Qaeda nos anos 1990s, descreve a dura, amarga disputa, a guerra interna, subterrânea, entre as equipes da CIA e das Forças Especiais militares, sobre como gerir o sombrio mundo dos assassinos norte-americanos autorizados a matar clandestinamente no Afeganistão e no Paquistão.

A Força-tarefa 373

Avancemos fast forward, até 2007, ano da primeira referência à Força-tarefa 373, nos documentos vazados por Wikileaks.

Não se sabe se o número que identifica essa Força-tarefa teria algum outro significado; por coincidência ou não, o capítulo nº 373 do “Código 10 dos EUA” – a lei aprovada no Congresso, que estabelece as competências dos militares norte-americanos – é o capítulo que estabelece a competência do secretário da Defesa para “autorizar qualquer empregado civil” que preste serviços ao exército, a “executar mandatos judiciais e a efetuar prisões sem mandato”. Seja ou não essa a inspiração para o nome que recebeu a Força-tarefa 373, tudo que diga respeito a ela foi absoluta e totalmente classificado como material de alta segurança e protegido por segredo total. Foi assim e ainda é assim. Apenas que, hoje, depois de Wikileaks ter vazado aqueles documentos, já se sabe, com certeza, que o grupo existe, ou, pelo menos, que existiu.

Analistas dizem que a Força-tarefa 373 complementa a Força-tarefa 121 usando “forças brancas”, como os Rangers e os Boinas Verdes, diferentes da força mais secreta Delta Force. A Força-tarefa 373, conforme o pouco que se sabe, é comandada a partir de três bases militares – em Cabul, capital do Afeganistão; em Candahar, segunda maior cidade do país; e na cidade de Khost, próxima das áreas tribais no Paquistão. É possível que algumas de suas operações partam de Camp Marmal, base alemã ao norte, na cidade de Mazar-e-Sharif. Fontes familiarizadas com o programa dizem que a Força-tarefa tem seus próprios helicópteros e aviões, dentre os quais os helicópteros armados AC-130 Spectre, usados exclusivamente por ela.

Tudo leva a crer que tenha sido comandada pelo general-brigadeiro Raymond Palumbo, e que esteja baseada no Comando Especial de Operações Especiais em Fort Bragg, Carolina do Norte. Mas Palumbo deixou Fort Bragg em meados de julho, logo depois de o general Stanley McChrystal ser substituído por Obama no comando geral da guerra no Afeganistão. E não se conhece o nome do novo comandante da Força-tarefa 373.

Em mais de 100 relatórios de eventos que se leem nos arquivos Wikileaks, descreve-se a Força-tarefa 373 como ativa em numerosas operações de “capturar/matar”, sobretudo nas províncias de Khost, Paktika e Nangarhar, todas na região da fronteira com o Paquistão, nas Áreas Tribais sob Administração Federal. Há alguns relatórios de capturas bem-sucedidas; outros, de eventos em que morreram oficiais da polícia afegã e até crianças pequenas, que enfureceram os moradores da região e levaram a atos de protesto e a alguns ataques contra as forças militares lideradas pelos EUA.

Em abril de 2007, David Adams, comandante da equipe de reconstrução provincial da província de Khost, foi convocado para uma reunião com os anciãos da vila de Gurbuz, na província de Khost, indignados com as operações conduzidas, naquelas comunidades, pela Força-tarefa 373. O relatório que se pode ler nos arquivos vazados por Wikileaks não diz o que a Força-tarefa 373 havia feito, que tanto indignou os anciãos de Gurbuz. Mas o governador da província de Khost, Arsala Jamal, já havia protestado, em dezembro de 2006, contra das operações das Forças Especiais em sua província, que haviam deixado vários civis mortos. Naquela ocasião, foram mortos cinco civis, em ataque contra a vila de Darnami.

“Essa é nossa terra”, dissera então o governador. “Há tempos venho convidando com insistência: temos de sentar juntos e discutir. Nós conhecemos nossos irmãos afegãos, conhecemos nossa cultura. Essas operações não foram planejadas para criar novos inimigos. Temos meios para fazer diminuir o número de operações erradas.”

Como Adams lembraria depois, em coluna publicada no Wall Street Journal, “O número sempre crescente de ataques contra famílias afegãs afastou de nós a maioria dos anciãos das áreas tribais de Khost.”

Dia 12/6/2007, Danny Hall e Gordon Philips, trabalhando na província de Nangarhar, a nordeste e em área próxima de Khost, foi convocado para uma reunião como governador Sherzai, para dar explicações sobre a morte daqueles sete oficiais de polícia afegãos, resultado de uma operação da Força-tarefa 373. Como Jamal, Sherzai declarou, diretamente a Hall e Philips, que “considera absolutamente indispensável melhor coordenação (…)” e que “de modo algum deseja ver repetidos os mesmos erros.”

Menos de uma semana depois, a equipe da Força-tarefa 373 atacou, com cinco mísseis, uma construção em Nangar Khel, na província de Paktika, ao sul de Khost, em atentado para matar Abu Laith al-Libi, líbio, suposto membro da al-Qaeda. Quando os soldados dos EUA chegaram à vila, descobriram que a Força-tarefa 373 havia destruído uma madrassa (escola islâmica), matado seis crianças e ferido gravemente uma sétima, a qual, apesar dos esforços de uma equipe médico-militar dos EUA, morreu pouco depois. (No final de janeiro de 2008, circularam notícias de que al-Libi teria sido morto por um míssil Hellfire lançado de um avião-robô Predator, numa vila próxima de Mir Ali, no Waziristão Norte, no Paquistão.)

Akram Khapalwak, governador da província de Paktika, reuniu-se com militares dos EUA, um dia depois do ataque à madrassa. Diferente dos outros governadores provinciais em Khost e Nangarhar, Khapalwak aceitou apoiar os “itens para discussão” preparados para que a Força-tarefa 373 explicasse – à mídia – o incidente. Segundo os relatórios sobre esse incidente que se leem em Wikileaks, o governador então “reforçou os comentários sobre a tragédia que vitimara as crianças; e ainda acrescentou que a tragédia poderia ter sido evitada, se os moradores da vila tivessem informado sobre a presença de guerrilheiros na área.”

Apesar de tudo, nenhuma espécie de “itens para discussão”, não importa quem os tenha repetido para os jornais, conseguiu fazer diminuir o número de civis mortos, enquanto continuaram os raids da Força-tarefa 373.

Dia 4/10/2007, a Força-tarefa 373 despejou 500 bombas Paveway de 500 pound sobre uma casa na vila de Laswanday, a menos de 10 km de Nangar Khel na província de Paktika (a mesma província onde já haviam sido mortas sete crianças). Dessa vez, morreram quatro homens, uma mulher e uma menina – civis – além de uma mula, um cachorro e várias galinhas. Foram feridos uma dúzia de soldados dos EUA, os quais relataram que “nenhum inimigo foi capturado ou morto”.

A história afegã que ninguém conta

Nem todos os raids resultaram em mortes de civis. Os relatórios militares vazados por Wikileaks sugerem que aquela Força-tarefa 373 teve melhor sorte ao capturar “alvos” vivos e sem mortes de civis, dia 14/12/2007. O 503º Regimento (aerotransportado) da Infantaria foi convocado para dar cobertura à Força-tarefa 373 numa incursão à província de Paktika, à caça de Bitonai e Nadr, dois supostos líderes da Al-Qaeda cujos nomes aparecem na lista JPEL. A operação aconteceu nos arredores da cidade de Orgun, próxima à Base Avançada de Operações dos EUA Harriman [ing. U.S. Forward Operating Base (FOB) Harriman]. Localizada a 7 mil pés de altitude e cercada por montanhas, vivem nessa base cerca de 300 soldados e uma pequena equipe da CIA, e a base é frequentemente visitada por barulhentos helicópteros e cáfilas de sonolentos camelos que pertencem aos pashtuns locais.

Uma equipe de assalto aéreo (codinome “Operation Spartan”) desceu sobre o local onde se supunha que Bitonai and Nadr vivessem, mas não os encontrou. Um informante afegão disse aos soldados das Forças Especiais que suspeitava de que os procurados estivessem escondidos a poucas milhas daquele local; a Força-tarefa 373 encontrou-os e prendeu-os, além de outros 33 homens que os acompanhavam; todos foram levados para a Base Avançada Harriman para interrogatório e possível transferência para a prisão na Base de Bagram.

Mas quando a Força-tarefa 373 estava no comando da operação, todos os civis, pelo que se vê, corriam risco. E, embora houvesse soldados norte-americanos ansiosos por relatar o que viam – como o demonstram os documentos vazados por Wikileaks –, jamais se ouvem as vozes afegãs e a versão afegã dos acontecimentos. Por exemplo, numa 2ª-feira à noite, em meados de novembro de 2009, a Força-tarefa 373 executou operação para prender ou matar um suposto guerrilheiro (codinome “Ballentine”) na província de Ghazni. Um relatório tenso informa que foram mortos uma mulher afegã e quatro “insurgentes”. Na manhã seguinte, uma Força-tarefa “White Eagle” [Águia Branca], unidade de soldados poloneses sob o comando da 82ª Divisão (aerotransportada) dos EUA, relatou que cerca de 80 pessoas reuniram-se em ato de protesto contra as mort es. A janela de um dos veículos blindados foi danificada pelos manifestantes afegãos, mas não há, nos relatórios, qualquer opinião que tivesse sido colhida entre os afegãos, sobre o mesmo incidente.

Ironicamente, um dos últimos incidentes em que houve participação da Força-tarefa 373, dos que se leem nos documentos de Wikileaks, foi praticamente reprise da Operação Garra de Águia original, desastre que levou à criação das equipes “conjuntas” de capturar/matar. Na madrugada de 26/10/2009, dois helicópteros norte-americanos, um UH-1 Huey e um AH-1 Cobra, colidiram perto da cidade de Garmsir, na província de Helmand, ao sul; quatro fuzileiros da Marinha [ing. Marines] morreram.

Aliada muito próxima da Força-tarefa 373 é a unidade britânica Força-tarefa 42, reunião de comandos do Serviço Especial da Força Aérea, Serviço Especial Embarcado e Regimento Especial de Reconhecimento, que operam na província de Helmand e são mencionados em vários relatórios dos que se leem nos documentos Wikileaks.

Caça humana

“Capturar/matar” é elemento chave de uma nova ‘doutrina’ militar desenvolvida pelo comando das Forças Especiais fixada depois do fracasso da “Operação Garra de Águia”. Sob a liderança do general Bryan D. Brown, que assumiu o Comando das Forças Especiais em setembro de 2003, a ‘doutrina’ passou a ser conhecida como “4F” [da expressão “find, fix, finish, and follow-up”, em português, aproximadamente “Localizar, deter, eliminar e impedir que recomece”], mensagem eufemística [4], mas fácil de entender, sobre o modo prescrito para lidar com os supostos terroristas e guerrilheiros.

Nos anos Bush-Rumsfeld (secretário da Defesa), Brown começou a organizar equipes de “forças especiais ‘mistas’” para essas missões 4F fora das zonas de guerra. Receberam o nome anódino de “Elementos de Ligação Militar” [ing. Military Liaison Elements]. Os repórteres Scott Shane e Thom Shanker, do New York Times, relataram pelo menos um assassinato cometido por essa equipe no Paraguai (de um assaltante armado, cujo nome não aparecia em nenhuma lista de ‘procurados’). A equipe norte-americana, cuja presença no Paraguai não fora comunicada ao embaixador dos EUA, recebeu ordens para deixar imediatamente o país.

“A exigência número um é defender a pátria. Às vezes, há ordens para localizar e capturar ou matar em todo o mundo terroristas que tentem agredir essa nação,” disse Brown à Comissão das Forças Armadas da Câmara de Deputados, em março de 2006. “Nossos parceiros estrangeiros (…) são nações bem-intencionadas mas incapazes, que querem ajuda para construir suas próprias competências para defender suas fronteiras e eliminar o terrorismo em seus países ou regiões.” Em abril de 2007, o presidente Bush, como prêmio ao trabalho de planejamento de Brown, criou um cargo especial de alto nível no Pentágono, de secretário-assistente de Defesa para operações e conflitos de baixa-intensidade e competências interdependentes.

Michael G. Vickers, que se tornou conhecido no livro e filme Charlie Wilson’s War (2007, port. Jogos do poder [5]), como arquiteto das operações secretas de fornecimento de armas e dinheiro para os mujaheedin na campanha da CIA contra o Afeganistão soviético nos anos 1980s, foi indicado para aquele cargo. Sob sua liderança, reformularam-se as linhas de atuação, em de zembro de 2008, para “desenvolver capacidades para ampliar o alcance dos EUA em áreas nas quais não sejam admitidos, para operar com e mediante forças estrangeiras nativas, ou para conduzir operações de baixa visibilidade”. E assim o programa “capturar/matar” foi institucionalizado em Washington.

“A guerra ao terror é fundamentalmente guerra indireta (…) É guerra de parceiros (…) mas é também em certo sentido guerra nas sombras, seja pela sensibilidade política seja pelo problema de localizar terroristas”, disse Vickers ao Washington Post no final de 2007. “Porisso a CIA é tão importante (…) e nossas forças para Operações Especiais desempenham grande papel.”

A partida de George W. Bush da Casa Branca não diminuiu o entusiasmo geral pelas operações 4F. Aconteceu o contrário: a fórmula 4F foi maquiada, à típica maneira dos militares, e é hoje “find, fix, finish, exploit, and analyze” ou F3EA [port. “Localizar, deter, eliminar, impedir que recomece e análise”], e o presidente Obama, em todos os sentidos, ampliou o alcance das operações militares ‘mistas’ e dos programas “capturar/matar” em todo o mundo – ampliação que acompanha perfeitamente a escalada dos ataques por aviões-robôs comandados pela CIA.

Há bem poucos que apoiem publicamente a ‘doutrina’ do “capturar/matar”. Mas o professor Austin Long, da Columbia University, abraçou a causa dos projetos F3EA. Observando semelhanças entre um programa de assassinatos “Phoenix”, responsável por dezenas de milhares de assassinatos durante a guerra do Vietnã (programa que o professor defende), o professor Austin recomendou que se reduzam “as pegadas” que os militares estão deixando no Afeganistão; para isso, sugere que as Forças Especiais sejam reduzidas para no máximo 13 mil soldados, que se concentrariam exclusivamente em operações de contraterrorismo, especificamente em assassinatos. “Phoenix sugere que a coordenação da inteligência e a integração da inteligência com um braço armado pode ter efeito poderoso inclusive contra grupos extremamente grandes e armados” – escreveram Long e seu co-autor William Rose nau, em monografia publicada em julho de 2009 pelo Rand Institute, intitulado “The Phoenix Program and Contemporary Counterinsurgency” [port. O Programa Phoenix e a contraguerrilha contemporânea].

E há outros, até mais agressivamente empenhados. O tenente George Crawford, que se aposentou no cargo de “estrategista chefe” do Comando das Forças Especiais e passou a trabalhar para a Archimedes Global, Inc., empresa de consultoria em Washington, sugeriu que a sigla F3EA fosse substituída por apenas duas palavras: “Caça humana” [ing. Manhunting]. Em monografia publicada pela Joint Special Operations University [aprox. “Universidade das Operações Especiais Mistas] em setembro de 2009, sob o título “Caça humana: Organização de contrarrede para guerra irregular” [orig. “Manhunting: Counter-Network Organization for Irregular Warfare]” Crawford ensina “como dar conta da missão de desenvolver habilidades para caça humana, entendida como habilidade relevante para a segurança na cional dos EUA.”

“Estamos matando ‘os caras’ errados”

A estranha evolução desses conceitos, a criação de equipes cada vez mais globais de ‘caçadores-assassinos’, cujo trabalho em tempo integral, sete dias por semana é assassinar, e os muitos civis que essas equipes “de Forças Especiais mistas” assassinam regularmente em suas ações contra ‘alvos’ que ninguém sabe quem define têm perturbado até vários especialistas militares.

Por exemplo, Christopher Lamb, atual diretor do Instituto de Estudos Nacionais Estratégicos na Universidade de Defesa Nacional [ing. Institute for National Strategic Studies at the National Defense University, e Martin Cinnamond, ex-funcionário da ONU que serviu no Afeganistão, assinaram estudo para a edição da primavera-2010 da revista Joint Forces Quarterly no qual escreveram: “Há ampla concordância em torno da ideia de que a abordagem indireta da contraguerrilha deve preceder quaisquer operações de matar/capturar. Mas tem ocorrido exatamente o contrário.”

Outros militares têm dito que a abordagem do caçador-matador é precária e contraproducente. “Para mim, a Força-tarefa 373 e outras forças-tarefas assemelhadas tem alguma utilidade, porque mantêm o inimigo sob pressão. Mas essa abordagem não vai às raízes do conflito, de por que a população civil apoia os Talibã,” disse Matthew Hoh, ex-empresário contratado pela Marinha e pelo Departamento de Estado, que renunciou em setembro ao cargo que exercia no governo. Hoh, que várias vezes trabalhou com a Força-tarefa 373, além de outros programas de “capturar/matar” no Afeganistão e no Iraque, acrescenta: “Estamos matando ‘os caras’ errados, gente de nível intermediário no comando dos Talibã, que só nos veem como inimigos porque estamos lá, atacando-os nas terras deles. Se não estivéssemos lá, eles não estariam fazendo guerra contra os EUA.”

A Força-tarefa 373 talvez seja um pesadelo para os afegãos. Para o resto do mundo – agora que Wikileaks nos deu acesso àqueles documentos –, pode ser vista como evidência de desastres políticos muito mais profundos. Em todos os casos, a pergunta que vem à cabeça de quem saiba da atividade dessa Força-tarefa 373 é tão horrível quanto básica: os EUA estarão, mesmo, a caminho de converter-se em alguma espécie de Caçadores de Homens & Cia., empresa global?

[1] DiaryDig.org é um blog independente criado para facilitar a pesquisa nos arquivos do Afghan War Diaries vazados pela página Wikileaks dia 25/7/2010. São mais de 76 mil relatórios (e outros serão divulgados em breve) de cinco anos (2004-2009) da guerra do Afeganistão. A partir de DiaryDig.org leem-se todos os documentos vazados, organizados por tipo, categoria, data, número de mortos e várias outras classificações. A partir da página de qquer documento, clica-se no texto verde sublinhado para ter acesso a outros documentos que contenham a mesma expressão ou a mesma frase; já há várias conexões criadas entre termos considerados mais importantes, e que poderiam passar despercebidas por leitor menos habituado àquele tipo de discurso. Esperamos que essa ferramenta seja útil a analistas, jornalistas e ao público em geral interessados em conhecer a atuação dos EUA na guerra do Afeganistão e dar bom uso a esse raro e importante banco de dados que WikiLeaks distribuiu. Caso você deseje apoiar esse trabalho, faça uma doação em dinheiro para a página Wikileaks ou para o Fundo criado para pagar os advogados que defendem o soldado Bradley Manning (em http://www.diarydig.org/).


[2] Ver, sobre WikiLeaks, o blog “Redecastorphoto”, em http://redecastorphoto.blogspot.com/2010/08/guerra-cibernetica-contra-wikileaks.html e o blog “Outras Palavras”, em http://www.ponto.outraspalavras.net/2010/07/27/wikileaks-e-os-arquivos-secretos-da-guerra-afega/, dentre outros.


[3] Para conhecer a história do vazamento pela página WikiLeaks e a parte do material que foi analisado na primeira publicação, pelo jornal Guardian, ver o blog “Outras Palavras”, 27/7/2010, em http://www.ponto.outraspalavras.net/category/afeganistao/


[4] Há aqui um traço semântico de tradução impossível, em que ficam fortemente sugeridas várias expressões de baixo calão (‘f-words’, ‘4 letters-words’, ‘fuck-words’ dentre outras).


[5] Sinopse e ficha técnica em http://www.imdb.com/title/tt0472062/


URL to article: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/a-matanca-americana-no-afeganistao.html


URLs in this post:


[1] TomDispatch : http://www.tomdispatch.com/post/175287/tomgram:_pratap_chatterjee,_manhunters,_inc./

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A melhor leitura do ano – o suspense da Trilogia do Millenium

Veja ao lado a lista de mais vendidos da Amazon. O 4º , 6º e 7º lugares chamam a atenção, por serem TODOS DO MESMO AUTOR.


Além disso, veja há quantos dias estes livros estão na lista – o primeiro há 246 dias, o segundo há 433 dias (mais de uma ano! E na Amazon!). O terceiro há 184 dias.

Esta coleção já vendeu mais de 21 milhões de cópias em todo o mundo, inclusive no Brasil. É um fenômeno de vendas, e agora que se aproxima o feriado de Setembro, uma leitura ideal para curtir durante os feriados.

O suspense é bem construido, os personagens têm consistência, e apesar de serem livros onde há muitos mistérios que prendem o leitor, toca em todos os grandes temas do século 21 – internet, hackers, violencia sexual, corrupção, imprensa, ética na midia, etc.

A história se passa em torno da jovem Lizbeth Salander, magrinha, rebelde, porém brilhante – e as pessoas não sabem disso, pois ela simplesmente se recusa a falar qualquer coisa com alguém que tenha autoridade – médicos, psiquiatras, policiais, etc.



Ao longo do livro voce vai entender porque. Ela usa piercings, roupas de couro, mora em Estocolmo (toda a história se passa na Suécia). Aparentemente é frágil, mas quem se mete no seu caminho sofre sérias consequencias. É a heroina da história, e você certamente vai torcer por ela. Seu companheiro de investigações é o jornalista Mikael Blomkvist, da revista Millenium (daí o nome da trilogia. Refere-se à revista, e não a qualquer previsão Maia, ou de Nostradamus. )





Não vou estragar o prazer da leitura contando o enredo, mas garanto que vale a pena. Se quiser testar, compre apenas o primeiro volume, que no Brasil saiu com o titulo de “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”.


Mas já vou avisando – se terminar de ler o primeiro volume longe de uma livraria, ou altas horas da noite, prepare-se para correr no dia seguinte em busca dos outros dois livros, “A Menina Que Brincava Com Fogo” e “A Rainha Do Castelo De Ar”.



Se você desejar comprar a tradução para inglês, a Livraria Cultura tem para pronta entrega em formato de bolso, por 23 Reais, fácil de carregar. Basta clicar nos títulos.






O autor, Stieg Larsson, faleceu antes da publicaçao dos livros, infelizmente não pôde testemunhar o sucesso de seu trabalho.

Já existem três filmes maravilhosamente fiéis aos livros , filmados na Suécia, nos locais descritos nos livros. Veja abaixo os trailers dos filmes.









Você pode fazer o download dos filmes usando o software uTorrent.

Para baixar o uTorrent, clique no link abaixo e faça o download, em seguida instale.

http://www.utorrent.com/

Os filmes você baixa usando este software nos seguintes links (atenção – todos são falados em sueco, mas a boa noticia é que já existem legendas em ingles e português,  mais adiante digo como baixá-las)

http://btjunkie.org/torrent/The-Girl-With-The-Dragon-Tattoo-2009-DVD-Rip-X/7145b759bfd9fb194fe95efe3c22db52aaae5ace9128

http://btjunkie.org/torrent/THE-GIRL-WITH-THE-DRAGON-TATTOO-2009-DVD-Rip-Xvid-8-Subs-St-5070987-TPB2/498372aa32392911cff1936ba445d7364fed3bfdb2c7#files

Para ver as legendas, voce tem de ter instalado o pequeno software VobSub, disponível no link abaixo

http://www.softpedia.com/get/Multimedia/Video/Codec-Packs-Video-Codecs/VobSub.shtml

Atenção: Para funcionar, a legenda deve estar dentro do mesmo folder que o filme, e deve ter EXATAMENTE o mesmo nome do filme, apenas com o final .srt em lugar de .avi.
Por exemplo, o primeiro filme terá o nome Thegirlwiththegoldentatoo.avi
Neste caso obrigatoriamente a legenda tem de chamar-se Thegirlwiththegoldentatoo.srt
Você pode mudar os nomes originais, contanto que mantenha-os iguais no formato .avi e na legenda .srt

A legenda do primeiro filme voce baixa no link abaixo

http://www.opensubtitles.org/en/search/sublanguageid-all/idmovie-45901

O segundo filme está nos links abaixo (torrent e legendas)

http://btjunkie.org/torrent/The-Girl-Who-Played-With-Fire-2009-DVDRip-XviD-STiEG-ENG-SUBS/435872267a579b19247f768a18424b24c210f35cf367

http://btjunkie.org/torrent/The-Girl-Who-Played-With-Fire-2009-V2-DVDRip-DivX-English-Subbed-Filmikz/5736a17104e0a8df27dd4b9f84158efe5f0159426c2e#files

http://www.opensubtitles.org/en/search/sublanguageid-all/idmovie-51279 (Legendas)

Finalmente, o terceiro filme está nos links abaixo

http://btjunkie.org/torrent/The-Girl-Who-Kicked-the-Hornets-Nest-2009-DVDRip-XviD-GFW/419609be5db49d5a0d31d9ff0f68043456206ce578f4
http://btjunkie.org/torrent/THE-GIRL-WHO-KICKED-THE-HORNETS-NEST-2010-DVD-Rip-Xvid-StB/43585486cac4712eac2250500fb5f18f80ab14203d79

http://btjunkie.org/torrent/The-Girl-Who-Kicked-the-Hornets-Nest-Eng-Subs/419668384cdb477c9dcfe902c050d4fc174bf6cfcebf

http://www.opensubtitles.org/en/search/imdbid-1343097/sublanguageid-all (Legendas)

Boa leitura e divirta-se com o tres excelentes filmes!

Mattinata, de Leoncavallo

Mattinata foi composta por Ruggiero Leoncavallo para ser cantada por Enrico Caruso, em 1904.
A primeira gravação da música para a HMV (Gramophone Company) foi feita com o próprio compositor ao piano e Caruso interpretando.

Ruggiero Leoncavallo nasceu em 23 de Abril de 1857 e faleceu a 9 de Agosto de 1919, e compôs várias óperas, a mais conhecida delas sendo I Pagliacci, que até hoje é uma das Óperas mais famosas e mais interpretadas.

No vídeo abaixo você assiste Luciano Pavarotti interpretando esta linda música










Acompanhe a letra e a tradução abaixo


L'aurora di bianco vestita
Già l'uscio dischiude al gran sol;
Di già con le rosee sue dita
Carezza de' fiori lo stuol!
Commosso da un fremito arcano
Intorno il creato già par;
E tu non ti desti, ed invano
Mi sto qui dolente a cantar.

Metti anche tu la veste bianca
E schiudi l'uscio al tuo cantor!
Ove non sei la luce manca;
Ove tu sei nasce l'amor.

Ove non sei la luce manca;
Ove tu sei nasce l'amor.

TRADUÇÃO

De Manhã

A aurora vestida de branco
Já abre suas portas ao sol
E já com seus dedos rosados
Acaricia todas as flores!
Começa um misterioso frêmito
Em toda a volta da Criação
E tu não acordas: e em vão
Eu fico doente para cantar.

Veste também a roupa branca
E abre a porta ao teu cantor!
Onde não estás, a luz me falta:
Onde te encontras nasce o amor.

Onde não estás, a luz me falta:
Onde te encontras nasce o amor.


Uma incrível execução desta música foi gravada pelo pianista Ronnie Aldrich "E seus dois pianos" na década de 70 para a gravadora Phase4. Os "2 pianos" nunca existiram. Aldrich gravava em 28 canais, primeiro o piano da esquerda, depois o da direita, e obtinha um efeito incrível, onde você realmente ouve os dois instrumentos em stéreo. Além da tecnologia, no entanto, ele era um maravilhoso intérprete, como você pode conferir abaixo, ouvindo Mattinata interpretada por ele. Enjoy!


Homeopatia: 200 anos de polêmica

A medicina das paixões

RESUMO
Estabelecida há dois séculos, a homeopatia segue controversa, conquistando pacientes em busca de mais diálogo com médicos, mas ainda sem comprovar sua eficácia em testes científicos sistemáticos. Sob ataque de cientistas, periódicos e autoridades, a doutrina tem o apoio da OMS e de governos como o dos EUA e o do Brasil.

MARCELO LEITE
CLAUDIA COLLUCCI
ilustração ANA SARIO

A DOUTRINA MÉDICA da homeopatia defende, como sugerem as raízes gregas do nome, que a semelhança ("homeo") entre efeitos ("pathos") de uma doença e os de uma droga bastam para elegê-la como medicamento.

Se ingerir chumbo paralisa os músculos e pode levar à morte, também poderia ser um tratamento de paralisias similares. Tido como uma lei da natureza há mais de 200 anos, o princípio se encontra sob fogo cerrado da medicina convencional.

A diferença entre veneno e remédio, para homeopatas, está na dose. Em quantidades mínimas, não só o efeito desaparece como troca de sinal, por assim dizer: diluída, a substância se tornaria capaz de despertar uma ação regeneradora do organismo. Quanto maior a diluição, mais potente seria o medicamento homeopático.


DEBATE APAIXONADO

 O princípio da semelhança já é difícil de aceitar para a ciência experimental, núcleo da medicina baseada em evidências, que almeja proscrever a homeopatia. Somado ao da diluição radical, que resulta em remédios compostos só de água, configura-se como charlatanismo aos olhos do pesquisador tradicional. No Reino Unido, o debate apaixonado chegou a ponto de questionar se o governo deve continuar pagando tratamentos e pesquisas sem base científica.

Rubens Dolce Filho, presidente da Associação Paulista de Homeo-patia e professor na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), exerce tanto a alopatia como a homeopatia e não vê incompatibilidade. "Se a homeopatia fosse uma porcaria, já teria acabado 200 anos atrás. Eu não sou louco." Para ele, a homeopatia tem suas limitações, mas não é uma fraude.

"A homeopatia está entre os piores exemplos de medicina baseada na fé", contestam Michael Baum e Edzard Ernst na edição de novembro do periódico "The American Journal of Medicine". Médico e pesquisador alemão, Ernst trabalhou com homeopatia em Viena; hoje professor de medicina complementar na Universidade de Exeter e Plymouth (Reino Unido), tornou-se um de seus mais ácidos críticos.

"Esses axiomas não estão só em desalinho com fatos científicos, mas também em direta oposição a eles", diz o artigo. "Devemos manter a mente aberta para astrologia, motos-perpétuos, alquimia, abdução por aliens e visões de Elvis Presley? Não, e temos a satisfação de admitir que nossas mentes se fecharam para a homeopatia da mesma maneira."

São palavras incomuns numa publicação médica, ainda que outra prestigiada revista, "Lancet", tivesse decretado a morte da homeopatia quatro anos antes. Ernst disse coisas semelhantes num depoimento ao Parlamento britânico. A Câmara dos Comuns lançou em 2009 uma ofensiva contra a homeopatia por meio de seu Comitê de Ciência e Tecnologia. A conclusão do relatório final, publicado na internet em fevereiro, não poderia ser mais severo:

"Ao oferecer a homeopatia no NHS [Serviço Nacional de Saúde] e ao permitir que a MHRA [Agência Reguladora de Remédios e Produtos de Saúde] licencie produtos que depois aparecem nas prateleiras das farmácias, o governo corre o risco de endossar a homeopatia como sistema médico eficaz. [...] A homeopatia não deve ser financiada pelo NHS, e a MHRA deveria parar de licenciar produtos homeopáticos."

A Sociedade de Homeopatas do Reino Unido reagiu acidamente à comissão. Acusou-a de ignorar as evidências apresentadas, como um total de 74 estudos sobre a eficácia da homeopatia, 63 deles positivos para a terapêutica alternativa. O relatório parlamentar, por seu turno, acusa os homeopatas de manipulação da literatura médica, privilegiando estudos positivos para confundir o público.

"Perguntamo-nos se algum tipo de evidência demoveria médicos homeopatas de sua autoilusão", afirmam Baum e Ernst no comentário em que fecham as mentes para a doutrina, "e os desafiamos a projetar um ensaio metodologicamente sólido que, se negativo, os convença a abandonar o ramo."

"A homeopatia permaneceu como a esfinge entre os sistemas contemporâneos de medicina", já havia constatado anos antes o filósofo alemão Peter Sloterdijk (pronuncia-se "sloterdáic"), no discurso que proferiu em 1996, por ocasião do bicentenário da homeo-patia. "Um bloco errático no meio da civilização técnica, ao mesmo tempo plausível e incrível, enigmático e eficaz, uma efígie do ontem e do amanhã."


REPERTORIZAÇÃO 

O consultório de Marcus Zulian Teixeira, 52, fica no bairro paulistano de Pinheiros, a um quarteirão da Faculdade de Medicina da USP. É lá que ele se formou e hoje pesquisa e dá aulas. Exíguo e funcional, o espaço sugere tratar-se de um médico de razoável sucesso, ainda que não enriquecido.

Iniciada uma consulta, a sucessão de perguntas parece não ter fim. O paciente, no sentido mais literal da palavra, terá de dizer de que lado dorme, como anda o apetite, se tem sonolências ou se é calorento. E a dor de cabeça que o traz ali, aparece mais do lado direito ou esquerdo?

A lista crescente de sintomas alimenta um programa chamado "repertório digital de homeopatia". O computador reage a ela relacionando medicamentos adequados para cada condição, de arnica a zinco. Para a dor de cabeça destra, surgem 106 nomes na tela. Para calores, 170. O sono sobre o lado direito do corpo está associado com sete substâncias, entre elas a camomila.

O processo, conhecido como "repertorização", segue em frente, hierarquizando os sintomas segundo a intensidade, até que o homeopata se fixe no remédio único para tratar o indivíduo à sua frente -e não a doença específica que o levou ao consultório. É o início de uma terapia que pode consumir semanas, meses.

Teixeira está entre os homeopatas que escolheram lutar com as armas da medicina baseada em evidências. Depois de formar-se em agronomia e enveredar pela agricultura biodinâmica, foi estudar medicina, aos 27 anos, para tornar-se homeopata. Por seis anos frequentou a Faculdade de Medicina da USP sem mencionar a ninguém sua intenção.

Quase duas décadas depois, ministra lá a disciplina de graduação fundamentos da homeopatia. Pesquisou durante cinco anos a rinite alérgica de 54 pacientes para delimitar o efeito placebo e separá-lo da contribuição terapêutica específica de medicamentos homeopáticos, estudo que defendeu em 2009 como tese de doutorado e publicou em artigo no periódico especializado "Homeopathy".

Teixeira afirma ser possível desenvolver metodologias para realizar estudos que respeitem o princípio da individualização, ou seja, um remédio para cada paciente e seu quadro peculiar de sintomas. Isso não ocorre em testes convencionais de medicamentos, alega, pois estes têm por alvo um tratamento único em comparação com outro. Seria preciso, além disso, um estudo com a participação de muitos centros de pesquisa para conseguir recrutar uma amostra grande de pacientes. O custo subiria para a casa dos milhões de dólares, inviável para o setor marginal da homeopatia.


PLACEBO 

A homeopatia tem sim alguma eficácia, como qualquer medicamento, inócuo ou não para determinada doença, que seja testado em seres humanos. Mesmo que tomem apenas pílulas de farinha, após cair no grupo de controle de um teste clínico, algumas pessoas verão sua saúde melhorar, mostram inúmeros estudos, por acreditarem estar tomando um remédio eficaz. Mas não se obteve consenso sobre o fulcro da questão -se homeopatia ocasiona algo mais que o efeito placebo.

Se for só isso, placebo, a terapia se torna eticamente indefensável, pois prescreveria dose cavalar de logro na relação médico-paciente. Pois é justamente uma relação melhor entre eles que muitas pessoas parecem buscar na homeopatia, sucesso de público há séculos.

O alívio oferecido pela medicina complementar e alternativa, que inclui homeopatia e acupuntura, compõe desde 2006 o arsenal curativo reconhecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com sua Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, formulada pelo Ministério da Saúde em acordo com diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Em 2009, realizaram-se 326.379 consultas homeopáticas pelo SUS. O custeio da homeopatia mais que quintuplicou numa década, atingindo R$ 3,2 milhões no ano passado, com a distribuição de medicamentos a partir de 2006. Estima-se que existam no Brasil cerca de 15 mil homeopatas, 4,4% dos 340 mil médicos. No SUS, a parcela é ainda menor: 535, ou 0,2% dos 280 mil profissionais.

Nos EUA, segundo a OMS, 2,5 milhões de pessoas recorrem à homeopatia, com gasto equivalente a R$ 5 bilhões anuais. Valor similar se atribui ao mercado mundial de medicamentos homeopáticos, que tem metade da demanda na Europa (sobretudo na Alemanha e na França) e o restante dividido principalmente por EUA e Índia.

A Índia tem 400 mil homeopatas e 307 hospitais especializados nela. Na antiga metrópole, Reino Unido, restam quatro hospitais (um foi fechado em 2009). A homeopatia pode estar na mira do Parlamento, mas é a preferida da família real -príncipe Charles à frente.


ARTES DA CURA

 Em 2010, completam-se 200 anos da publicação do "Organon da Arte de Curar", obra do alemão Samuel Hahnemann (1755-1843) que estabeleceu a homeopatia. No ano que vem será festejado o bicentenário de sua monumental "Materia Medica Pura", que homeopatas cuidam de citar pelo título em latim, sem os acentos. Os primeiros artigos de Hahnemann sobre homeopatia, porém, datam de 1796.

Mesmo numa época em que a medicina convencional envenenava e sangrava pacientes, a implausibilidade dos princípios homeopáticos já chocava. Em 1842, um ano antes da morte de Hahnemann e dois após a introdução da homeopatia no Brasil, sua doutrina já era ridicularizada pelo médico e escritor americano Oliver Wendell Holmes (1809-94, pai de um célebre juiz de mesmo nome na Suprema Corte).

O médico proferiu duas conferências na Sociedade Bostoniana para Difusão do Conhecimento Útil, reunidas sob o título "Homeo-patia e seus Delírios Afins". A objeção principal se voltava contra a doutrina -depois abandonada pelos homeopatas- da "psora", algo como uma coceira primordial que estaria na origem de sete oitavos de todas as doenças crônicas.

"Eu não me envolverei com essa excrescência [...]; o tempo é muito precioso, e a safra de extravagâncias vivas pesa demais sobre minha foice para que eu venha a cegá-la com palha e restolho", disparou Holmes no fecho da catilinária.


URTICÁRIA

A "psora" parou de incomodar, mas o princípio da similitude continua causando urticária, 200 anos depois dos golpes de foice do médico americano. Teses extraordinárias, diz-se no mundo da ciência, exigem provas extraordinárias. Os fatos em apoio à tese da semelhança, contudo, prosseguem esparsos e longe de formar consenso.

O mesmo se pode dizer do princípio da dinamização (diluições sucessivas), que sobrevive como alvo preferencial dos inimigos da homeopatia no reino da ciência estabelecida. A comissão parlamentar britânica se baseou em estudos que, na sua interpretação, descartam o poder curativo dos medicamentos homeopáticos ultradiluídos. Mostrou-se tão segura que recomendou a interrupção até das pesquisas sobre a eficácia da homeopatia.

No Brasil, o Ministério da Saúde lançará em 2011 uma linha de financiamento de pesquisa sobre homeopáticos, mas não revela o montante. "É muito difícil conseguir financiamento dos órgãos de fomento para as práticas não convencionais", diz Carmem Lucia De Simioni, coordenadora de Políticas Integrativas do ministério. Segundo Simioni, não se cogita rever o apoio à homeopatia, como no Reino Unido: "Construímos uma política numa base muito sólida, com muita responsabilidade, ouvindo todos os parceiros, nos pautando pela OMS".

Os homeopatas discordam da interpretação da literatura médica pela comissão parlamentar britânica, mas concordam que ensaios clínicos constituem o padrão de ouro da evidência biomédica para chancelar terapias. Há dois tipos de estudos nessa linha de investigação.


RCT 

O tipo mais básico inclui ensaios randomizados e controlados, conhecidos pela sigla em inglês RCT. Neles, vários pacientes recrutados são distribuídos de modo aleatório (randomizado) em grupos que recebem o medicamento em teste, um composto com aparência similar desprovido da substância em causa (placebo), ou então outro remédio que se queira confrontar com o primeiro.

RCTs por vezes conduzem a resultados de alcance estatístico limitado, por usar pequenas amostras da população que um centro de pesquisa recruta sozinho. A solução é aumentar a amostra reunindo vários centros que sigam a mesma metodologia: são os RCTs "multicêntricos", que chegam a custar milhões de dólares.

Outra saída é aumentar a amostra agrupando ensaios independentes sobre uma mesma terapia, com metodologias semelhantes o bastante para permitir a somatória dos resultados. O estratagema dá origem ao segundo tipo de RCT, conhecido como estudos de meta-análise, a forma mais sólida de evidência em medicina.


META-ANÁLISE

No centro da querela da homeopatia está uma meta-análise publicada em 2005 na revista "Lancet" pelo grupo de pesquisa suíço-britânico de Aijing Shang e Matthias Egger. Eles reuniram resultados de 110 estudos de homeopatia e medicamentos convencionais, com amostras variando entre 10 e 1.573 pacientes.
As conclusões foram desfavoráveis para a homeopatia: seus resultados clínicos não seriam mais que efeitos placebo. Em editorial, a "Lancet" permitiu-se, até, alguma ironia: "Quanto mais diluída se torna a evidência em favor da homeopatia, maior parece a sua popularidade".

Os homeopatas destacam duas críticas aos métodos usados na meta-análise de Shang e Egger. A primeira veio menos de um mês depois, na própria "Lancet", e partiu de Klaus Linde e Wayne Jonas, autores de análise similar publicada em 1997. Mesmo concordando que "a homeopatia é altamente improvável", eles argumentam que o artigo não fornece base sólida para a conclusão sobre o efeito placebo.

Objeções similares foram divulgadas pelo periódico "Journal of Clinical Epidemiology" em 2008. O artigo de R. Lüdtke e A.L.B. Rutten conclui que, por força da alta heterogeneidade entre os ensaios, os resultados e conclusões de Shang são menos nítidos do que o apresentado.

No intuito de reforçar a base factual da doutrina, os homeopatas buscam apoio em todo fato e teoria que julguem confirmar sua convicção. Teixeira, por exemplo, tem à mão extensa bibliografia na área de imunologia, biofísica e farmacologia.

Fazem sucesso entre os adeptos estudos sobre a "memória da água", candidata a explicar a potência de tinturas ultradiluídas. São trabalhos polêmicos, como dois do Nobel de Medicina Luc Montagnier publicados em 2009 num obscuro periódico de Hong Kong, embora o descobridor do vírus da Aids nem mencione neles a homeopatia.


VESTÍGIO ROMÂNTICO 

Para o filósofo Sloterdijk, o fascínio da homeopatia deriva de um vestígio romântico, a noção de que tudo no mundo é eloquente. A natureza fala por meio do corpo doente, mas numa língua que ele não entende mais.
Desse ângulo, os sintomas são signos que remetem não a entidades ideais (moléstias), mas a outras coisas do mundo: substâncias químicas, dotadas de desmesurada força vital. O intérprete homeo-pata traduz esse discurso somático e restabelece, pelo diálogo, o equilíbrio perdido.

Soa fantástico, mas talvez por isso seja bem recebido por tantas pessoas, em especial as que padecem de moléstias crônicas. A homeopatia lhes dá coisas que as tecnoterapias baseadas em evidência se tornaram incapazes de oferecer, como a atenção do médico ou a perspectiva de superar o estranhamento com o próprio corpo. Desse ponto de vista, a implausível sobrevivência da homeopatia seria o sintoma renitente de uma crise na própria medicina convencional.

Até os críticos da homeopatia podem concordar com esse diagnóstico. "Tenho enfatizado com frequência que a medicina 'mainstream' tem muito a aprender sobre empatia, dedicação, tempo para ouvir etc.", concede Edzard Ernst, o alemão de cabeça fechada, que no entanto ressalva: "A boa medicina deve fiar-se tanto na arte quanto na ciência médica, não trocar uma pela outra".

As terapias mais arcanas, para Sloterdijk, terminam por encontrar-se com as promessas genômicas de uma era de medicina individual e precisa. Ele antevê uma época na qual os pacientes se entenderão cada vez mais como biogerentes de si próprios e crescerão como pilotos de seus sistemas imunes: "Daqui vislumbramos o futuro de uma medicina que lê e escreve os signos do vivente nas camadas hoje ainda não pesquisadas do texto da natureza".

domingo, 29 de agosto de 2010

Rabino diz que palestinos deveriam 'desaparecer'

A única solução não-violenta para o conflito no Oriente Médio é um boicote internacional ao Estado de Israel, semelhante ao que derrubou o regime racista da Africa do Sul.
http://en.wikipedia.org/wiki/Boycotts_of_Israel
http://www.inminds.com/boycott-israel.html
http://www.inminds.co.uk/boycott-israel.php
http://www.bigcampaign.org/

29 de agosto de 2010 | 13h 47
Agência Estado
O influente rabino Ovadia Yosef disse, durante seu sermão semanal no sábado, que o líder palestino Mahmud Abbas e seu povo deveriam "desaparecer deste mundo".

"Que todas essas pessoas sórdidas que odeiam Israel, como Abu Mazen (o nome popular de Abbas), desapareçam deste mundo", disse Yosef, líder espiritual do partido religioso Shas que faz parte da coligação de governo de Israel.

"Possa Deus atingir com a praga todos os horríveis palestinos que perseguem Israel", disse ele, dias antes de o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu reunir-se com Abbas em Washington para a retomada das conversações diretas de paz.

O negociador-chefe dos palestinos, Saeb Erekat, condenou as palavras do rabino e disse que elas eram "um incitamento ao genocídio" e pediu que o governo israelense "faça mais pela paz e pare de espalhar o ódio". "O líder espiritual do Shas está literalmente convocando um genocídio contra os palestinos e parece não haver resposta do governo israelense", disse ele em comunicado. "Ele está pedindo particularmente o assassinato do presidente Abbas que, em poucos dias, estará sentado frente a frente com o primeiro-ministro Netanyahu. É assim que o governo israelense se prepara para um acordo de paz?" Nas vésperas do encontro de quinta-feira em Washington, Erekat pediu à comunidade internacional que "condene o incitamento ao genocídio por figuras públicas de Israel".

Segundo Nissim Zeev, deputado do Shas, cujo partido tem 11 cadeiras no Parlamento de 120 integrantes, Yosef estava tentando expressar o desejo transmitido pelos textos sagrados judaicos segundo os quais Deus eliminaria os inimigos de Israel para abrir caminho para a paz.

As informações são da Dow Jones.

O colapso político do projeto do PSDB no Brasil

Sem programa, sem agenda e sem candidato com cara definida, o PSDB arrasta-se pela campanha à espera de um milagre e com um objetivo central: não perder o controle de São Paulo, onde sua blindagem também começa a fazer água. O crescimento do candidato do PT, Aloisio Mercadante, já detectado por pesquisas, acendeu a luz vermelha no quartel general tucano. Mudando de identidade e de estratégia a cada semana, campanha de Serra dá sinais de desespero e tenta se agarrar em velhas denúncias requentadas. Desorientação tucana é expressão do colapso da agenda política do PSDB para o país.


Marco Aurélio Weissheimer


Data: 27/08/2010

Por que, na contramão da maré nacional, os tucanos ainda são fortes em São Paulo? A pergunta, feita pelo sociólogo Emir Sader em seu blog nesta página, expressa a percepção cada vez mais forte de que o PSDB ingressou em uma fase de acentuado declínio. Se esse declínio é de longo, médio ou curto alcance só o tempo dirá. Mas há fatos que apontam para o fim de um ciclo político ou, ao menos, o fim de uma agenda política e econômica que, no Brasil, foi abraçada principalmente pelo PSDB. Um deles é o fato de o candidato tucano à presidência da República, José Serra, ter sido ultrapassado pela candidata Dilma Rousseff (PT) em São Paulo, o reduto mais forte do PSDB e maior colégio eleitoral do país com cerca de 30 milhões de eleitores.

Segundo o Instituto Datafolha, Dilma tem 41% das intenções de voto em São Paulo, contra 36% de Serra. Na pesquisa anterior do mesmo instituto, Dilma tinha 34% e Serra, 41%. A candidata do PT também ultrapassou Serra no Rio Grande do Sul e no Paraná. No Estado governado pela tucana Yeda Crusius, Dilma passou de 35% para 43%, enquanto Serra caiu de 43% para 39%. De modo similar, no Paraná, a candidata do PT saltou de 34% para 43% e Serra caiu de 41% para 34%.

Dilma Rousseff também está na frente dos dois maiores colégios eleitorais depois de São Paulo. Em Minas, passou de 41% para 48% (Serra caiu de 34% para 29%) e no Rio de 41% para 46% (Serra caiu de 25% para 23%). No plano nacional, ainda segundo o Datafolha (último instituto a apontar a ultrapassagem de Dilma sobre Serra), a candidata petista tem 49% das intenções de voto, contra 29% de Serra. Esses números correspondem à pesquisa divulgada pelo Datafolha dia 26 de agosto.

Curitiba é hoje a única das grandes capitais do país onde Serra tem vantagem (40% x 31%), mas mesmo aí a diferença vem caindo. Repetindo indicadores e tendências que vêm sendo apontadas por outros institutos (como Vox Populi, Sensus e Ibope), Dilma cresce em quase todos os segmentos do eleitorado.

O início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, que era considerado um trunfo pela campanha de Serra, só fez a vantagem de Dilma aumentar. Na pesquisa realizada pelo Datafolha, 54% dos entrevistados disseram que o programa de Dilma é melhor e que ela tem um melhor desempenho na TV. Serra ficou com apenas 26% de apoio neste quesito. Além disso, a percepção de vitória da candidata governista só aumenta: ainda segundo o Datafolha, 63% dos eleitores acreditam que Dilma vencerá a eleição presidencial.

O fim da Terceira Via
A queda de Serra, para além dos problemas que sua candidatura enfrenta na campanha eleitoral, expressa o declínio da agenda política do PSDB no Brasil. O fato de Serra esconder o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e utilizar a figura do presidente Lula em seu programa é a confissão de derrota de um programa. Uma derrota que não se limita ao caso brasileiro. O cientista político José Luís Fiori associa esse declínio ao fracasso da agenda da chamada Terceira Via em todo o mundo (ler artigo nesta página):

O que mais chama a atenção não é a derrota em si mesma, é a anorexia ideológica dos dois últimos herdeiros da “terceira via”. Não se trata de incompetência pessoal, nem de um problema de imagem, trata-se do colapso final de um projeto político-ideológico eclético e anódino que acabou de maneira inglória: o projeto do neoliberalismo social-democrata.

Campanha sem identidade
Essa é a chave para compreender a desorientação da campanha de Serra, que muda de cara todas as semanas. Já tivemos o Serra bonzinho, o malvado, o seguidor de Lula, o destruidor do Mercosul. A cada pesquisa e a cada ampliação da vantagem de Dilma muda a estratégia da campanha tucana. A mais recente é tentar ressuscitar o caso fraudulento de um suposto dossiê que teria sido elaborado por pessoas ligadas ao PT. Nos últimos dias, a denúncia foi requentada e voltou para as páginas dos jornais e para o programa de Serra. No contexto atual, é um tiro no pé, visto que evidencia o clima de desespero que vai tomando conta do PSDB.

Desespero acentuado pela situação do partido em nível nacional, onde seus candidatos escondem Serra de suas propagandas na TV, no rádio e mesmo em panfletos. Um dos casos mais patéticos ocorre no Rio Grande do Sul, onde a governadora tucana Yeda Crusius omite o nome de Serra de suas falas no rádio e na TV. Serra, por sua vez, não faz questão de aparecer ao lado de Yeda, que ostenta quase 50% de rejeição do eleitorado nas pesquisas que vêm sendo divulgadas.

Sem programa, sem agenda e sem candidato com cara definida, o PSDB arrasta-se pela campanha à espera de um milagre e com um objetivo central: não perder o controle de São Paulo, onde sua blindagem também começa a fazer água. O crescimento do candidato do PT, Aloisio Mercadante, já detectado por pesquisas, acendeu a luz vermelha no quartel general tucano.


Requiescat in Pace


Não se trata de incompetência pessoal, nem de um problema de imagem, se trata do colapso final de um projeto político-ideológico eclético e anódino que acabou de maneira inglória: o projeto do neoliberalismo social-democrata. Que repouse em paz !

José Luís Fiori


Data: 26/08/2010

Foi no dia 5 de fevereiro de 1998 que o ex-primeiro-ministro inglês, Tony Blair, anunciou, em Washington, junto com o presidente Bill Clinton, a decisão de convocar uma reunião internacional para discutir e atualizar a social-democracia, criando um movimento que foi chamado de "terceira via" ou “governança progressiva”. Naquele momento, brilhava a estrela do novo líder inglês, que recém havia sido empossado e conseguiu reunir, sucessivamente, em Florença, Washington e Londres, Bill Clinton, Lionel Jospin, Gerhard Schröder, Massimo D´Alema, Fernando H. Cardoso, Ricardo Lagos, entre outros governantes e intelectuais ligados de uma forma ou outra à social-democracia européia, ou ao partido democrata norte-americano.

O projeto comum era construir um novo programa que adequasse a velha social-democracia às novas idéias e políticas neoliberais, hegemônicas nas últimas décadas do século XX. O resultado foi uma geléia ideológica, com propostas extremamente vagas e imprecisas, que mal encobriam o seu núcleo duro voltado para a abertura, desregulação e desestatização das economias nacionais, e para um "prologement vaguement social de la révolution thatcheriste", como caracterizou na época, a revista francesa, Nouvelle Observateur.

Goste-se ou não, as idéias e os partidos socialistas e social-democratas deram uma contribuição decisiva à história do século XX, em particular à criação do “estado do bem-estar social”, depois da II Guerra Mundial. Mas na década de 80, a social-democracia perdeu fôlego político, e acabou perdendo a sua própria identidade ideológica, asfixiada pela grande “restauração” liberal conservadora, de Margerth Thatcher e Ronald Reagan. Isto aconteceu na Espanha, de Felipe Gonzalez, na França, de François Mitterand, na Itália, de Bettino Craxi, e também na Grécia, de Andreas Papandreu. Nos anos 90, entretanto, este movimento adquiriu outra densidade e importância, com a vitória democrata, de Bill Clinton, nos EUA, e do trabalhismo de Tony Blair, na Inglaterra.

Na América Latina, a história foi um pouco diferente, porque as novas políticas neoliberais apareceram – nos anos 80 - associadas à renegociação da dívida externa do continente, como se fossem apenas um problema de política econômica. E foi só no Chile e no Brasil, que a proposta da “terceira via” teve uma repercussão importante, durante a década de 90. No caso do Chile, com a formação da aliança entre socialistas e democrata-cristãos, e, em particular, durante o governo de Ricardo Lagos (1990-1996), que aderiu pessoalmente ao projeto liderado pelos anglo-saxões. E, no caso do Brasil, com a formação do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), e com a participação ativa do presidente Fernando H. Cardoso (1995-2002), na formulação das idéias e nas reuniões do movimento, ao lado de Tony Blair e Bill Clinton.

A “terceira via” teve uma vida muito curta. Talvez, por causa da superficialidade e artificialidade das suas idéias, talvez, porque seus líderes mais importantes acabaram sendo derrotadas nas urnas, ou passaram para a história como grandes fracassos ou blefes político-ideológicos. Como no caso do iniciador do movimento, o ex-primeiro-ministro Tony Blair, que foi afastado da liderança trabalhista em 2007, e se transformou no inimigo numero um da imprensa e da maioria da opinião publica inglesa, sob acusação de ter mentido para justificar a entrada do seu país na Guerra do Iraque, além de ter acobertado casos de tortura, por parte de suas tropas.

Tony Blair foi substituído por Gordon Brown, outro ideólogo da “terceira via” que acabou sofrendo uma das derrotas eleitorais mais arrasadoras da história do trabalhismo inglês. Bill Clinton também não conseguiu fazer seu sucessor, e passou para a história, como símbolo do expansionismo imperial americano, da década de 1990, a despeito de sua retórica “globalista” e democrática.

Os demais participantes europeus do movimento também tiveram finais inglórios, como foi o caso de Lionel Jospin, Massimo D´Alema e Gerhard Schröder, e hoje ninguém mais fala ou lembra, na Europa ou nos Estados Unidos, do projeto da “terceira via”. Mas este factóide anglo-americano teve uma sobrevida, e só será enterrado definitivamente, em 2010, na América Latina. Primeiro, no Chile, depois da derrota eleitoral da “Concertacion” de Ricardo Lagos.

E depois, no Brasil, com a provável derrota do partido social-democrata, de Fernando H. Cardoso, nas eleições presidências deste ano. Nos dois casos, o que mais chama a atenção não é a derrota em si mesma, é a anorexia ideológica dos dois últimos herdeiros da “terceira via”. Não se trata de incompetência pessoal, nem de um problema de imagem, se trata do colapso final de um projeto político-ideológico eclético e anódino que acabou de maneira inglória: o projeto do neoliberalismo social-democrata. Que repouse em paz!